Cubatão discute o avanço da logística portuária diante de áreas sensíveis e decisões que podem redefinir o uso do solo na Baixada Santista

Cubatão, peça estratégica para o funcionamento do Porto de Santos, vive um momento decisivo ao discutir os rumos da expansão logística em seu território. Avanço das operações portuárias, aliado à necessidade de novos espaços para apoio ao fluxo de caminhões, coloca a cidade no centro de um debate que envolve desenvolvimento econômico, ordenamento urbano e preservação ambiental.
A discussão escalou diante do aumento da demanda logística. Atualmente, cerca de 12 mil caminhões circulam diariamente pelo Sistema Anchieta-Imigrantes, com picos superiores a 600 veículos por hora. Esse volume pressiona a infraestrutura regional e impõe uma questão central: como absorver o crescimento portuário sem comprometer áreas urbanas consolidadas e ativos ambientais estratégicos?
Em tal cenário, Cubatão deixa de ser apenas suporte operacional e passa a atuar como território de decisão.
O ponto mais sensível do debate foca na proposta da Autoridade Portuária de Santos (APS) de implantação de um pátio regulador de caminhões na região da Ilha do Tatu, próxima ao Jardim Casqueiro, um dos principais bairros residenciais da cidade.
A área verde de 1 milhão de metros quadrados, além da proximidade com o sistema viário (Sistema Anchieta-Imigrantes), reúne características ambientais relevantes. Trata-se de região inserida em um mosaico de manguezais e áreas de preservação, considerada um dos ativos ecológicos do município, com funções essenciais como proteção costeira e manutenção da biodiversidade.
Para a APS, a escolha segue critérios técnicos. Segundo o diretor-presidente Anderson Pomini, a localização favorece a organização do fluxo logístico e reduz gargalos no acesso aos terminais da margem direita do porto.
A implantação decorre de análises conduzidas ao longo dos últimos anos, para solucionar a escassez de áreas adequadas para estacionamento e ordenamento do fluxo de caminhões”, afirmou.
Projeto está em fase de estudos e deverá avançar para licenciamento ambiental, etapa na qual serão aprofundadas análises técnicas, econômicas e ambientais.
A proposta, no entanto, encontra forte resistência da administração municipal. O prefeito César Nascimento afirma que Cubatão apoia a expansão portuária, mas dentro de parâmetros claros de planejamento.
Cubatão não é contra o progresso. Queremos fazer parte dele, mas com planejamento e responsabilidade, respeitando o Plano Diretor e garantindo que áreas residenciais não sejam impactadas”, declarou.
O Plano Diretor do município não permite tal atividade nessa área. A preocupação central está no entorno. Bairros como Jardim Casqueiro, Ilha Caraguatá e bolsões concentram cerca de 50 mil moradores, que poderiam sofrer impactos diretos com o aumento do fluxo de caminhões, ruído e pressão sobre serviços urbanos.
Além da questão urbana, o fator ambiental pesa na decisão. A área abriga manguezais e ninhais de guará-vermelho, espécie símbolo da recuperação ambiental da cidade.
As duas concepções evidenciam um conflito recorrente: áreas com alto valor logístico muitas vezes coincidem com territórios ambientalmente relevantes, ou próximos a zonas urbanas consolidadas.
Para o arquiteto e urbanista José Marques Carriço, o debate exige uma diretriz clara: separar funções urbanas e logísticas.
A expansão portuária sobre áreas residenciais deve ser evitada. A mistura de usos gera impactos que não são plenamente mitigáveis”, explica.
Segundo ele, os efeitos ultrapassam os limites de Cubatão e atingem toda a Baixada Santista, especialmente em uma malha viária já saturada.
Alternativa, na avaliação técnica, está em direcionar grandes empreendimentos para áreas com vocação industrial consolidada, como a região de Piaçaguera. A própria prefeitura reforça essa linha, e também aponta o Sítio dos Areais, área com 1 milhão de metros quadrados, no polo industrial da cidade, e às margens da rodovia Cônego Domênico Rangoni, como possibilidade para novos projetos.
A Autoridade Portuária, por sua vez, afirma que essas alternativas já foram analisadas e consideradas menos eficientes do ponto de vista logístico.
O impasse entre eficiência logística e preservação urbana coloca Cubatão em uma posição estratégica inédita. Mais do que discutir um projeto específico, a cidade debate o modelo de ocupação do seu território para as próximas décadas.
A decisão sobre onde, e como, expandir a estrutura de apoio ao porto, que tem ampliado sua relevância no comércio global, terá impacto direto na qualidade de vida da população, na conservação ambiental e na competitividade regional.