Um BBB da política nacional: não existe, mas poderia existir

Devaneios sobre o que fariam meia dúzia de feixes de luz nos becos escuros da política carcomida


T. S. Paulo
Publicado em 25/01/2021, às 08h50 - Atualizado às 12h00


Fotos: reproduções / Arte: JCN
Fotos: reproduções / Arte: JCN


Prossigo no tema da semana passada. Não existe, mas poderia existir: um Big Brother Brasil da política nacional. Imagina só a algazarra deliciosa que seria?

Câmeras  em todos os aposentos de todas as residências oficiais, não oficiais e gabinetes de todo político eleito e magistrado brasileiro, num grande acordo nacional com o Supremo, com tudo.

Transmissão síncrona, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Nas atividades externas, seguiria os excelentíssimos, um cinegrafista mais inseparável que sua própria sombra.  

Pouco nos importa se o apresentador da atração seria a tartaruga sem casca do Tiago Leifert, o pernóstico Pedro Bial ou mauricinho de meia idade do Marcos Mion. Isso é detalhe desimportante.

Também é desimportante a viabilidade técnica do empreendimento delirante – que deixo de lado. Mas é óbvio que é tecnicamente possível. Já fomos à lua. 



Feitas tais ressalvas, sonhemos: as possibilidades são numerosas.

Tal como no frívolo e divertido BBB real, os quebra-paus estariam entre as delícias de nosso BBB imaginário.

Se já estivesse rolando, Bolsonaro, naturalmente, seria uma das estrelas da edição atual. Todo dia protagonizaria um escândalo.



As reuniões familiares na Granja do Torto estariam entre os campeões de audiência.  Imagina a cena: enquanto serve filé-mignon aos filhos, Bolsonaro racha um suquinho de laranja com a prole e discute as grandes questões e a vida privada nacional com muitos palavrões e sem nenhum lastro de competência, probidade ou bons modos. Lindo de ver.

Haveria também grandes histórias de amor em nosso BBB político.

O Deputado federal Glauber Braga fazendo ternas carícias na barriguinha grávida de sua companheira, a também Deputada federal, Sâmia Bonfim, seria a imagem que arrebataria os corações do povo. Talvez o país desse um apelido carinhoso ao bebê. 



Doria, governador paulista, em insípidos jantares aristocráticos no Palácio dos Bandeirantes, em que não perderia uma oportunidade de citar os dez mandamentos do bom gestor, dividiria com o ministro do Supremo, Luis Fux, e seus relambórios jurídico-carioquês, o disputado posto de entojado-mor da edição. 

As provas do líder seriam as disputas pela presidência do Congresso Nacional e do Supremo. 

Os paredões, naturalmente, seriam as eleições – e também os impeachments, que rolariam às pencas.



E, o melhor, além do merecido circo pro povo, sob o incessante escrutínio público, talvez não sobrasse espaço para toda sorte de acordos escusos e perniciosas chicanas nas sombras.

Se as pessoas só são tão virtuosas quanto sua realidade lhes permite. E se, ao que tudo indica, políticos profissionais também são pessoas, o que fariam meia dúzia de feixes de luz nos becos escuros da política carcomida?

Com milhões de olhares iluminando o atual latifúndio em que são cultivadas insidiosas sementes noturnas, diminuiriam também os sombrios apertos de mãos na calada.



Traduzo a pobre metáfora para o leitor obtuso como eu.

Estacionou em fila dupla? O povo está vendo. Comprou um apartamento com o cartão corporativo? O povo está vendo. Recebeu um  vultoso cash back das obras de um hospital público? Se esbaldou numa deliciosa bacanal com dinheiro público? O povo está vendo.  Apoiou uma votação no Congresso em troca de cargo? Prevaricou, mentiu, omitiu? O povo está vendo.

Tudo relacionado à coisa pública, seria, como deveria ser, acordado às vistas vigilantes do público.



Raposas, oportunistas e demagogos, que atualmente usam a política em benefício pessoal,  agindo no apagar das luzes, ficariam de mãos atadas. Corruptores, sem seus encontros secretos,  também estariam em maus lençóis.   

A quem quisesse privacidade, muito simples, bastaria que apertasse o botãozinho vermelho da renúncia. Os políticos probos, diligentes e virtuosos (dizem que existem) não teriam o que temer. 

Um BBB da política nacional não existe, mas deveria existir.



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