2002

O refúgio de Vicente de Carvalho

No Indaiá, o poeta teve momentos de inspiração que resultaram em importantes obras literárias


Da Redação
Publicado em 28/10/2019, às 10h52 - Atualizado em 26/08/2020, às 22h13

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Arquivo JCN
Arquivo JCN


“O Poeta do Mar”, como era conhecido Vicente de Carvalho, eternizou Bertioga em suas obras literárias. As belezas naturais do canto do Indaiá, na praia da Enseada, onde hoje está localizada a residência do empresário Antônio Ermírio de Moraes, foi escolhido pelo poeta, que nasceu em Santos em 5 de abril de 1866,  onde viveu toda a sua infância. Em 7 de março de 1888 casou-se com Ermelinda Mesquita com quem teve 15 filhos e morou com a família no Indaiá até 1923.

A paixão pelo local surgiu em um de seus passeios de barco pelas praias do litoral paulista, percorrendo de Cananeia a Ubatuba. Afinal, era fascinado pelo mar. Mas, um dia, em 1917, encontrou o que passaria a denominar de seu paraíso ecológico. O local estava escolhido. Faltava agora construir sua casa em um local distante e de difícil acesso.

A propriedade de madeira com paredes duplas foi inspirada nas construções de amigos que moravam em Santa Catarina. De lá saíram ss peças que chegaram em ferrovias para montar a residência do poeta, que se transformou em palco para convidados ilustres chegando a receber mais de 300 autoridades. O local passou a ser sede de reuniões políticas e com intelectuais da época. Na casa do Indaiá, Vicente de Carvalho hospedou personalidades como o ex-presidente Washington Luís, José Maria Whitaker, Samuel de Toledo, Macedo Soares, entre outros.



Romântico quanto à inspiração, mas parnasiano quanto à forma, Vicente de Carvalho deixou obras importantes como Poemas e Canções que conseguiu um fato raro na literatura brasileira ao atingir a 17ª edição. Vicente de Carvalho faleceu em 22 de abril de 1924, um ano após ter vendido a casa do Indaiá para o empresário Antônio Ermírio. Até a denominação do bairro partiu do poeta, advogado e jornalista que batizou sua casa como “Sítio do Indaiá" em homenagem a uma espécie de palmeira da região.

Em seu refúgio, ele criou verdadeiras relíquias literárias, a maioria tendo o mar como tema central. No mar, ele via tudo o que de mais forte e sublime a natureza colocou ao alcance do homem sobre a terra. Por isso, era natural que suas mágoas amorosas fossem exaltadas nos murmúrios do mar. Em um trecho de seus poemas ele diz:

“Ouves acaso quando entardece, vago murmúrios que vem do mar?



Vago murmúrio que mais parece voz de uma prece morrendo no ar?

Beijando a areia, batendo as fráguas, choram as ondas, choram em você:

O inútil choro das tristes águas, enche de mágoas a solidão....”



Festas populares alegravam as noites do poeta

O poeta, jurista e pescador, que aprendeu a amar Bertioga e era respeitado pelos praianos como um pai, encantava-se também com as tradições mantidas, na época, pelos praianos que alegravam as noites. Era comum a população local se reunir para lembrar velhas toadas e modinhas, os antigos lundus e as danças tradicionais de origem árabe, moura, africana e portuguesa.

Elas eram conservadas ao longo do tempo e se repetiam nas vozes dos cantadores e violeiros de dez praias ao redor, nos improvisos e umbigadas do São Gonçalo. Eram cantadas nas Reisadas, Congadas, Farranchos do Divino, na marrafa, sarrabalho, nas cirandas, nos Bate-Pés, nas noites de são João, Santo Antônio e São Pedro,  nas festas da Natividade e nos aniversários do grande "poeta do mar". Transmitidas de pais para filhos, algumas cantigas são lembradas hoje apenas pelos mais antigos. Conheça algumas delas...



Do lundu praieiro

Eu já to ficando véio

Já não posso mais cantá



Mas meu tio tá cresceno

Vai fica no meu lugá...

Estribilho



Ai, ai meu bem

Ai, ai meu bem

Quem quer bem não dá o fora



Quem quer bem não dá o fora

Se vancê vai, eu vô também

Do divino



Meu sinhô dono da casa

Coração de andurinha

Si eu não vos quisesse bem



Na vossa casa não vinha...

Obrigado pelo armoço

Que nos feis bom paldá



O Divino vos promete

Vossa dispesa pagá...

Trecho extraído do livro de Francisco Martins dos Santos, Bertioga histórica e Legendária – 1531/1947, editado por Armando Lichti em 1948.



A ortografia das cantigas é mantida originalmente e a ilustração também é da publicação.

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