Jorge 'Fênix' Azevedo representa a Baixada Santista na 2ª edição do Trans Fighter Championship, em São Paulo, no dia 30 de maio

No país que lidera os índices de violência contra pessoas transgênero, o esporte tornou-se uma importante ferramenta de acolhimento, resistência e transformação social. No sábado (30), o lutador de São Vicente Jorge 'Fênix' Azevedo será a principal atração da segunda edição do Trans Fighter Championship, o maior evento de MMA voltado para atletas trans do Brasil, com sede em São Paulo.
Homem trans, negro e periférico da Baixada Santista, Jorge construiu nas artes marciais muito mais do que uma carreira esportiva: encontrou um espaço de pertencimento, fortalecimento pessoal e afirmação da própria identidade. Ele soma mais de 15 anos dedicados ao esporte.
A trajetória de Fênix começou longe do octógono. Na juventude, o lutador frequentava a quadra do antigo Centro Esportivo Dondinho, em São Vicente, onde iniciou a prática do basquete. Em um período delicado da vida, o esporte virou refúgio e abriu caminho para modalidades como o taekwondo e a capoeira.
A estreia nos ringues ocorreu em um campeonato de K-1, durante um dos momentos mais difíceis de sua vida: o início da transição de gênero e o luto pela perda recente da mãe. Mais do que uma vitória esportiva, o combate representou uma afirmação de existência.
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Mais tarde, Jorge encontrou no MMA a liberdade necessária para unir diferentes estilos de luta. Atualmente, ele possui faixa azul de jiu-jítsu pela equipe G13, sob orientação do sensei Marcos Augusto, e corda roxa de capoeira pelo Grupo Raízes de Vila Nova, com supervisão do mestre Ron. O atleta também integra a equipe Lelo Sports MMA, comandada pelo sensei Lello Caetano.
Minha luta é para quebrar barreiras e mostrar que o esporte deve ser para todos, sem discriminação”.
No currículo, Fênix acumula títulos importantes, como o campeonato CSC Praia Grande e a medalha de ouro por equipes nos Jogos Abertos do Interior, em Barretos.
Os desafios enfrentados por atletas trans geralmente começam antes do combate. Sem apoio fixo de bolsa-atleta, Jorge divide a rotina entre os treinos e o trabalho como educador esportivo em escolas da região e instrutor de capoeira em projetos comunitários.
O dia do lutador começa antes das 6h. O primeiro treino ocorre às 7h e, ao longo do dia, ele concilia as atividades profissionais com sessões de musculação, fisioterapia e treinamentos técnicos.
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Jorge destaca: “A luta começa antes do ringue. A gente começa batalhando aqui embaixo para, lá em cima, mostrar só o melhor”.
No Trans Fighter Championship, Fênix enfrentará Gabriel Sampaio na categoria masculina combinada T3/T4, peso leve até 70,3 quilos. Em um cenário internacional marcado por discussões e restrições sobre a presença de atletas trans em competições esportivas, Jorge enxerga no torneio um importante espaço de representatividade e acolhimento.
Mais do que buscar vitórias dentro do octógono, o atleta deseja abrir caminhos para outras pessoas trans, especialmente jovens periféricos que sonham em ocupar espaços historicamente negados.
O lutador finaliza: “O recado que eu deixo para os jovens trans é: a gente está vivo. A gente é resistência. Não deixem que coloquem vocês em lugar nenhum que não queiram. O lugar de vocês já existe”.