SAÚDE MENTAL

Estudo com 2 mil jovens encontra pista genética ligada à gravidade da depressão

Pesquisa acompanhou 2.163 pessoas de 6 a 23 anos e identificou relação entre risco genético, evolução dos sintomas e autolesão


Redação
Publicado em 31/08/2026, às 11h07

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Jovem sentado em um ambiente escuro, com a cabeça apoiada nos braços e expressão de tristeza
Resultados podem contribuir para pesquisas sobre monitoramento e intervenção psiquiátrica precoce - Pexels


Um estudo que acompanhou 2.163 crianças e jovens de São Paulo e Porto Alegre identificou uma relação entre uma ferramenta de mapeamento genético e a evolução dos sintomas de depressão.

Os pesquisadores observaram que pessoas com maior pontuação em um escore de risco genético, para transtorno depressivo maior, tendem a apresentar agravamento mais rápido dos sintomas ao longo dos anos.

A pesquisa também encontrou uma associação entre uma pontuação genética mais elevada e a ocorrência de autolesão não suicida entre jovens que já tinham diagnóstico de transtorno depressivo maior.

O comportamento consiste em provocar intencionalmente danos ao próprio corpo, como cortes, queimaduras, arranhões ou pancadas, sem intenção de provocar a própria morte.

Os resultados foram publicados em julho pela revista Biological Psychiatry e foram produzidos por pesquisadores vinculados ao Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM).

O estudo analisou a chamada pontuação de risco poligênico, uma ferramenta que reúne informações de diferentes variantes genéticas para estimar a predisposição a uma determinada condição.

O que o estudo descobriu

Os pesquisadores acompanharam jovens com idades entre 6 e 23 anos em três fases diferentes do desenvolvimento. Os participantes fazem parte da Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC), projeto que investiga há mais de 15 anos fatores genéticos e ambientais relacionados aos transtornos psiquiátricos.

A análise mostrou que os participantes com maior pontuação de risco poligênico para transtorno depressivo maior apresentaram uma evolução mais grave dos sintomas depressivos ao longo do período analisado.

Entre os jovens que já tinham diagnóstico de transtorno depressivo maior, a pontuação também esteve associada a uma maior suscetibilidade à autolesão não suicida.

Para os pesquisadores, os resultados indicam que a genética pode ter um papel não apenas no surgimento de características relacionadas à depressão, mas também na maneira como os sintomas evoluem durante o desenvolvimento.

Ferramenta ainda não faz previsão individual

Apesar dos resultados, o estudo não significa que seja possível prever individualmente a gravidade da depressão de uma pessoa apenas com base em seu perfil genético.

Os próprios pesquisadores destacam que, para que esse tipo de ferramenta possa ser utilizado futuramente em previsões individuais, será necessário integrar os dados genéticos a informações clínicas e ambientais.

O psiquiatra Marcelo Brañas, um dos autores da pesquisa, explica que o trabalho buscou investigar se o risco genético estaria relacionado apenas ao surgimento do transtorno ou se também influenciaria a evolução dos sintomas durante o crescimento.

O pesquisador Lucas Ito, também autor do estudo, afirma que o risco poligênico para transtorno depressivo maior apresentou, entre os jovens analisados, relativa especificidade diagnóstica e associação com uma evolução mais grave da depressão.

A relação observada com a autolesão entre os participantes já diagnosticados também pode ajudar os pesquisadores a compreender mecanismos associados a manifestações mais graves do transtorno.

Importância da população brasileira

Um dos aspectos considerados relevantes pelos pesquisadores é o fato de o estudo ter sido realizado com uma população brasileira altamente miscigenada. Grande parte das pesquisas sobre risco poligênico em saúde mental foi desenvolvida com pessoas de ancestralidade europeia.

Segundo os autores, essa concentração limita a precisão dessas ferramentas quando aplicadas a populações com outras características de ancestralidade. A análise realizada no Brasil, portanto, contribui para investigar se ferramentas genéticas desenvolvidas anteriormente também apresentam utilidade em uma população diferente daquela predominante nos estudos internacionais.

Possíveis aplicações no futuro

Os resultados podem contribuir para pesquisas sobre monitoramento e intervenção psiquiátrica precoce, mas os pesquisadores ressaltam que ainda são necessários outros avanços para que as informações genéticas possam ser utilizadas em previsões individuais.

O estudo foi orientado pelo professor Eurípedes Constantino Miguel, coordenador do CISM, com coorientação de Pedro Mario Pan, pesquisador da BHRC e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e mentoria de Lois Choi-Kain, da Harvard University, nos Estados Unidos.

O CISM é um Centro de Pesquisa Aplicada apoiado pela Fapesp e sediado na Universidade de São Paulo (USP). A equipe reúne pesquisadores da Unifesp; Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ) e Centro Universitário Max Planck (UniMAX - Indaiatuba).

* Com informações - Agência Fapesp

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