Após procedimento, em 1971, Waldirene Nogueira viu seu médico ser condenado por lesão gravíssima; ela enfrentou batalha judicial ao tentar alterar RG, emitido só em 2011, aos 66 anos

Waldirene Nogueira, primeira mulher trans a passar por cirurgia de redesignação sexual no Brasil, morreu na tarde da terça-feira (19),em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, onde vivia acamada sob cuidados de familiares. Segundo a família, a causa da morte foi insuficiência respiratória aguda. Ela tinha 80 anos.
Nascida em 1945, Waldirene Nogueira veio ao mundo registrada como Waldir Nogueira. No fim da década de 1960, passou a ser acompanhada pela endocrinologista doutor Dorina Epps, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Depois de cerca de dois anos de avaliações médicas e psicológicas, recebeu um parecer reconhecendo sua identidade de gênero.
Em dezembro de 1971, Waldirene passou pela cirurgia de redesignação sexual no hospital Oswaldo Cruz, na capital paulista. O procedimento, conduzido pelo cirurgião plástico Roberto Farina, entrou para a história como o primeiro no Brasil.
Apesar do avanço médico, a trajetória após a cirurgia foi marcada por dificuldades e disputas judiciais. Ao tentar adequar seus documentos civis à sua identidade, Waldirene viu o médico responsável pela operação ser condenado a dois anos de prisão sob acusação de lesão corporal gravíssima, após ser processado pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), sob a acusação de mutilação.
A sentença havia sido proferida pelo juiz Adalberto Spagnuolo, em 6 de setembro de 1978. Termos como “monstro”, “prostituta”, “doente mental”, “mutilado”, “eunuco” e “bichinha” foram algumas das palavras usadas pelo Ministério Público paulista para se referir a Waldirene no processo contra Farina.
Mesmo diante da exposição e da pressão pública, Waldirene se mobilizou em defesa de Roberto Farina, reunindo manifestações de apoio de familiares e autoridades. O médico morreu em 2001, aos 86 anos.
Em 1976, ela já havia enfrentado outro episódio traumático. Em plena ditadura militar, foi conduzida coercitivamente da cidade de Lins, no interior paulista, para o IML da capital, em uma viagem de 400km, onde passou por exames considerados invasivos e chegou a ser fotografada nua.
O reconhecimento oficial de sua identidade demorou décadas para ocorrer. O pedido de alteração do nome chegou a ser negado inicialmente, fazendo com que permanecesse registrada como Waldir durante grande parte da vida. Somente em 2010, aos 65 anos, conseguiu a retificação de sua certidão de nascimento. O novo documento de identidade foi emitido no ano seguinte.
Formada em contabilidade, Waldirene nunca conseguiu atuar na área devido à incompatibilidade entre sua aparência e os registros civis. Ao longo da vida, trabalhou como manicure e optou por manter uma rotina discreta, longe dos holofotes.
Waldirene Nogueira será enterrada nesta quarta-feira (20), às 17h, no Cemitério da Saudade.