Na rua Júlio Prestes, foram plantadas as primeiras sementes dos centenários pés de jambolão, jaca e abricó pelas mãos do pescador Renato Faustino, cuja história confunde-se com a de Bertioga

Uma casa humilde, com um quintal preservado e marcado pela história da família Faustino de Oliveira. O patrono Renato, bertioguense nato, seguiu o rumo de seus antepassados, a pesca, e casou-se com dona Mariazinha, conhecida e querida pelos moradores mais antigos. Quem visita a casa da rua Júlio Prestes tem a impressão de que o tempo parou: árvores centenárias, como jambeiro, jaqueira e abricoeiro, além de outras tantas espécies mais recentes, plantadas pelos filhos, netos e bisnetos, encantam pelo porte e merecem ser reverenciadas.
Mas o tempo seguiu também para esta família sempre muito atuante, que herdou a força do patrono e de sua matriarca. Maria do Carmo Faustino de Oliveira, a tão querida Mariazinha, nasceu há 80 anos, em uma casinha próxima ao sítio Santo Antônio. Aos 4 anos, foi para Santos; regressou adulta e casou-se com Renato. O casal foi morar em uma casa de madeira, construída pelo marido. Hoje, esta mesma casa foi reconstruída, em alvenaria, mas mantém a mesma característica da original.
Renato pescava para o sustento da famí- lia e ainda fabricava barcos, enquanto os filhos brincavam no quintal. Tempos depois, além de pescador, passou a trabalhar como marinheiro. A filha mais nova, Ivete, uma das oito irmãs, conta: “Meu pai fazia o cerco e outros pescadores mergulhavam para apanhar os peixes no fundo do mar. Seu fôlego era muito bom e os amigos até estranhavam, porque ele mergulhava e demorava a subir”.
Um exemplo típico de caiçara forte e respeitado, cujo nome está perpetuado em uma das ruas da cidade, a Renato Faustino, próxima ao Sesc, no bairro Rio da Praia. “Deixamos raízes e os frutos prosperaram em Bertioga. O que todos os primeiros moradores da vila têm em comum são os valores, o respeito ao próximo, a união e educação, herdada pelos nossos pais, transmitidos aos filhos, netos e bisnetos”, diz Ivete.
Família religiosa, frequentava a igreja católica, no centro da cidade, no fundo da qual, a freira Maria Gama, de Santos, dava aulas de pintura, costura e crochê. “Naquela época, as moças tinham que aprender a costurar”, comenta Gilda, outra filha de Mariazinha. Na igreja, também eram organizadas peças de teatro e festas. Os 14 filhos de dona Mariazinha fizeram catequese e se casaram ali. Um dos irmãos, Gilson, teve a primeira vidraçaria de Bertioga; hoje trabalha com colchões, e tem três lojas, duas em Bertioga e uma em Juquehy. Outro, Renato Faustino de Oliveira Filho, o Renatinho, foi o primeiro administrador regional de Bertioga, época em que a cidade era subdistrito de Santos, além de ser o primeiro enfermeiro responsável pelo posto de saúde. Empresário na cidade, também exerceu o cargo de vereador, de 2009 a 2012. A família criou raízes fecundas, cujos frutos prosperaram graças à mão firme e responsável de Renato e Mariazinha.