“Seu Camilo” aguarda transferência de hospital
Bertioga
Marina Aguiar
Armando Camilo, 66 anos, tem uma vida incomum. Embora fale três idiomas e seja aficionado por livros, “seu Camilo”, como é conhecido, vive nas ruas de Bertioga há alguns anos e trabalha como catador de recicláveis. Já foi garçom, barman, maître, cozinheiro, guia turístico e atirador. Hoje é mais um dos que passam diariamente pelas vias da cidade, mas chama atenção pela matilha que o acompanha: seis cachorros. A condição deve-se à falta de oportunidades e ao alcoolismo.
Na tarde do dia 20 de julho, envolveu-se em uma briga com outra pessoa em situação de rua e fraturou o fêmur em um acidente com o outro homem. “Ele me acusou de roubar suas latinhas e veio na minha direção para brigar, mas tropeçou e caiu com os dois joelhos na minha perna. Mandei ele ir embora, tomar a pinguinha dele e me deixar em paz. Chamaram a ambulância pra mim, em 15 minutos a viatura chegou e me socorreu”. Tranquilo, o catador não prestou queixa, e confirmou ter sido um acidente infeliz. O catador está internado no Hospital de Bertioga e aguarda transferência para uma unidade de saúde da região que realize a cirurgia necessária. No local, ele foi diagnosticado com anemia e princípio de pneumonia e está em tratamento. No entanto, a maior preocupação de Camilo são os cachorros que o acompanhavam.
Pitoca, Amarelo e Sadan estão em lares definitivos e Pititica e Kioko estão em lares temporários e precisam de um novo dono. A sexta cadela, Gretchen, está na casa da dona anterior, mas voltará para Camilo quando ele se recuperar. “A Gretchen é o meu xodó, não quero deixar ela. Ela morava em uma casa e quando eu passava na rua dela, ela vinha atrás de mim, quando ficava longe eu mandava ela voltar. Com o tempo ela foi ficando mais comigo do que na casa dela e hoje é minha”, riu.
O amor pelos animais começou quando Camilo morou na África. Lá, ele cuidou de animais de grande porte, como elefantes e rinocerontes, enquanto trabalhava em uma reserva ambiental. “Foi o país que eu mais amei, gosto da selva, da mata, dos animais. Eu era atirador de tranquilizantes. Quando tinha algum animal ferido, me chamavam pra tranquilizar ele e depois levavam pra reserva para cuidar dele”, descreveu. Fluente em inglês, português e suaíle, um dialeto africano comum no Quênia, Camilo teve uma vida agitada. Nasceu em São Bernardo do Campo, em São Paulo, e foi para a África ainda jovem, com seus pais adotivos. “Meus pais eram ingleses e me adotaram com 3 anos. Morei na Califórnia [nos Estados Unidos] por um tempo e depois fomos para a África. Meu pai era reverendo de uma igreja anglicana, mas era racista. Não aceitava minha convivência com os negros”. Após vários desentendimentos com o pai, Camilo decidiu voltar ao Brasil e começaram as dificuldades. Sem emprego, Camilo catava latinhas e outros materiais recicláveis. Tinha altos e baixos, dormia nas ruas ou em quartos alugados. Conheceu a mulher com quem conviveu por 11 anos, em uma praça no centro de São Paulo e vieram para Bertioga. Na cidade trabalharam como caseiros, depois moraram em um barraco, tiveram desavenças e Camilo saiu de casa. Atualmente, o catador está há alguns anos na rua e não se arrepende. “Tenho muitos amigos que me ajudam e ajudam meus cachorros, agradeço muito por isso”. Uma das amigas é Gisele Guerra; em uma semana ela movimentou cerca de 50 pessoas para ajudar a cuidar dos cães de Camilo e doar alguns itens para o catador enquanto aguarda a cirurgia. “Desde muito jovem sou envolvida com a causa animal. E com moradores de rua, quando mudei pra Bertioga; nos últimos cinco anos, percebi que aumentou muito o número de pessoas que vivem nessa condição. Faço marmitex e entrego pra eles, o seu Camilo eu conheci desse jeito. Em uma noite de frio perguntei o porquê dele não ir para o abrigo, ele respondeu que não poderia levar os cachorros. Aí ficamos muito amigos” Gisele ficou responsável pela adoção dos cães e avisa aos quiserem adotar os animais, que passarão por entrevistas e visitas antes de pegar os animais para que não haja abandono ou maus-tratos. Ela alerta também que esses animais precisam de lares que tenham outros cachorros, pois gostam de viver em grupo. Para adotar um animal ou contribuir com “seu Camilo” basta ligar para Gisele no telefone: (13) 98134 8734.
Cirurgia
A Secretaria de Saúde de Bertioga informou, por meio de nota, que o paciente está inserido na Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross) para conseguir uma vaga de ortopedia e afirmou não ter data para a remoção. “Não temos previsão, pois a regulação das vagas é feita pela Central”. Questionada, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo confirmou ter sido realizado o pedido de transferência, mas ainda não foi definida a unidade de Saúde que atenderá o paciente.