Danilo Santos de Miranda faz história em Bertioga

Costa Norte
Publicado em 09/11/2012, às 19h05 - Atualizado em 23/08/2020, às 13h51

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Por Eliana Cirqueira

“Bertioga é um município com vocação extraordinária, especialmente do ponto de vista do lazer, recreação e a exploração do Turismo, de maneira inteligente. E tem que preservar a população, da melhor forma possível, dando emprego, saúde, cultura e lazer. E a educação, obviamente, é um componente vital. A questão toda é conciliar todas essas perspectivas: a Bertioga urbana, a área central, a da Vista Linda, a Riviera de São Lourenço. Esta tem que estar absolutamente integrada. É um local de férias para a classe média, mas que [precisa ter] relação com o município, não apenas pagando imposto, oferecendo condições para que ele cresça e se desenvolva”. A análise é do diretor geral do Sesc no Estado de São Paulo, Danilo Santos de Miranda. A personalidade será agraciada neste sábado (10), com o título de Cidadão Bertioguense’, em evento no Sesc-Bertioga, a partir das 11h. O homem forte do Sesc-SP conhece o município há décadas e suas memórias remontam ao período em que ele passava as férias escolares em Boracéia, na Vila Anchieta - local que atualmente é dedicado aos encontros e treinamento de professores e funcionários da escola de jesuíta São Luís -, no Litoral Norte. Danilo foi jesuíta, mas desistiu de ser padre e foi estudar Ciências Sociais na USP, aos 24 anos. “Quando a gente ia lá, antes de ter saído do seminário de jesuítas e entrar no Sesc, passava pela praia, e em frente ao Sesc [a antiga portaria de acesso da unidade era em frente à praia]. Uma vez ficamos ali atolados [de carro]. Conseguimos tirar. Se não fosse assim, perdíamos o veículo. [Nesse caminho] nas áreas de costões, tínhamos que entrar [na área de mata] e passar por pontes e voltar à praia. Até chegar a Boracéia, era assim. Não havia a rodovia Rio-Santos. Fiz isso muitas vezes. Conhecia o Sesc, porque passava por lá, mas nem tinha conhecimento daquilo, não sabia direito o que era. Nem imaginava que faria um concurso e entraria no Sesc [em 1968]”, contou Danilo, que tem mais de 40 anos de Sesc (com uma rápida passagem pelo Senac-SP).

Mudando o perfil Formado também em Filosofia, Danilo é especialista em Ação Cultural e vem mudando o perfil do Sesc paulista há anos. Seu principal traço na condução da mais expressiva instituição de cultura, lazer e ação social, é a junção da Educação e Cultura. “Educação e Cultura são dois conceitos isolados [no Brasil], com administrações à parte, recursos e estruturas a parte. Enquanto não tivermos presentes que educação e cultura estão absolutamente inseridas em toda a nossa vida, não só na escola, centro cultural e universidades, mas em toda a nossa vida, não temos saída. Então, meu conceito de educação/cultura junta esses dois elementos de maneira muito profunda, especialmente para quem tem compromisso de ordem pública, como o Sesc e a administração pública, em todos os níveis: municipal, estadual e federal.”

Futuro promissor Para o Sesc-Bertioga, local que visitou quase todas as semanas quando as filhas eram menores, Danilo destaca que o futuro é cada vez melhor. “Até porque não conseguimos repetir esse modelo de Sesc em nenhuma outra cidade do país”. O gerente geral do Sesc em São Paulo fez a avaliação considerando a estrutura e a área total da unidade, que foi pioneira no país e a primeira destinada ao lazer dos trabalhadores, em 1948. Nesta entrevista concedida por telefone na última quinta-feira (08), Danilo fala também sobre o orçamento do Sesc-SP, a escolha dos artistas pela instituição e das mudanças que o Sesc vem imprimindo em suas unidades. Aqui, é possível descobrir como 10 minutos programados para ‘extrair’ algumas informações dele, se transformaram rapidamente em mais de meia hora de conversa descontraída, com idas e vindas sobre as memórias pessoais de Danilo sobre a cidade, o Sesc-Bertioga, a ampliação e as reformas da unidade e a construção da piscina, na década de 90, que acabou sendo desenhada por ele, numa inspiração momentânea e inesquecível. Acompanhe:

JCN – O Sesc-Bertioga, há muitos anos, era chamado de “colônia de férias” e tinha como propósito ser um local onde os visitantes podiam descansar e aproveitar a praia. Hoje, o termo já não se adéqua mais e a unidade oferece além do lazer, esporte, cultura, meio ambiente e entretenimento aos hóspedes. Quando e por que houve essa mudança na política administrativa?

Danilo Miranda - É uma decorrência natural de toda uma linha de ação do Sesc no Estado de SP. Já de algum tempo, a gente tenta aos poucos ir alterando esse conceito. Tem várias razões: a ideia da colônia de férias é um conceito muito moderno nos anos 40 [quando a unidade foi criada]. Tanto que lá é a primeira do Brasil. Mas isso mudou muito, por diversas razões, ficou vinculada a uma visão um pouco massificada das férias, das pessoas pobres, trabalhadores, operários. O que não teria nada de mais se não estivesse associada a um conceito meio qualitativo, de segunda linha. O termo colônia que é aplicado para colônia de férias para jovens, estudantes, existe até hoje. Então, a ideia de colônia de férias a gente deixou de usar. Usamos o termo Sesc Bertioga, pura e simplesmente, que é um Centro de Lazer e Férias.

JCN - A recente parceria do Sesc-Bertioga com o CTN (Centro de Tradições Nordestinas de Bertioga), junto com a rádio Praia FM – 106,1, para o show de Elba Ramalho movimentou muito a cidade e atendeu grande público. Parcerias semelhantes visando sempre o acesso à cultura do povo bertioguense e região podem se repetir?

Danilo Miranda - Podem se repetir e ampliar. Mas nós tivemos no passado. Tivemos até show na praia voltado ao município (outro tipo de parceria). Antigamente fazíamos até um Carnaval para a cidade. Eu cheguei a participar. Estive em algumas festas ai, como a Festa do Havaí. (aqui, a repórter e o Danilo falam das festas e matinês que o Sesc local realizava há mais de duas décadas, no Ginásio de Esportes da unidade, no período do Carnaval e que eram abertas a toda a comunidade de Bertioga, inclusive, com os grandes concursos de fantasia). Estamos retornando a isso, mas com outras características, com programas mais voltados à Educação e Cultura e não tanto para o lazer e recreação.

JCN – Qual o orçamento do Sesc no Estado de São Paulo? Desse valor, quanto deve ser aplicado em Bertioga?

Danilo Miranda - O Sesc tem hoje orçamento em torno de R$ 1 bilhão, no Estado de São Paulo, voltado para todas as atividades, nas 33 unidades e que inclui Bertioga. [desse total] A cidade participa em torno de R$ 25 a 30 milhões [o que representa de 2,5% a 3%].

JCN – O Sesc não só ajuda a promover a cultura, mas também divulga, por meio da editora Sesc, da TV. É praticamente um selo de qualidade que o artista ganha, tendo seu CD, livro ou obra 'patrocinada' pelo Sesc e exposta em qualquer uma das unidades. Como é feita essa seleção dos artistas?

Danilo Miranda – Com qualidade, compromisso, seriedade e educação. Com mudança, inovação, acessibilidade, tolerância, com respeito ao ser humano, a diversidade. São esses conceitos. Tudo isso está inserido para definir a nossa programação. E tem espaço para novas mídias. Se nós não fizermos a inovação dando oportunidade para aqueles que querem experimentar, quem é que vai fazer isso? Isso é uma obrigação que só quem tem caráter público na sua perspectiva pode fazer. E certa independência, ou seja, não dependo do resultado financeiro da minha operação, porque as empresas sustentam o Sesc.

JCN – Quais são as ideias daqui para frente que o Sesc vai implantar? Danilo Miranda - Nós temos uma perspectiva ambiental importante, tanto que tem uma RPPN [Reserva Particular de Patrimônio Natural] em fase de implantação. Está saindo. Primeiro tem o cercamento da área, que já está feito. Segundo: o Plano de Manejo. Para verificar o estado da fauna, a flora, as características. Ao todo, é uma área de 60 hectares. E essa é uma área que os interesses imobiliários certamente teriam muita vontade de ter, para colocar a continuação da cidade. Porque interrompe o município [já o terreno todo do Sesc corta ao meio Bertioga]. Somos a favor da cidade. Isso vai ser um privilégio de tal ordem, que talvez no litoral brasileiro não haverá nenhuma outra cidade com uma RPPN dentro [da sua região urbana]. E esta é a terceira RPPN do Sesc, em nível nacional.

JCN – E como vai funcionar essa RPPN?

Danilo Miranda - Uma hora vamos ter que abrir para visitação e não podemos fazer isso sem um Plano de Manejo completo, sem saber exatamente o que vai precisar ser feito. Como serão as visitas ao local. Teremos visitas controladas. Hospedes lá dentro. Vamos construir um espaço, numa área adequada. Então, é um tipo de ocupação muito enobrecedora da região toda.

JCN – Essa área do Sesc já é preservada muito antes dos conceitos modernos de sustentabilidade e preservação...

Danilo Miranda - É uma área preservada, claro que com o conceito da época. Tanto que o Sesc, para dar um exemplo muito claro e uma coisa que nós não faríamos hoje. E eu não tenho nenhum receio, nenhum pejo de falar sobre isso. O Sesc quando instalou a antiga colônia de férias, fez em nome de um aterro, trouxe coqueiros do Nordeste, implantou esse coqueiral maravilhoso que tem no Sesc Bertioga. Na época, o conceito de valorização, de cuidado, de preservação ambiental era esse. Conceito hoje superadézimo. Agora temos plantas nativas e trabalhamos com a ideia de uma utilização adequada, sustentável. Absolutamente cuidadosa.

JCN – O Sesc Bertioga tem uma história pioneira na trajetória do Sesc, tendo sido a primeira unidade voltada ao lazer e cultura para os comerciários, desde 1948. De lá para cá, são dezenas de unidades com esse foco, somente no Estado de São Paulo. Como o Sesc Bertioga ajudou a mudar os rumos do Sesc e como o senhor atuou nesse sentido?

Danilo Miranda - Sem dúvida, o conceito de férias no Brasil, para o trabalhador, mudou com o Sesc Bertioga. Todas essas colônias de férias de sindicatos, de federações, de confederações e entidades que existem, inclusive no Litoral Norte e em Praia Grande, foram inspiradas no Sesc Bertioga. Hoje, vejo Bertioga como uma espécie “mediterrane” (clima de verão) dos trabalhadores, porque ali você tem alimentação de primeira. Não tem aquela alimentação gastronômica metida, de cinco estrelas. Não precisa. Não é o caso. Você tem um plano de ocupação do tempo absolutamente extraordinário, melhor do que muitos lugares até para classe AA, e acomodação sendo melhorada a cada tempo. As novas acomodações feitas lá, já possuem novos conceitos, de espaço, de ocupação, e os novos pavilhões que estamos trocando e mudando, estão se modernizando, não temos mais aquele conceito de cama/beliche para todo mundo.

JCN – Que é um conceito que entra no de colônia (as camas beliches)...

Danilo Miranda - Exatamente. Você matou. (ele continua). Aquela piscina de Bertioga, sou suspeito porque ajudei a fazer o desenho dela. Acho que não tem piscina mais bacana, bonita e bem colocada em todo o litoral brasileiro, mesmo em hotéis cinco estrelas. Porque ela não é uma piscina plana. É levantada. Para você ter a noção do mar presente dentro da piscina. [na época] Um arquiteto desenhou uma piscina olímpica, esportiva. Mas quando vi, disse: não é isso que tem que ter em Bertioga. O arquiteto me desafiou na hora, numa boa e perguntou: Escuta, como é que você quer essa piscina? Eu disse: faria uma coisa mais ou menos assim: fiz uma ameba, um desenhão. Ele pegou aquilo e mandou calcular e deu naquela piscina que está lá, que é uma piscina para convivência. Ela é cheia de bainhazinhas, de reentrâncias, para as pessoas ficarem sentadas, reunidas, conversando, e vendo o mar. Eu diria que hoje, junto com o mar, claro, é a maior atração de Bertioga [do Sesc].

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