REVISTA GUARUJÁ 92 ANOS

A força do Porto de Santos em Guarujá

Expansão da margem esquerda, investimentos, tecnologia e novas atividades podem ampliar o papel da cidade na economia do maior porto da América Latina


Luciana Sotelo
Publicado em 25/09/2026, às 17h00

FacebookTwitterWhatsApp

imagem aérea da região da margem esquerda do porto
Margem esquerda é considerada estratégica para o futuro do complexo - Santos Brasil


Ao longo de sua história, Guarujá construiu sua identidade a partir do turismo. Mas, desde o fim do século XX, o porto passou a representar um segundo vetor econômico de grande escala no município. Na margem esquerda do Porto de Santos, navios, contêineres, ferrovias, caminhões, terminais e empresas formam uma engrenagem que se prepara para ganhar nova escala. 

A transformação não se resume à expansão física do maior complexo portuário da América Latina. Ela envolve também uma mudança de papel para o município, que passa a assumir maior relevância no polo logístico e portuário do país. 

Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), considera a margem esquerda estratégica para o futuro do complexo. Segundo ele, a área já concentra parcela importante da movimentação de contêineres e tem potencial para absorver a expansão das próximas décadas. 

O momento representa uma mudança na relação entre porto e município.

Entendemos que chegou o momento de Guarujá. A boa infraestrutura que gera riqueza em Santos virá para o Guarujá. É hora de a cidade colher os benefícios do porto na mesma dimensão de Santos”.

Segundo a APS, estão previstos R$12,5 bilhões em investimentos no Porto de Santos em uma janela de cinco anos, até 2028, destinados à ampliação da capacidade operacional, melhoria da infraestrutura e integração logística. O pacote inclui intervenções como o túnel Santos-Guarujá, obras nas perimetrais, dragagem e aprofundamento do canal de navegação.

A expansão do Porto de Santos também exige novas conexões com o planalto. Em estudos pela Ecovias, a terceira pista da rodovia dos Imigrantes poderá ampliar a capacidade do Sistema Anchieta-Imigrantes e facilitar o escoamento de cargas para o complexo portuário. Com ligação à rodovia Cônego Domênico Rangoni, o projeto prevê aumento de 25% na capacidade do trecho de serra e de 145% para a descida de veículos pesados.



A atividade portuária não se limita aos berços de atracação. Ela se estende às áreas que recebem, armazenam, organizam e agregam valor às cargas. É nesse ponto que Vicente de Carvalho ganha relevância, ao concentrar atividades portuárias e retroportuárias e áreas estratégicas para a expansão logística da Baixada Santista. 

Para o arquiteto e urbanista Mauro Scazufca, doutor em Planejamento Urbano e Regional pela FAU-USP, o crescimento pode produzir efeitos para além da operação dos terminais.

A expansão dessa atividade trará mais dinamismo, emprego e renda para a região”.

Segundo ele, há potencial para estruturas de apoio logístico, indústrias de montagem e grandes centros de distribuição voltados às cadeias de varejo da Região Sudeste.



Para Guarujá, o desafio é fazer com que o crescimento portuário não seja acompanhado por congestionamentos e conflitos entre a circulação de cargas e a vida cotidiana. A segunda fase da avenida perimetral da margem esquerda é uma das respostas planejadas. A proposta é separar o fluxo de caminhões destinados aos terminais portuários do tráfego urbano. 

A secretária de Assuntos Portuários e Aeroportuários de Guarujá, Fábia Margarido Alencar Daléssio, resume a dimensão do desafio:

O Porto de Santos só tem condição de fazer expansão na margem esquerda, que é a margem do Guarujá”. 

A reorganização da circulação é parte da estratégia para evitar antigos problemas.



Não podemos pensar mais na rua do Adubo como sendo um canal de acesso de logística e mobilidade, isso traz impacto negativo para a população do entorno”. 

A APS também prevê, em Conceiçãozinha, um pátio regulador com mais de 400 vagas para caminhões e área de serviços de apoio logístico, além de discutir com o município a possibilidade de criação de um parque na região de Vicente de Carvalho, próximo ao Forte Itapema. A expansão retroportuária é tratada pelo município como uma questão de longo prazo. 

Mais tecnológico
Na margem esquerda, o Tecon Santos, operado pela Santos Brasil, atravessa um dos maiores ciclos de expansão de sua história. Desde 2019, a companhia investe R$ 3 bilhões no terminal, dos quais R$ 2,5 bilhões já foram aplicados, para ampliar a capacidade para 3 milhões de TEUs por ano. Em julho de 2026, o terminal alcançou 2,9 milhões de TEUs de capacidade anual. 

A modernização inclui operação remota, inteligência artificial, Digital Twin, Internet das Coisas e outros recursos de automação. Desde o fim de 2024, guindastes de pátio elétricos são operados remotamente a partir de um centro de controle. 



Marcelo Patrício, diretor de Operações da Santos Brasil, afirma que a tecnologia amplia a capacidade dos profissionais sem substituir sua experiência.

A tecnologia assume parte das atividades repetitivas ou de maior risco, enquanto as pessoas passam a ter um papel cada vez mais relevante no controle, na tomada de decisão, na análise das informações e na melhoria dos processos”.

Atualmente, cerca de 2.700 profissionais atuam no Tecon Santos.

O que o porto deixa na cidade



O crescimento portuário só se transforma em desenvolvimento urbano quando a riqueza gerada pela atividade chega à cidade. Para Wagner Souza, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Guarujá, os efeitos podem alcançar uma ampla rede de empresas e serviços locais.

Esse crescimento amplia a demanda por fornecedores, prestadores de serviços e diversos segmentos da economia, como comércio, alimentação, hospedagem, transporte, construção civil, tecnologia, manutenção, capacitação profissional e serviços empresariais”.

Para o urbanista Scazufca, o efeito pode alcançar a própria estrutura urbana.

O crescimento da atividade portuária no Guarujá tende, em médio prazo, a possibilitar que a cidade evolua em sua urbanidade a partir do aumento da renda municipal”

Mas dinheiro novo não produz, sozinho, uma cidade melhor. É preciso transformar  arrecadação em política pública, infraestrutura e planejamento.
A expansão portuária também impõe decisões sobre território e moradia. Áreas ocupadas por famílias podem estar justamente nos espaços considerados estratégicos para o crescimento dos terminais.



Guarujá e APS mantêm um convênio para viabilizar, quando necessário, a transferência de famílias para conjuntos habitacionais dotados de infraestrutura. Segundo Fábia, um novo aditamento está sendo preparado para permitir a ampliação de uma área da margem esquerda, envolvendo o planejamento da transferência de dezenas de famílias. O desafio é fazer a expansão portuária caber na cidade sem expulsar a cidade do território.

Cing: outro elo da economia do mar
O Complexo Industrial Naval de Guarujá (Cing) acrescenta outra camada a esse cenário. Além do porto, a cidade pode ampliar sua participação em atividades ligadas à indústria naval, à náutica e aos serviços especializados.

A prefeitura discute o fortalecimento do turismo náutico no Cing, que já abriga empresas e estruturas relacionadas ao setor. Fábia explica que o município trabalha para compatibilizar os diferentes usos.



O Cing tem dois perfis, o náutico turístico dos estaleiros e também uma área de desenvolvimento naval.”

A proposta é construir essa convivência sem inviabilizar nenhuma das atividades, e ampliar a vocação econômica sem perder de vista a cidade que existe ao redor dela.

Receba o melhor do nosso conteúdo em seu e-mail

Cadastre-se, é grátis!