
NORMA MAZZONI, 62 anos, moradora de Bertioga há 40 anos, viúva de Licurgo Mazzoni, que foi presidente da Comissão de Emancipação do município: "Bertioga será uma grande cidade no futuro. A vocação de Bertioga é o turismo. Tem muito que se expandir. As praias são ótimas. Dia 1° de abril fez 40 anos que vim de Santos, lecionar. E o progresso era lento. Santos levava nossos impostos e não retornava. Em dois anos, já vemos muito progresso. O Orlandini está se voltando muito para a cultura. Temos a orquestra, cursos. A cidade tem vida própria".
NESTOR PINTO DE CAMPOS FILHO, conhecido como "seu Ivo" (nome do frei que o batizou), 66 anos, nascido em Bertioga e morador do centro da cidade: "Não estou vendo nada de melhor na cidade. Aqui dentro da Vila, na minha rua, não tem calçamento, nem esgoto. Falta emprego. Dos meus oito filhos, só três estão trabalhando. Todas as indústrias que tinha aqui fecharam. Minha mãe chegou em Bertioga com 17 anos ( em 1917), quando havia meia dúzia de casas Não tinha luz, água, nada. Hoje há muita coisa, mas ainda falta muito".
NEY NEHME, nascido em Bertioga em 1945, vereador e dono de imobiliária no bairro do Sesc: "Potencial, Bertioga tem muito. Numa retrospectiva, foi a cidade que mais se desenvolveu na região. Cresceu desordenada, mas hoje estamos dando organização. Após o Plano Diretor, Bertioga estará planificada. Hoje, a maior indústria é o turismo. O turismo é o forte durante metade do ano. Mas temos de criar condições para o crescimento de Bertioga. Temos de criar alternativas de turismo, que não seja praia.
MILTON PINTO, 70 anos, morador do centro de Bertioga desde 1947: "Bertioga só tem que aumentar. Sou morador do tempo em que não tinha nada. Daqui para frente, ninguém mais segura. Bertioga vai ser uma cidade turística. O turismo é essencial. Mas vamos precisar de pronto-socorro melhor, estudo melhor. Tudo tem que melhorar. Bertioga, daqui a dez anos, tem que ter tudo. Até faculdade. Vi numa reportagem que o próprio Guarujá pode perder para Bertioga. A Riviera está melhor do que o Guarujá. Não é daqui a 50 anos; daqui a dez anos, ninguém segura".
FRANCISCO MARTINEZ PEREZ JÚIOR, DIRETOR-PRESIDENTE DA ESTAF ENGENHARIA S/A - "Imaginar o que é o futuro está além de qualquer projeção. Por mais que imaginemos que o futuro será uma maravilha, esta maravilha poderá ser maior ainda. O futuro deste litoral é brilhante. Não há como ser pessimista. Há 40 milhões de paulistas que anseiam por passar férias na praia. E uma tarefa fantástica dar condições de lazer para todas essas pessoas, ainda mais levando em conta que estamos na região mais rica do país, São Paulo. Quanto à questão da preservação, temos que chegar a um meio termo, que não seja permissivo ou impeditivo. A legislação como está impede o desenvolvimento. Se essa legislação existisse há 50 anos, não haveria nenhuma cidade na Baixada. Tem que ter a volta do bom senso. Não temos vocação para a indústria".
PAULO SÉRGIO MARTINEZ
COMERCIANTE, DONO DO SUPERMERCADO CAÇULA:
“O futuro da cidade vai depender muito do que nós fazemos hoje. Pela primeira vez em 400 anos estamos fazendo o Plano Diretor. Tudo vai depender do que for feito agora, da forma como forem dados os primeiros passos. Em minha opinião particular, só o turismo não resolve. Estamos com uma visão equivocada do que seja turismo. A expansão imobiliária, da forma como vem sendo feita, vai nos criar muito mais problemas do que soluções. Esses empreendimentos não se preocuparam em deixar infraestrutura para o mão de obra que opera nesses loteamentos".
SÉRGIO LEVY VICE-PRESIDENTE DA COMPANHIA FAZENDA ACARAÚ: "Eu acho que Bertioga está atravessando a sua fase mais importante, que é a elaboração do Plano Diretor. Isso vai desligar de Santos, demonstrar a vocação do município. Parece que o futuro deve ser turístico. O que é extremamente importante é divulgar e conscientizar sobre a cultura de Bertioga. Temos de nos preocupar com a preservação e recuperação do patrimônio da cidade. Quanto à questão social, é preciso desenvolver um projeto para implantar saneamento, água e esgoto."
LUIZ CARLOS RACHID ARQUITETO: "Os problemas enfrentados nas áreas de Educação, Saúde, Habitação, além da falta de infraestrutura, agravados pelo descaso da grande maioria das forças políticas santistas para com Bertioga, foram suficientes para que a emancipação do município passasse do sonho à realidade. Cada cidadão, de criança a adulto, deverá reivindicar das autoridades atendimento às suas legítimas aspirações, evitando que o descaso sofrido por Bertioga, enquanto distrito santista, não se repita jamais. Que o sim tão presente no momento emancipacionista também o esteja no coração de todos que amam esta terra".
GORDO - ANTONIO DE JESUS HENRIQUES, PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE BERTIOGA: "Somos um município emancipado, sem dinheiro. Mas estamos empenhados, prefeito, vereadores e população. Fico contente de eles (a população) verem que as coisas não são da noite para o dia. Não digo que Bertioga será uma cidade de Primeiro Mundo, porque nem o Brasil é de Primeiro Mundo. Mas em dois anos, a cidade mudou muito: estamos ampliando o PS, reformando escolas, comprando ambulâncias e asfaltando a Avenida Anchieta. Se a próxima administração fizer o mesmo, vamos deixar um município bem estruturado para nossos filhos se orgulharem".
DEPUTADOS EXPRESSAM OTIMISMO.
Os deputados Maurício Najar (federal) e Antonio Carlos Mendonça, o Toninho da Pamonha (estadual), tiveram um papel fundamental na história político-administrativa de Bertioga. Foi Najar quem, em 1987, deu o pontapé inicial para que o então distrito de Santos virasse município, apresentando um projeto de lei neste sentido na Assembleia Legislativa - na época ele era deputado estadual. O projeto de lei de Najar foi o ápice de um movimento que já se arrastava há muitas décadas em Bertioga. A proposta do deputado mogiano desencadeou uma longa batalha política e jurídica. Najar assumiu uma vaga na Câmara Federal e outro deputado estadual da região. Toninho da Pamonha decidiu levar adiante, na Assembleia, a luta pela emancipação de Bertioga. Falando para esta edição especial do Costa Norte, os deputados Maurício Najar e Toninho da Pamonha expressaram confiança no futuro do município que ajudaram a criar.
MAURÍCIO NAJAR: "Ficamos cinco anos lutando na área pública, legislativa, estivemos no Supremo. A emancipação não foi por um projeto de lei, mas de todo um movimento da sociedade. Não foi fácil. Santos lutou para manter o distrito, o que eu compreendo. Mas compreendo mais as razões de Bertioga. Eu tinha absoluta certeza de que Bertioga tinha condições de ser emancipada. Tinha condições econômicas, renda. Mas não foi fácil. A Justiça chegou a anular o plebiscito. Com relação ao futuro, é preciso que esse Plano Diretor seja debatido, para que a cidade não cresça desordenadamente. Tendo como meta o turismo, é fundamental o Plano Diretor. Acho que Bertioga tem de preservar o meio ambiente. A cidade não tem vocação industrial. Não deve demorar muito para ser um grande polo. A Riviera já é um polo de renome internacional. Falta investir em infraestrutura".
TONINHO DA PAMONHA: “Eu sempre confiei no trabalho de Bertioga. O futuro está nas mãos dos políticos. Atualmente, está praticamente vetada nova emancipação. Acho que Bertioga foi agraciada e deve agora saber em que político votar. Esse projeto (o de emancipação da cidade) era um sonho. Foi apresentado pelo deputado Maurício Najar. Mas o governo militar proibiu novas emancipações. Com a Constituição de 1988, a prerrogativa de se criar novos municípios passou para o estado. Acho que a chance de novas emancipações agora é pequena. Quanto à atual administração, tenho sentido que no primeiro mandato todo prefeito tem uma dificuldade. Temos até que perdoar algumas falhas, até que se ponha tudo para andar. As praias de Bertioga são as melhores do litoral. Acima de tudo, temos de preservar os mananciais e a Mata Atlântica. Preservar os turistas".
GALDINO ADOLFO DE OLIVEIRA COMERCIANTE, DONO DO COMÉRCIO DE BEBIDAS E CEREAIS BERTIOGA: "Esperamos que Bertioga, no futuro, dê tudo o que estamos semeando para ela. Estamos trabalhando muito pela cidade. Queremos que melhore em todos os sentidos. Na parte de turismo, tem de melhorar 100%. É praxe lotar no Natal e Ano Novo. No inverno, não tem ninguém. O comércio fica dez meses sem faturar. Bertioga só tem a beleza natural. Faltam hotéis, restaurantes e festas. Também precisa melhorar a segurança, saúde e educação".
ERNESTO CORONA - GERENTE DO SESC BERTIOGA: “Fazer previsão para o ano 2000 depende rigorosamente da linha que a administração municipal vai seguir. A matéria-prima de Bertioga é a praia, o meio ambiente. Bertioga será predominantemente turística. Se não houver um cuidado com esses recursos, pode acontecer como na Praia Grande, que tem que se preocupar com a despoluição, através de emissários. Hoje, há uma procura muito grande por Bertioga. O Plano Diretor pode mostrar uma linha. Se cada prefeito seguir pela sua cabeça não vai dar".
FERNANDO SENA RODRIGUES, COMERCIANTE, DONO DO SUPERMERCADO ALBATROZ: "A ideia é que Bertioga seja direcionada para o turismo. Mas temos de fazer um esforço para trazer indústria não poluente, por causa do período entre temporadas, quando há muito desemprego. Só o turismo em si não é suficiente. Hoje, a construção civil sustenta 50% da cidade, mas esse mercado pode cair. O ideal seria instalar indústrias ligadas ao setor náutico. Se o mercado imobiliário breca, fica o pessoal sem emprego. Enquanto que a indústria é diferente, porque tem reserva de capital”.
JOSÉ CARLOS RIVEIRO - ADVOGADO DA IMOBILIÁRIA LINHA VERDE, EX-DIRETOR JURÍDICO DA PREFEITURA: "Para o futuro de Bertioga, espero melhor infraestrutura, atendimento médico, educação e transporte. A questão social é a raiz de tudo. Temos potencial para ser um polo turístico, até de expressão internacional. Falta a infraestrutura. Temos de olhar o Guarujá como um exemplo a não seguir. Do jeito que está a explosão demográfica em Bertioga, vamos nos perder, a cidade pode crescer desregrada. Temos de olhar as cidades vizinhas e absorver o que elas têm de melhor."