Aos 77 anos, o município que decifrou o enigma entre indústria e natureza consolida-se como o hub estratégico da economia de baixo carbono no Brasil
Luciana Sotelo
Publicado em 07/10/2026, às 21h00

Situado entre a Serra do Mar, um dos mais importantes remanescentes de Mata Atlântica do país, e do maior complexo portuário da América Latina, Cubatão alcança o marco de 77 anos em novo momento de sua trajetória industrial e ambiental. Após transformar uma das crises ecológicas mais graves da história, em referência internacional de recuperação, o polo agora busca ocupar espaço estratégico: tornar-se protagonista da transição energética e da economia verde no Brasil.
Nas últimas décadas, Cubatão desfez-se do estigma de impactos ambientais e passou a ocupar lugar singular no debate sobre desenvolvimento sustentável, tornando-se exemplo de regeneração em área fabril ativa.
Polo Industrial Estratégico
Integrante da Região Metropolitana da Baixada Santista, o centro produtivo consolidou-se, a partir da segunda metade do século XX, como um dos mais relevantes do Brasil. Refinarias, siderúrgicas, indústrias petroquímicas e de fertilizantes transformaram a área em eixo essencial da economia nacional, impulsionando empregos e investimentos.
Rodovias como o Sistema Anchieta–Imigrantes ligam o parque ao planalto, enquanto a proximidade com o Porto de Santos fortalece a integração com o mercado global.
Para o cientista político Alcindo Gonçalves, o papel econômico do parque industrial foi decisivo para a formação regional.
Esse parque, iniciado na década de 1950 com a Refinaria Presidente Bernardes e, posteriormente, reforçado pela instalação da Cosipa e de indústrias petroquímicas e de fertilizantes, teve influência notável no desenvolvimento da Baixada Santista como polo de emprego e renda”, afirma.
Hoje, essa base continua sendo pilar fundamental. Segundo o Censo 2022 (IBGE), a população soma 112.471 habitantes. No campo econômico, os indicadores são expressivos: em 2021, o Produto Interno Bruto (PIB) ultrapassou R$21,9 bilhões, com crescimento superior a 37%. A indústria responde por cerca de 65% da economia local, ratificando a relevância do polo para o estado de São Paulo.
Virada Ambiental
Antes de projetar o futuro, foi necessário enfrentar o passado. Entre as décadas de 1970 e 1980, a região viveu crise provocada pela emissão descontrolada de poluentes. Relatórios da Cetesb registraram níveis críticos que comprometeram a vegetação da Serra do Mar e a saúde pública. O engenheiro agrônomo André Motta resume:
Houve morte da vegetação das encostas, ocorrência de chuva ácida, contaminação da água e impactos diretos na população”.
A resposta estruturou-se a partir de 1980, com investimentos em modernização tecnológica e monitoramento permanente.
Atualmente, o monitoramento da qualidade do ar é feito por estações automáticas. Em 2025, o governo estadual investiu R$3,8 milhões na modernização desses equipamentos. O esforço conjunto entre indústria, poder público e sociedade civil reduziu drasticamente a poluição, elevando o nome de Cubatão ao patamar de referência em gestão ambiental.
Com a recuperação consolidada, o planejamento agora foca em modernização tecnológica, eficiência energética e redução de emissões. O movimento acompanha a tendência global de baixo carbono, pelo qual o parque industrial robusto e a logística privilegiada favorecem novos investimentos sustentáveis.
Debate Climático Global
A transformação também ecoou internacionalmente. Em 2025, Cubatão integrou a programação oficial da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém (PA). Foi a única localidade paulista presente em painéis do Pavilhão Brasil na Blue Zone, espaço reservado a delegações oficiais.
No evento, foram apresentados projetos de transição industrial, incluindo captura de carbono em manguezais e estratégias de adaptação climática. Para Alcindo Gonçalves, estes temas dialogam com os grandes desafios do século XXI:
Conciliar desenvolvimento, sustentabilidade e qualidade de vida é um dos grandes desafios presentes nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU. Cubatão demonstrou que isso é possível, com avanços importantes”.
A própria fauna sinaliza o sucesso dessa jornada. O retorno do guará-vermelho tornou-se símbolo da regeneração.
A presença do guará é bioindicador importante. É ave sensível, que só permanece em ambientes equilibrados. O retorno da espécie mostra que o ecossistema está se regenerando”, explica Motta.
Aos 77 anos, Cubatão não é mais definida pelo que enfrentou, mas pela capacidade de reconstrução e pelo papel de liderança que assume na nova era da sustentabilidade brasileira.