Quem imagina aquilo que não existe, mas merecia existir, não raramente se aproxima do ápice da humanidade
T. S. Paulo
Publicado em 19/01/2021, às 01h27 - Atualizado às 09h51

Conheço um sujeito que gasta um tanto razoável do seu tempo livre e seus neurônios imaginando e sistematizando coisas que não existem, mas poderiam existir.
Certo dia, o gaiato me veio com a ideia de um site de compras diferente, voltado para consumistas desenfreados e duros. Seria algo assim: a pessoa escolhe os produtos, pega o que quiser, enche o carrinho no site, preenche o endereço, usa cupons de descontos e, ao final, paga com reais imaginários. Depois, até acompanha o frete ficcional. Tudo de faz de conta. Todo o frívolo prazer consumista, mas sem os cartões de crédito estourados (também sem os produtos). Achei curioso.
É bem verdade, a invenção não se compara em criatividade ao abelhume – o cruzamento de abelha com vagalume para produzir mel à noite – do genial Suassuna, mas já vi coisas piores existindo. Apesar de repudiar as gastanças terapêuticas, gostei sobretudo do propósito altruísta da ideia: ajudar bolsos vazios a se sentirem bolsos cheios. Concluí que o e-commerce de mentirinha de meu amigo não existe, mas bem que merecia existir.
Àqueles que, padecendo de imaginação estreita, o julgam como idiota pelo hábito, sempre esclareço que, apesar de ele reunir predicados de sobra para a pecha (como toda gente), esse hábito em específico, definitivamente, não se constitui num desses qualificadores. Pelo contrário, quem imagina coisas que, não existindo, deveriam, não raramente se aproxima do ápice da humanidade.
É possível relacionar qualquer área do saber, arte ou ofício com o hábito.
Senão vejamos. Platão, imaginando que seu mentor, Sócrates, então inexistente, bem que poderia ainda existir, deu-se a imaginar sobre o que falaria o meditabundo em diálogos com diversos interlocutores. Nascia, assim, a filosofia.
Retrocedendo ainda mais, sobre aquilo se perdeu nas poeiras de um tempo só alcançável por conjecturas e especulações, não é tão absurdo supor que a arte tenha nascido do hábito.
Imagina um bocadinho aqui comigo. Entre 400 e 100 mil anos atrás no que hoje é a África centro-oriental. A palavra inexistia. Nos raros intervalos pacíficos de uma luta terrível pela sobrevivência, num mundo tenebroso infestado de fenômenos incompreensíveis, brotou na cabeça de algum caçador ou coletor, algo parecido com o que chamaríamos de pensamento, mais ou menos traduzível nestes termos: não há, mas deveria haver algo que preenchesse esse silêncio opressor.
Nascia, assim, a música. É possível que a dança e a palavra tenham surgido depois, de forma semelhante.

Naturalmente, o impulso criador é elevado. A criação, não necessariamente. Nesse momento alguém imagina formas mais eficientes de explorar, subjugar ou tirar a vida de outras pessoas, para citar os exemplos mais extremos. Assim nasceram as armas de fogo - instrumentos odiosos.
Mas o fato é que não existe criação sem imaginação que a anteceda. Até Deus, o cristão, que, diz o Gênesis, imaginou a possibilidade de luz no breu absoluto, é dado ao hábito. Quem imagina aquilo que não existe, mas bem que poderia existir, talvez se torne também um pouco divino.