A cidade que inaugurou o conceito de marina no país concentra milhares de embarcações, abriga uma das maiores cadeias náuticas brasileiras e vive uma nova fase de crescimento, que une inovação, sustentabilidade e geração de riqueza

Cruzar o canal do porto ou navegar pelas águas da ilha de Santo Amaro é testemunhar uma tradição secular. A história da navegação brasileira passa pelas águas do Guarujá. Foi aqui que o conceito de marina foi inaugurado no país, estabelecendo a Pérola do Atlântico como uma das referências do setor náutico nacional.
Berço da náutica brasileira e sede da primeira marina do país, o município transformou uma vocação natural em um dos polos da economia do mar. De iates de 100 pés a embarcações de lazer compartilhadas, Guarujá reúne uma cadeia produtiva que movimenta estaleiros, marinas, oficinas, profissionais especializados e serviços de alto valor agregado, consolidando um setor que vai muito além do turismo. Atualmente, essa tradição passa por nova transformação. O que antes era associado, principalmente, ao lazer ganha espaço dentro do conceito de Economia Azul, modelo que alia desenvolvimento econômico, preservação ambiental e inovação, para fazer do oceano um dos motores de crescimento do século XXI.
Embora o termo Economia Azul soe como uma novidade, ainda há distância entre o conceito e o vocabulário cotidiano do município. Segundo a Marinha do Brasil, a ideia pode ser simplificada como uma economia do mar preocupada em gerar empregos em estreita relação com o bem-estar social e a sustentabilidade.
Na prática, trata-se de enxergar o oceano não apenas como cenário, mas como parte de uma cadeia econômica que envolve diferentes atividades. O poder público e o mercado náutico local reconhecem que o conceito é recente e ainda pouco utilizado no dia a dia, embora práticas relacionadas à preservação, como o descarte correto de resíduos e o cuidado com a água, já façam parte das regras de convivência nas marinas.
O capitão de mar e guerra Leandro Gomes Mendes, capitão dos Portos de São Paulo, explica:
O Guarujá possui terminais portuários de granéis, de contêineres, entre outros, importantes para o país, integrando o maior porto da América Latina e gerando empregos. Por si só, isso já coloca a cidade intimamente ligada ao mar. Mas, além disso, a cidade é referência em turismo marítimo, logística, pesca e apoio à indústria offshore. Integrante do complexo portuário de Santos, uma das infraestruturas críticas mais importantes do país, o Guarujá ainda abriga diversas organizações militares e tem uma posição geográfica importantíssima”.
Os números ajudam a dimensionar o peso da atividade no estado. São Paulo lidera a frota brasileira com 240,9 mil embarcações registradas, o equivalente a 24% do total do país. Dentro desse cenário, Guarujá conta com uma infraestrutura náutica significativa: são mais de 7 mil embarcações de recreio, apoiadas por 28 marinas e 22 estaleiros concentrados no Complexo Industrial Naval (Cing), conforme explica Leandro “Mané” Ferrari, presidente da Associação Náutica Brasileira (Acatmar).
O impacto econômico se espalha por uma extensa rede de serviços. Em âmbito nacional, o setor de lazer movimenta cerca de R$2,5 bilhões por ano e sustenta aproximadamente 100 mil empregos diretos e indiretos. No Guarujá, cada embarcação e cada vaga de marina movimenta atividades como seguros, combustíveis, hotelaria e manutenção especializada. Dados da Acatmar indicam que o turista náutico chega a gastar cinco vezes mais que o visitante convencional. Esse padrão de consumo também aparece nos indicadores da Clia Abremar (Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos), reforçando o peso econômico do setor para destinos ligados ao mar.
Muito antes de a Economia Azul entrar no vocabulário do desenvolvimento sustentável, Guarujá já tinha na náutica uma atividade econômica estruturada. É no município que está a Marina Guararu, antiga Marina Nacionais, reconhecida pelo programa Bandeira Azul como a primeira marina brasileira. A estrutura ocupa uma área de 150 mil metros quadrados, dos quais cerca de 71 mil correspondem a uma área de reserva ambiental.
A marina também ajuda a dimensionar a cadeia de serviços associada às embarcações. Na temporada 2023/2024, dados do programa Bandeira Azul registravam capacidade para 763 embarcações, entre vagas secas e molhadas, além de mais de 100 empregos diretos e mais de mil indiretos na alta temporada. Ao longo de sua história, a estrutura acompanhou a profissionalização do mercado, reunindo atividades que vão além da guarda de barcos, como manutenção, movimentação, abastecimento e serviços especializados. É um exemplo de como a náutica transforma a presença do mar em uma cadeia econômica que envolve trabalhadores, empresas e serviços do entorno.
Mercado para diferentes perfis
Se as águas do Guarujá guardam a história de pioneirismo do setor, personagens como Neto Freixo, consultor da Classificados Náutica, são termômetros dessa evolução. No mercado desde 2009, Neto testemunhou uma transformação no perfil de quem navega.
Lá atrás, quando comecei, eu atendia exclusivamente grandes empresários; o universo era muito restrito ao nível A”, recorda.
Atualmente, um representante da classe média, com um apartamento de valor mediano, consegue adquirir uma cota de cerca de R$200 mil de um barco sofisticado, dividindo custos e usufruindo de uma estrutura antes mais restrita.
Essa nova náutica não vive apenas de iates de luxo. Neto destaca que a democratização também passa por embarcações menores e botes, que permitem às famílias desfrutarem do mar com investimentos entre R$20 mil e R$70 mil.
A náutica não é só barco milionário. Com um bote de 30 mil reais você tira sua família do Guarujá, vai até o Montão de Trigo, em São Sebastião, e volta com segurança”, explica.
O comprador atual, que inclui desde influenciadores e MCs até famílias vindas do interior de São Paulo e de outros estados, vê na embarcação uma extensão de sua moradia. A proximidade com a capital paulista também favorece esse movimento.
Mesmo com a entrada de modelos menores, a valorização dos ativos chama atenção. Neto observa que as lanchas pequenas deram lugar a barcos maiores e mais tecnológicos, fazendo o ticket médio de negociação saltar de R$400 mil, em 2018, para cerca de R$2 milhões atualmente. E Guarujá continua no centro desse mercado.
O Guarujá é o berço e é quem dita a regra do jogo da náutica no Brasil”.
Profissões que vivem do mar
Por trás de cada embarcação há uma cadeia de profissionais especializados. Quando um barco permanece na água, a estrutura de trabalho se amplia ainda mais. Segundo o marinheiro Lucas Martins, uma embarcação de maior porte pode manter uma equipe formada por comandante, profissional de máquinas e marinheiro, além de outros trabalhadores conforme a necessidade e o nível de serviço.
Quando a manutenção exige conhecimentos específicos, entram empresas especializadas. A própria trajetória de Lucas é um exemplo de como essa cadeia pode se transformar em profissão. Natural do Rio de Janeiro, ele começou aos 19 anos na Marinha de Guerra, onde se formou marinheiro e permaneceu por cinco anos, chegando à graduação de cabo e à especialização em motores. Depois, decidiu migrar para a Marinha Mercante e, mais tarde, aproximou-se da náutica de recreio no Guarujá, onde passou a atuar também como comandante de embarcações e profissional de mergulho.
Hoje, sua rotina se divide entre o trabalho embarcado e a atuação no Guarujá, onde participa de atividades da Estação do Mar, incluindo condução de embarcações, mergulho e apoio a pesquisas. Na sua visão, a náutica oferece possibilidades de crescimento profissional ainda pouco conhecidas por quem está começando.
Dá para você seguir uma carreira, dá para você ter uma boa qualidade de vida”, afirma.
A atividade também pode funcionar como porta de entrada para uma carreira técnica. Lucas aponta que o profissional pode começar em funções de base e avançar para posições como mestre, capitão, imediato ou comandante, enquanto embarcações maiores demandam tripulações de diferentes especialidades. Ele estima que iates de grande porte possam gerar de cinco a seis postos de trabalho diretamente ligados à sua operação. É esse efeito multiplicador que aproxima a náutica do conceito de Economia Azul.
Entre o porto e o horizonte
Consolidar a Economia Azul, porém, significa também conciliar diferentes usos e interesses em torno do mar. O setor náutico manifesta preocupação com a disponibilidade de áreas para marinas e estruturas de apoio. A Autoridade Portuária de Santos, porém, afirma que não prevê a supressão de polos náuticos consolidados para a expansão portuária, e que eventuais aquisições de áreas ocupadas por marinas e por empresas do setor logístico são negociações privadas, fora de sua jurisdição.
Segundo a APS, a projeção segue o Plano de Desenvolvimento e Zoneamento (PDZ), priorizando a otimização de áreas já consolidadas e a expansão em zonas greenfield, ou seja, sem estruturas preexistentes.
A infraestrutura urbana também é peça-chave. Projetos em desenvolvimento pretendem permitir que o visitante náutico atraque e consuma diretamente no comércio e na gastronomia local. Segundo a Secretaria de Turismo, o município desenvolve propostas para essas estruturas e busca recursos junto ao Ministério do Turismo para viabilizar o acesso de embarcações de pequeno e médio porte.
Há décadas, Guarujá ensinou o Brasil a construir marinas. Agora, o desafio é transformar essa tradição em uma economia do mar capaz de gerar negócios, empregos e inovação sem perder de vista os recursos que sustentam essa atividade.