A flexibilidade narrativa de Doria, alterada ao sabor do instante presente, não resiste a um retrocesso histórico de dois meses

Doria, que pode ser acusado de ser um Narciso na sala de espelhos, mas não de incompetente, conseguiu dois feitos notáveis nessas últimas semanas de pandemia.
Primeiro, feito extraordinário, viabilizou, em condições altamente adversas, uma vacina - pela qual meu braço não muito másculo aguarda ansiosamente. Segundo, feito ainda mais extraordinário, transformou um esquema de cinco cores, que até um Bolsonaro deveria conseguir entender, num labirínto mais indecifrável que equação de Fibonacci.
Vide a 17ª atualização do Plano São Paulo, que passou a valer ontem, dia 11. Na reclassificação, Doria manteve grande parte do estado na mesma fase, mas as flexibilizou em aspectos cruciais.
Na prática, a fase amarela - que terá todas as atividades em funcionamento e parques estaduais abertos - se aproxima da fase verde anterior. Similarmente, a fase laranja (que dobrou o período de funcionamento dos estabelecimentos) se aproxima do que até então era a amarela.
As mudanças no agora labiríntico Plano São Paulo de Doria guardam semelhanças com o suco de laranja que parece limão e tem gosto de tamarindo do Chaves. A analogia vulgar orna melhor com nossos tempos.
E qual o problema? Pode, naturalmente, perguntar-se a leitora arguta. Recorrendo à retórica dos idiotas, segundo o universo de nossa vulgar analogia, respondo com outra pergunta: será que no caso de políticas restritivas cuja adesão depende em grande parte da conscientização e voluntarismo coletivo, uma louca mixórdia de normas pouco claras e instáveis não são mais propensas a serem negligênciadas ou desobedecidas? Eis um dos problemas.

Voltemos ao outro, o governador. Fato ainda mais exemplar de como Doria opera: no dia 7, véspera do estranho esquema de cores, ele abriu a aguardada coletiva de imprensa sobre a eficácia da coronavac, sob olhares do mundo inteiro, com uma série de platitudes em defesa da ciência, da medicina e da vida. Quase é possível acreditar em seu tom rotundo e grave. Dois dias antes, porém, publicou no Diário Oficial um corte de 12% (R$ 80 milhões) dos recursos de 180 Santas Casas e hospitais filantrópicos que atendem mais de 70% dos pacientes da Covid-19.
Mentiu? Não. Mas uma coisa não casa com a outra. Para cada negação de Bolsonaro, Doria flexibiliza uma narrativa.
A flexibilidade narrativa de Doria, alterada ao sabor do instante presente, não resiste a um retrocesso histórico de dois meses. Seu trunfo é que dois meses são uma eternidade nos dias que correm.
Então voltemos um pouco, mas não muito. Mesmo sob protestos do competente Centro de Contingência da covid, Doria postergou a 16ª reclassificação estadual, que no início era semanal, para o dia 30 de novembro, 52 dias após a anterior, ocorrida em 09 de outubro. A 16ª reclassificação, estranha coincidência, só saiu um dia após as eleições em que Bruno Covas, protegido de Doria, foi reeleito.
Com o vírus comendo solto, incontrolado por quase dois meses, Doria impôs um lockdown temporário no Natal e Ano Novo e foi a Miami no mesmo período.
Volto à reclassicação atual, eis a síntese: quem ficou na amarela, parece que subiu pra verde e quam caiu pra laranja, parece que ficou na amarela. Olha que desse jeito a população de São Paulo acaba imunizada...
E daltônica.