A chupeta é censura; a chupeta é uma imposição social
T. S. Paulo
Publicado em 02/02/2021, às 11h38 - Atualizado às 12h15

A chupeta - o substantivo, não o indicativo de ação - imitação engenhosa do peito materno em plástico e látex, traz conforto psicológico ao bebê, reduzindo sua ansiedade e acalmando-o.
Antes de games, gadgets, redes, realidade aumentada, nosso primeiro simulacro é um objeto simples, artesanal, cuja função é impressionante: acalma o recém-nascido, o controla por meio de uma satisfação enganosa: uma mamada sem leite.
É possível, porém, que a chupeta sirva mais aos pais do que ao próprio neném.
Não? Vejamos: enquanto escrevo, uma mãe sentada à minha frente no ônibus tem seu bebê chorando. O incômodo de muitos passageiros - inclusive da própria mãe - é visível, pergunto-me por quê: nunca foram bebês? Por acaso já nasceram grandes e entediados?
Para aplacar o choro da criança a constrangida mãe lhe enfia o simulacro goela abaixo. Ocupado com a mordaça, digo chupeta, o bebê deixa de chorar. A ordem do transporte coletivo é restaurada, os passageiros retornam a suas rotinas.
No entanto, se me fosse concedido perguntar ao bebê se lhe constrangia o mal-estar dos demais com seu choro, aposto que sua resposta seria não. Pra ser honesto, ele parecia se divertir mais se esgoelando do que com o pedaço de plástico na boca. A conclusão é que a chupeta serviu mais a todos e menos ao bebê chupador. A chupeta é censura, impede a liberdade de expressão do choro do neném. A chupeta é uma imposição social.
A chupeta talvez seja também a pedagogia para todos os demais simulacros que a sucedem. O problema da chupeta, assim como de qualquer engodo, é que apesar da semelhança com o objeto original, ela é sem vida, inorgânica, uma teta plastificada, desumana e sem leite.
Como todo simulacro.