Pesquisas neurocientíficas indicam que a leitura de literatura aumenta o bem-estar, diminui o estresse e provoca relaxamento

Para além do elogio: no dia 2 de abril celebra-se, desde 1967, o Dia Mundial do Livro Infantil, em homenagem ao escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805/1875), considerado o pai mundial da literatura infantil.
Data como essa, é muito comum a leitura, especialmente no período da infância e da juventude, ser louvada como virtude a ser cultivada. Porém, por muito tempo me incomodou um certo elogio que se faz da leitura, em particular da literatura, sem, contudo, se apresentarem os fundamentos do porquê de sua importância, para além, é claro, da viagem que se faz sem sair do lugar.
Em 2021, o neurocientista brasileiro Guilherme Brockington e sua equipe publicaram resultados de uma pesquisa realizada com 81 crianças internadas em uma UTI na cidade de São Paulo.
O texto, com o título Storytelling increases oxytocin and positive emotions and decreases cortisol and pain in hospitalized children, traz conclusões muito interessantes. Os pesquisadores partiram da hipótese de que sessões de contação de histórias poderiam ter efeitos positivos tanto do ponto de vista fisiológico quanto psicológico. Link
Para a condução da pesquisa, as crianças foram divididas em dois grupos: no primeiro, foram expostas a contação de histórias em sessões de 25 a 30min, ao passo que, no segundo grupo, elas participavam de brincadeiras de adivinhação.
Quem nunca ouviu uma advinha como: o que é, o que é? A gente não come, mas é bom para comer? Ou: O que é, o que é? Abre todas as portas sem nunca entrar ou sair delas? Tanto a contação de histórias como os jogos de adivinha foram realizados pelo mesmo time de contadores de histórias profissionais, composto por seis pessoas.
Para verificar os efeitos dessas intervenções, eles empregaram testes psicométricos e indicadores psicolinguísticos padronizados, além de dois biomarcadores fisiológicos, que foram a ocitocina e o cortisol.
Os testes foram aplicados antes e depois das sessões, o que permitiu verificar, por exemplo, como estava a ocitocina e o cortisol antes da contação de história e depois. Será que a ocitocina aumentou e o cortisol diminuiu depois da sessão? Será que a dor que a criança estava sentido diminuiu depois de ouvir histórias por cerca de meia hora?
A ocitocina é conhecida como o hormônio do amor e do bem-estar. Ele é importante para o exercício da empatia, como também para o estabelecimento e a manutenção de comportamentos interpessoais positivos, além de modular a confiança nas interações sociais e reduzir o estresse.
Por sua vez, o cortisol é o hormônio que prepara a pessoa para dar resposta a uma situação estressante. Quando se está diante de um perigo, real ou imaginário, o cortisol prepara o corpo para reagir.
Os resultados mostraram que tanto na contação de história quanto no jogo de adivinhas os efeitos foram positivos. Porém, a contação de história se mostrou muito mais eficaz. Os números indicam que a ocitocina, após a sessão, subiu quase 10 vezes no grupo da contação de história, ao passo que, no grupo do jogo de adivinhas, o resultado foi cerca de 5 vezes menor.
Quanto ao cortisol, na contação de história a redução alcançou os 50%, à medida que, no grupo do jogo de adivinhas, a porcentagem ficou próxima dos 40%. A pesquisa indicou que os efeitos sobre a dor também foram significativos, com ênfase na contação de histórias.
O que aprendemos com os resultados dessa pesquisa? Ler histórias para as crianças antes de dormir pode aumentar a ocitocina e diminuir o cortisol. Isso significa maior bem-estar e mais relaxamento. Depois de um dia talvez estressante, essa não seria uma boa maneira de prepará-los para dormir? Depois, não estranhe se a noite for tranquila e sua criança tiver bons sonhos.