As cidades estão mudadas no século 21, os personagens são novos, mas a riqueza do cotidiano permanece intocada

Lydia Federici morreu num 02 de junho, em 1994. Tinha 75 anos. Esportista, ainda adolescente começou a desabrochar o lado cronista. Mulher madura, por 30 anos Lydia Federici garimpou e lapidou personagens e detalhes de Santos numa crônica diária no centenário jornal A Tribuna: “Gente e Coisas da Cidade”.
Lydia tanto podia desvendar o mistério do porquê a Rua Pindorama se apresentar a mais limpa da cidade, como descobrir que um velho professor aposentado, Antônio Passos Sobrinho, estava naquele dia da década de 60 completando 84 anos. Gente e coisas…
Nos últimos 28 anos, esse universo passou mais despercebido, por falta de um olhar atento e sensível como o dela.
De 94, ano do Plano Real e da morte de Ayrton Senna, para cá, muita coisa mudou. A tecnologia transformou transportes, comunicações, vida doméstica. A cidade também mudou. Verticalizado, o cenário urbano santista se tornou mais cosmopolita e impessoal, ainda que sem perder um certo quê provinciano.
A cidade? Não. As cidades. A vida de Santos se emaranhou com a de São Vicente, Guarujá, Cubatão e Praia Grande e, numa escala um pouco menos intensa, com a de Bertioga, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe.
Se Lydia Federici estivesse viva, certamente teria captado essa transformação. Talvez rebatizasse a crônica diária como “Pessoas e Detalhes das Cidades”.
Tenho vontade de me apropriar desse título adaptado. E tentar, ainda que sem a mesma sensibilidade, sem a mesma capacidade de captação e, principalmente, sem o mesmo talento, dar continuidade a esse trabalho interrompido: o de garimpar e lapidar o pulso das nossas cidades nos seus habitantes e nos seus detalhes.
Mas Paulo, será que você não tem vergonha de ser tão pouco original? Um título tão parecido… Será que não tem medo de dar continuidade a uma coluna tão marcante como Gente e Coisas da Cidade tanto tempo depois?
Não cabe a mim essa avaliação. Cabe a você, leitora / leitor. Pode ser que você nem tivesse nascido ou nem tivesse ainda aprendido a ler em 94. Mas pode garimpar e curtir algumas crônicas da Lydia Federici na internet.
E a partir de amanhã, Pessoas e Detalhes das Cidades, aqui neste espaço. Lydia Federici que me perdoe a ousadia. Mas vale a pena tentar garimpar e lapidar tantos tesouros que estão passando despercebidos.