Conexão viária facilitará a integração regional entre pessoas, negócios, passeios e culturas

O trecho de água entre Guarujá e Santos é uma barreira para quem precisa trabalhar, estudar, buscar serviços ou simplesmente circular entre as duas cidades. O futuro túnel Santos-Guarujá pode mudar essa relação. Ainda não há veículos circulando por suas pistas, nem pedestres caminhando de um lado ao outro. Há, por enquanto, um projeto em preparação, um cronograma a cumprir e uma expectativa que atravessa gerações.
O empreendimento prevê cerca de 1,5 quilômetro de extensão, dos quais aproximadamente 870 metros serão submersos, três faixas por sentido, passagem para pedestres e ciclistas e espaço adaptável para o veículo leve sobre trilhos (VLT).
O cronograma prevê a implantação dos canteiros e da doca seca em 2027; fabricação dos módulos em 2028; imersão e montagem em 2029; acabamentos e testes em 2030 e o início da operação em 2031.
Mas a ligação seca já provoca uma pergunta: o que ocorre com uma cidade quando aquilo que, durante décadas, funcionou como barreira deixa de determinar seus caminhos? Além da solução no campo da mobilidade, a proposta poderá alterar a forma como Guarujá se relaciona com Santos e como seus moradores acessam trabalho, estudo, saúde e serviços.
Para Carlos Silva Jr., arquiteto, urbanista e integrante da Comissão Técnica Túnel Guarujá-Santos, da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Guarujá, a mudança pode ser histórica.
Acredito que ela represente um avanço civilizatório, já que o sistema de travessias por balsas é atrasado e ineficiente do ponto de vista econômico, social e ambiental”.
O arquiteto destaca que recentes relatórios apontam uma média de 23 mil veículos por dia nas travessias; uma parcela significativa desse movimento tem origem em Guarujá, de onde moradores atravessam diariamente para trabalhar, estudar e buscar serviços em Santos. Com a ligação direta, o deslocamento tende a ganhar previsibilidade e reduzir o tempo gasto diariamente.
A aproximação física tende a produzir outro efeito: a projeção econômica. Com o acesso facilitado, Guarujá poderá se tornar mais atrativo para empresas, prestadores de serviços, investidores e novos empreendimentos.
Mas a nova conexão também impõe uma condição: preparar a cidade para absorver os efeitos desse crescimento. É uma preocupação que ultrapassa a obra em si. Gabriella Vieira, profissional com mais de duas décadas de atuação em arquitetura, urbanismo e gestão de projetos, acompanha a transformação das cidades por uma perspectiva que vai além dos números e dos investimentos e, por isso, é enfática:
Crescimento econômico não é, sozinho, sinônimo de desenvolvimento urbano”.
Segundo Gabriella, a diferença está na forma como esse crescimento será absorvido. Túnel, aeroporto, expansão portuária e novos empreendimentos imobiliários podem trazer investimentos, empregos e valorização, mas também aumentam a necessidade de infraestrutura, mobilidade, habitação, saneamento e serviços públicos.
A urbanista lembra que a solução passa pelo planejamento integrado e pela participação da população.
O risco de crescer
Neste novo cenário, Vicente de Carvalho deverá estar entre os territórios mais afetados. O distrito concentra grande parcela da população, comércio e serviços e deve receber intervenções relacionadas à chegada do túnel e aos acessos para a avenida perimetral, o futuro aeroporto e a rodovia Cônego Domênico Rangoni.
Conforme aponta o urbanista, o desenvolvimento precisa vir acompanhado de mecanismos capazes de impedir que a valorização imobiliária se transforme em expulsão da população que hoje ocupa o território.
Assim como aconteceu em Santos, o alto preço dos imóveis pode expulsar a população de Vicente de Carvalho e pressionar pela ocupação de novas áreas irregulares”.
A cidade não dispõe de grandes extensões livres para uma expansão ilimitada, e parte importante do território está submetida a áreas de proteção ambiental. Por isso, ele defende que o poder público se antecipe aos efeitos da valorização.
Nesse sentido, é importante que o poder público atue de forma a regular o uso do solo e capturar o valor gerado sobre a terra a partir da construção do túnel, revertendo em melhorias sociais para as populações locais mais afetadas”.
A administração pública afirma trabalhar nessa direção. A secretária de Planejamento Estratégico de Guarujá, Daniela Mariano ressalta que o crescimento precisa respeitar a capacidade da infraestrutura existente e a identidade dos bairros.
O objetivo técnico é preparar o município para essa nova conexão, antecipando os impactos urbanos e viários, especialmente para os moradores e trabalhadores das áreas próximas, e assegurando que essa transformação ocorra de forma planejada, com soluções efetivas de trânsito, acessibilidade e qualidade de vida para a população”, define.
Pensando além, Carlos Silva Jr. enxerga efeitos que ultrapassam a fronteira entre Santos e Guarujá.
Com a obra do túnel será criado um corredor de conexão regional, possibilitando uma via de conexão expressa desde Bertioga, passando por Guarujá, Santos, São Vicente, Praia Grande e litoral sul”.
A ilha de Santo Amaro já passou por grandes momentos de inflexão provocados por novas conexões. Primeiro, no século XIX, quando a ligação por barcaças com Santos ajudou a viabilizar a criação da Vila Balneária. Depois, com a rodovia Cônego Domênico Rangoni, que contribuiu para o ciclo de expansão imobiliária que marcou Guarujá a partir dos anos 1970.
Agora, Carlos vê a possibilidade de um terceiro capítulo.
O túnel Santos-Guarujá será, sem dúvida, um terceiro ciclo de transformação de Guarujá e da Baixada Santista. Devemos, portanto, aprender com os erros do passado e tornar essa obra, além de uma conexão viária entre as margens de um porto, a integração regional das pessoas, dos negócios, dos passeios, das amizades, das culturas locais”.