REVISTA CUBATÃO 77 ANOS

Laboratório para a descarbonização global

Da herança industrial ao protagonismo na COP30, município atrai investimentos em hidrogênio verde e amônia para liderar a transição energética na América Latina


Luciana Sotelo
Publicado em 13/10/2026, às 11h00


Complexo Industrial da Yara, em Cubatão
Cubatão carrega a complexidade de um polo industrial consolidado - Secom de Cubatão


Enquanto as discussões sobre o clima muitas vezes flutuam em metas abstratas para 2050, o cenário real da transição ganha contornos pragmáticos em Cubatão. A recente participação do município nos debates da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) representou mais do que um ato institucional; foi um marco de reposicionamento estratégico. A cidade agora senta-se à mesa na condição de "laboratório vivo" da economia de baixo carbono.

Valor da cidade madura

Diferentemente de cidades que nasceram sob o escudo da sustentabilidade moderna, Cubatão carrega a complexidade de um polo industrial consolidado. Para Conrado Bertoluzzi, especialista em Environment Social Governance (ESG) e diretor executivo do Instituto Via Green, é exatamente essa singularidade que torna a cidade relevante no debate internacional.

A transição climática será vencida, ou perdida, em cidades industriais maduras, com infraestrutura antiga e conflitos socioambientais", analisa Bertoluzzi. 

Segundo ele, Cubatão atrai o olhar internacional porque apresenta o enfrentamento real de como reconverter bases industriais pesadas.

A presença na COP simboliza sair da condição de território associado ao passivo ambiental para ser observado como um caso de transição em curso", completa.

Matriz energética do futuro

A estratégia global de Cubatão está ancorada em ativos tangíveis. A cidade posiciona-se para ser o principal polo de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) do país, impulsionada pela planta de hidrogênio verde da Petrobras. 



A consolidação desse novo perfil industrial também passa pela iniciativa privada. Em Cubatão, o Complexo Industrial da Yara iniciou a produção de amônia renovável a partir do biometano, substituindo o uso de gás natural por insumo derivado de resíduos da cana-de-açúcar. 

A mudança reduz em até 75% a pegada de carbono do produto e reforça o papel do município como plataforma de descarbonização em escala industrial. Desde 2018, a empresa já investiu mais de R$1,5 bilhão na modernização do complexo, com foco em eficiência energética e redução de emissões.

Cláudio Santos, gerente da unidade, em Cubatão, afirma que o investimento do Yara na cidade transmite uma mensagem clara:



A transição energética pode e deve acontecer a partir da transformação de polos industriais já consolidados”.

É este novo portfólio que atrai o capital estrangeiro e valida a presença da cidade em painéis exclusivos da Blue Zone,na COP30.

Como destaca a vice-prefeita e secretária de Habitação, Andrea Castro, a COP foi o palco para ratificar esse potencial.

A transição energética vira prática local através do desenvolvimento. Estamos trazendo indústrias mais verdes, garantindo que, o que é produzido aqui atenda às exigências do mercado global", pontua.

Governança e justiça climática



Um dos pilares defendidos pela cidade nos fóruns globais é que a recuperação ambiental é indissociável da justiça social.

Andrea Castro associa a recuperação dos 3 milhões de metros quadrados de manguezais, potentes sequestradores de carbono, a uma agenda de dignidade humana. Segundo ela, ao urbanizar áreas vulneráveis como a Vila Esperança e a Vila dos Pescadores, a cidade executa “justiça climática na prática”.

Para dar robustez a essa visão, Cubatão expandiu sua agenda para além dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.  A adesão aos ODS 18 (Igualdade Racial) e 19 (Cultura) reforça que a sustentabilidade em Cubatão hoje é tratada como política de desenvolvimento humano indissociável da planta industrial.



Esse movimento une poder público, universidades e indústrias para o desenvolvimento em todas as esferas. O ODS 18 combate as vulnerabilidades históricas da nossa população, enquanto o 19 coloca a nossa identidade e comunicação como ferramentas de transformação".

O legado de Cubatão demonstra que a indústria não é o inimigo, mas peça central da solução. O sucesso em atrair investimentos depende dessa percepção sistêmica: um território que recupera seus manguezais, produz o combustível do futuro e enfrenta suas desigualdades. Como resume Bertoluzzi:

Não existe transição climática sem enfrentar, de forma honesta, os desafios da indústria".

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