ATO DE AMOR

A luta por mais uma chance: a jornada da transfusão de sangue para pets

História de Ravi, gato que sobreviveu a 9 cirurgias em Bertioga, expõe os desafios do procedimento que se torna uma árdua luta contra o tempo

A luta por mais uma chance: o drama da transfusão de sangue para pets
Jornada de Ravi, que sobreviveu a 9 cirurgias, nos ensina sobre amor e a importância da doação - Arquivo pessoal/Cátia Lisboa


Ravi foi um gatinho abandonado ainda filhote por ser paraplégico. Sua vida foi marcada por desafios enormes, mas também por uma imensa vontade de viver. Para que ele tivesse essa chance, um procedimento foi fundamental em diversos momentos de sua jornada: a transfusão de sangue.

A história de Ravi, que viveu por quase três anos em Bertioga sob os cuidados de sua tutora, Cátia Lisboa, e da equipe da clínica Petit-Colosso, joga luz sobre um dos maiores desafios da medicina veterinária em cidades distantes de grandes centros: o acesso a bolsas de sangue para cães e gatos.

O 'calcanhar de Aquiles'

"A transfusão na veterinária é um calcanhar de Aquiles", define Carolina Ohelmann, veterinária e sócia-proprietária da clínica Petit Colosso.



A gente tem situação de falar: 'meu Deus, eu queria poder tirar da minha veia e pôr nesse animal'. Porque, às vezes, a gente está pedindo em todos os pets, pedindo em banco, e não tem, principalmente a de gato", afirma.

Quando um animal precisa de sangue, inicia-se uma corrida contra o tempo. Longe de ser um procedimento simples, encontrar uma bolsa de sangue compatível se transforma  uma verdadeira "caçada", como descreve a veterinária.

As opções são duas: acionar os bancos de sangue, localizados em sua maioria em Santos ou São Paulo, ou contar com uma pequena e restrita rede de doadores locais.

A caçada pela bolsa

O processo de obter uma bolsa de um banco de sangue é complexo. Envolve contatar diversos laboratórios, verificar a disponibilidade e, então, iniciar uma operação logística. "Uma amostra de sangue do nosso paciente precisa ser levada até o laboratório pelo próprio motoboy que vai trazer a bolsa, para que seja feita a prova de compatibilidade lá", explica Carolina.



Carolina Ohelmann, veterinária e sócia-proprietária da clínica Petit Colosso | Reprodução
Carolina Ohelmann, veterinária e sócia-proprietária da clínica Petit Colosso | Reprodução

O custo é um dos maiores obstáculos. "O valor da bolsa pode ir de R$ 450 a R$ 600, e a gente chega a pagar R$ 900 de frete. Já tivemos transfusão de R$ 2 mil aqui", detalha. O tempo também é um inimigo: "O mais ágil acaba sendo duas horas e meia, no mínimo. Mas pode levar quatro, seis horas".

A história de Ravi

Foi nesse cenário de urgência que Ravi lutou por sua vida. Sua tutora, Cátia Lisboa, relembra a jornada do pequeno guerreiro. "Ravi foi um gatinho abandonado ainda filhote por ser paraplégico. Desde muito cedo, a vida dele foi marcada por desafios enormes", conta.



Ravi passou  nove cirurgias complexas, como a extração de pênis e a amputação de um membro, além de crises de cálculo renal e infecções recorrentes.

Sua tutora, Cátia, é enfática ao afirmar que, para que ele pudesse sobreviver a tudo isso, o papel das transfusões de sangue foi fundamental.

Em várias dessas situações, as transfusões de sangue foram fundamentais: sem elas, ele não teria resistido às complicações cirúrgicas nem às crises que enfrentou".

"Graças a esses procedimentos e a todo o cuidado que recebeu, Ravi pôde viver com liberdade e aproveitar a vida por quase três anos, de 16 de dezembro de 2022 a 25 de julho de 2025", finaliza.



Doação entre amigos: uma prova de solidariedade

Quando os bancos de sangue não são uma opção, a solidariedade da comunidade se torna a única esperança. É comum que tutores em desespero busquem amigos ou conhecidos que tenham um pet saudável e com porte para ser um doador.

Mesmo nesse caso, há desafios. O custo inicial de exames para triar um novo doador custa, em média, R$ 350. A veterinária conta que a clínica já passou por situações em que um tutor arcou com os custos do teste do animal de um amigo, apenas para descobrir que ele não poderia doar.

"Já pegamos dois animais que vieram de conhecidos [...]. A gente testou lá na triagem rápida e detectou [uma doença]. E aí, o tutor arcou com o custo do exame e deu o tratamento pro bichinho. Descobriu uma condição por meio daquele ato".



O núcleo de doadores locais

Para os casos extremamente urgentes e para tutores sem condições financeiras, a clínica mantém um pequeno núcleo de doadores de confiança, um "banco interno" formado por cães da própria equipe e de familiares. É um "trabalho de formiguinha", como define Carolina, que depende de poucos e valentes animais, como seu próprio cão, Stallone.

Stallone: nem todo herói usa capa | Reprodução/Petit Colosso
Stallone: nem todo herói usa capa | Reprodução/Petit Colosso

No caso dos cães, algumas condições são necessárias para que se torne um doador. Entre elas estão:



  • Peso corporal mínimo de 25kg para garantir volume adequado de coleta;
  • Idade entre 1 e 8 anos;
  • Temperamento dócil e cooperativo, para permitir contenção sem necessidade de sedação;
  • Clinicamente saudável, sem histórico de doenças infecciosas ou crônicas;
  • Exame físico completo dentro da normalidade;
  • Vacinação e vermifugação em dia. Além disso, é necessário intervalo de pelo menos duas semanas após vacinação antes da doação;
  • Livre de pulgas, carrapatos e outros ectoparasitas.

Atitude que salva vidas

A história de Ravi e a saga para conseguir uma bolsa de sangue mostram que, por trás de cada transfusão, existe uma complexa rede de esforço, custo e, acima de tudo, solidariedade.

"Contar a história do Ravi é reforçar a importância da doação de sangue, que pode, literalmente, transformar a luta de um bichinho em tempo de vida, amor e dignidade", conclui Cátia.

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