Tubarões deixam de ser os temidos “reis dos mares” quando se deparam com grupos de orcas. Nova “hierarquia” intriga cientistas

Os tubarões-brancos são os seres vivos mais temidos dos mares devido aos seus ataques, que podem resultar em traumas gravíssimos e até fatalidades, gerados pela força de sua mordida, que pode chegar até 1,8 tonelada. Eles vivem em praticamente todos os oceanos do mundo, com forte preferência por águas costeiras e oceânicas e podem migrar milhares de quilômetros em mar aberto, desde a superfície até profundidades que podem chegar até 1,2 mil metros.
E o Brasil serve como um corredor importante para esses viajantes oceânicos. Os principais pontos de avistamento já mapeados por pesquisadores estão concentrados no sudeste e sul do país, com picos entre a primavera e o verão, especialmente em Ilhabela, (o ano inteiro, principalmente no verão), Laje de Santos (entre janeiro e fevereiro), além de Cabo Frio, Ilha Grande e Florianópolis, onde surgem entre a primavera e o verão.
Apesar de temidos por causa de sua alta agressividade, o que muita gente não sabe é que os tubarões-brancos fogem quando percebem a aproximação de orcas, abandonando seus territórios em questão de minutos, mesmo que estejam diante de um suculento banquete. Essa descoberta intriga cientistas e revela uma nova hierarquia nos mares.
Estudos publicados nas principais revistas científicas do mundo mostram que as orcas, apesar de serem dóceis, possuem uma técnica de caça cirúrgica e devastadora. Elas viram o tubarão de barriga para cima e induzem um estado de paralisia conhecido como imobilidade tônica, retirando o fígado calórico antes de abandonar a carcaça. Pesquisadores acompanharam o fenômeno em águas sul-africanas, californianas e mexicanas.
O comportamento de fuga é tão intenso que tubarões abandonam zonas de caça preferenciais por até um ano após o aparecimento das orcas. A simples presença do predador maior basta para esvaziar áreas inteiras de concentração desses peixes.
O segredo está na inteligência social e na coordenação do grupo predadorO. As orcas atacam em formação, transmitem técnicas entre gerações e adaptam estratégias conforme a presa. A caça coordenada das orcas é feita por grupos de quatro a cinco indivíduos, que avançam lado a lado em alta velocidade. Depois é feita a indução de paralisia, virando a presa para neutralizar reflexos defensivos. As orcas, que usam ecolocalização precisa para coordenar movimento, focam nos grupos de tubarões-brancos jovens, menos experientes, para reduzir riscos. As técnicas são passadas de mãe para filhote.
As duas regiões são consideradas o ponto mais rico em fauna marinha do Brasil. José Truda Palazzo Júnior, diretor do Instituto Baleia Jubarte, identificou 15 espécies de baleias e golfinhos vivendo nas águas de Ilhabela. Um grupo residente entre 55 a 60 orcas circula pelo entorno do arquipélago, segundo ele, e é visto o ano inteiro.
O fenômeno da ressurgência traz águas frias e nutrientes para a superfície, atraindo cardumes e as orcas. Não há registro histórico de ataques de orcas a humanos em águas brasileiras. As embarcações de turismo de observação seguem protocolos para manter distância respeitosa dos animais.