Do enfrentamento da poluição ao engajamento coletivo, o manguezal de Cubatão espelha a força de uma cidade que aprendeu a cuidar do seu território

Cubatão abriga uma das maiores riquezas ambientais da Baixada Santista: cerca de 15 quilômetros quadrados de manguezais integrados ao mosaico da Mata Atlântica que envolve a cidade.
Esse ecossistema desempenha funções essenciais para o equilíbrio ambiental da região. Além de funcionar como berçário natural para diversas espécies marinhas, ele atua como barreira contra erosões e inundações e, também, como importante reservatório de carbono azul, contribuição essencial para o enfrentamento das mudanças climáticas.
Apesar de sua importância ecológica, a preservação desses ambientes enfrenta desafios constantes.
O secretário municipal de Meio Ambiente, Segurança Climática e Bem-Estar Animal, Cleiton Jordão, ressalta que grande parte do lixo que chega aos manguezais não é gerado diretamente na cidade, mas transportado por correntes marítimas e rios que desembocam na região.
Segundo ele, o combate ao problema exige mais do que ações pontuais de limpeza.
O manguezal não pode ser visto como destino final do lixo. Precisamos reforçar continuamente a importância da cidadania, da separação correta dos resíduos e do envolvimento da população para evitar que esse material chegue aos rios e ao mar”, afirma.
Para tanto, a prefeitura atualizou, em 2025, o Plano Municipal de Resíduos Sólidos, no qual incluiu o combate ao lixo no mar como meta estratégica. Entre as ações implantadas, firmou-se contrato com uma cooperativa responsável pela coleta diária de resíduos nos rios que atravessam a cidade.
Somente em 2025, cerca de 24 toneladas de lixo foram retiradas das águas. O município também investe na instalação de novas ecobarreiras e na aquisição de um barco de apoio para reforçar as operações de limpeza.
Esse trabalho conta ainda com a colaboração de instituições como o Centro de Pesquisa em Meio Ambiente (Cepema), da Universidade de São Paulo (USP), e organizações da sociedade civil como a ONG Limpa Rio.
Mais do que políticas públicas, a conservação dos manguezais de Cubatão também nasce da relação afetiva entre moradores e território. Exemplo desse movimento é o projeto Manguezal Vivo, criado em 2021 por um grupo multidisciplinar formado por biólogos, educadores, artistas e comunicadores da região.
Iniciativa surgiu no período pós-pandemia, com o propósito de aproximar a população do ecossistema local e estimular nova percepção sobre os manguezais, vistos não apenas como área natural, mas como patrimônio ambiental, cultural e socioeconômico da cidade.
Entre as principais atividades está a Expedição Manguezal Vivo, trilha aquática guiada por meio de caiaques e canoas havaianas. A imersão convida os participantes a navegarem por águas calmas e interagirem com a rica biodiversidade de forma acessível e segura.
Além das expedições, o projeto promove ecomutirões comunitários de limpeza e leva oficinas de cultura oceânica para escolas e empresas. Para os ativistas, o futuro da cidade passa, obrigatoriamente, pela valorização do patrimônio natural e humano, movimento que ganha forma a partir da base do instituto, localizada na rua Agostinho Lourenço Vilete, 29, no Jardim Nova República.
Outro exemplo da força da mobilização comunitária é o projeto Guará-Vermelho, coordenado pela ONG Nudaer, com apoio da Petrobras e da prefeitura de Cubatão.
A iniciativa começou de forma espontânea, em 2018, quando um grupo de familiares e amigos decidiu organizar mutirões para limpar as margens do rio Cubatão. O engajamento crescente levou à formalização da associação e, em 2021, o projeto foi selecionado em edital socioambiental da Petrobras voltado à recuperação de florestas.
O nome do projeto homenageia o guará-vermelho, ave símbolo da recuperação ambiental da cidade, e que tem nos manguezais seu principal habitat de alimentação e reprodução. O objetivo principal é despoluir os rios Cubatão e Casqueiro.
Entre 2022 e 2024, os resultados surpreenderam. Foram instaladas três ecobarreiras no rio Casqueiro, retiradas mais de 90 toneladas de resíduos e recuperados mais de cinco hectares de áreas degradadas. O impacto social também se destacou: seis ecomutirões reuniram 489 moradores, que recolheram cerca de dez toneladas de lixo.
A educação ambiental ocupa papel central nas ações do projeto. Atividades superaram 700 horas e foram ministradas para crianças da rede municipal de ensino, além de palestras e encontros que alcançaram mais de mil pessoas.
Plantio de centenas de mudas contribuiu substancialmente para a recuperação do ecossistema e para o sequestro de carbono. Os resultados consistentes garantiram renovação da parceria por mais 48 meses, a partir de outubro de 2025, com expansão das ações de pesquisa e monitoramento para a cidade vizinha de Santos.