HUMILHAÇÃO

Senhora negra evangélica é acusada de furto e agredida dentro de loja no litoral de SP

Mulher de 54 anos entrou em estabelecimento com sacola em busca de flores para evento da igreja, foi acusada de furto e agredida a pauladas por proprietários; amigos, vizinhos, parentes e moradores da cidade expressaram indignação e revolta com humilhação sofrida por mulher


Da redação
Publicado em 06/07/2021, às 11h10 - Atualizado às 15h01

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Nas redes sociais, moradores, vizinhos e parentes expressaram indignação Senhora negra evangélica é acusada de furto e agredida dentro de loja no litoral de SP: “Revoltante”, dizem familiares e vizinhos - Reprodução/Facebook: Quarentenário Mil Grau - São Vicente
Nas redes sociais, moradores, vizinhos e parentes expressaram indignação Senhora negra evangélica é acusada de furto e agredida dentro de loja no litoral de SP: “Revoltante”, dizem familiares e vizinhos - Reprodução/Facebook: Quarentenário Mil Grau - São Vicente


Uma senhora negra e evangélica foi agredida no interior de uma loja em São Vicente, no litoral de SP, após uma controversa acusação de furto por parte dos responsáveis pelo estabelecimento, neste sábado (3). Após as agressões, Maria do Socorro da Silva, de 54 anos, foi parar no Pronto Socorro do Humaitá, no Parque Continental.

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A agressão provocou revolta na população da cidade. Vizinhos de dona Socorro, como ela é conhecida, expressaram indignação nas redes sociais. Familiares afirmam que registraram boletim de ocorrência, e prometem judicializar as agressões.



Abuso e acusação controversa

Em condição de anonimato por medo de retaliações dos proprietários do estabelecimento, uma prima, amiga e vizinha de dona Socorro há mais de 20 anos, afirmou, nesta terça-feira (6), que ela entrou em uma papelaria no Jardim Rio Branco em busca de flores para um evento da igreja que frequenta. "Vamos ter a festividade da igreja e ela sempre tomou conta das decorações", afirma.

Ao entrar, dona Socorro portava uma sacola com itens comprados em outro estabelecimento. Enquanto escolhia as flores no interior da loja, o filho da proprietária desconfiou que dona Socorro estivesse furtando os produtos e chamou sua mãe, dona da loja.

Após acusações, negadas por dona Socorro, segundo a familiar, os proprietários fecharam as portas do estabelecimento e agrediram a mulher negra de 54 anos com pauladas. 



Fachada da loja no bairro Rio Branco, em São Vicente Senhora negra evangélica é acusada de furto e agredida dentro de loja no litoral de SP: “Revoltante”, dizem familiares e vizinhos (Imagem: Reprodução / Google Street View)

"Eles abaixaram a porta e pegaram um cabo de pau, aqueles varão de cortina. Tanto o filho quanto a dona, bateu, bateu, bateu, bateu tanto nela. Ela não consegue nem comer", declara, aos prantos, a parente que busca justiça para dona Socorro.

Após as agressões, os proprietários chamaram a Polícia Militar que foi até o local. Segundo informações, dona Socorro, que toma medicações controladas, se negou a entrar na viatura, argumentando que não era ladra e, agredida e ultrajada, desmaiou na rua. Moradora da cidade há mais de 30 anos, ela foi socorrida por conhecidos que transitavam no local.

Um vídeo cruel: agredida no corpo, ultrajada na honra

Além das agressões a dona Socorro, os proprietários ainda gravaram um vídeo humilhante, em que acusam a mulher de furto e ameaçam agredi-la novamente, caso ela não confesse o furto que ela, desnorteada, afirmava não ter cometido. Com a repercussão negativa, eles apagaram o vídeo das redes sociais. 



"Ela [proprietária] expôs a imagem da minha prima.", declara a familiar, em tom de indignação, e completa. "A gente se sente amedrontado. O que as pessoas que não conhecem a índole dela vão achar disso? As pessoas que já conhecem ela há muitos anos, tudo bem, eles já sabem como ela é. Agora, ela já trabalhou em casas de família, passou fome para criar seus filhos, nunca roubou um real de ninguém. Ela [dona Socorro] chorou muito", lamenta.  

Racismo

A familiar é taxativa, ao afirmar que as agressões a dona Socorro tiveram motivação racial. 

"Ela se identifica como mulher negra, tanto ela quanto as filhas, as irmãs. Todo mundo se identifica como negro", afirma ela, e reflete. 



"Se ela fosse uma mulher branca, acredito que ela não teria tido o mesmo tratamento. Eu acho que foi da forma como foi por ela ser preta."

São Vicente em polvorosa

O caso ganhou grande repercussão em São Vicente. Centenas de moradores, amigos e familares da mulher negra e evangélica manifestaram repúdio às agressões e saíram em defesa de dona Socorro, negando o furto e afirmando que, mesmo em caso de furto, a ação na loja é ilegal e imoral.

“Conheço bem essa moça. Ela já passou fome na vida e nunca roubou nada de ninguém para se alimentar nem aos filhos. Não é hoje que ela tem, que ela vai fazer isso. Eu já fui nessa loja e o povo é assim: ficam andando atrás da gente para ver se a gente tá roubando alguma coisa, por isso que não gosto de entrar nessa loja”, afirmou Dapaz Quirino, vizinha de Dona Socorro (veja todas as reações ao final).



Nas redes sociais, moradores, vizinhos e parentes expressaram indignação Senhora negra evangélica é acusada de furto e agredida dentro de loja no litoral de SP: “Revoltante”, dizem familiares e vizinhos (Imagem: Reprodução / Facebook / Quarentenário Mil Grau - São Vicente)

“Ela não roubou nada. Tem que ter Justiça”, indignou-se o vicentino Marcos Oliveira.

Outros moradores pediram punição ao estabelecimento. “A família tem que processar essa loja,  a Socorro é uma mulher trabalhadora, honesta e digna jamais faria isso. Uma mulher que teme a Deus. Estou indignada com essa notícia”, afirmou Priscila Paiva, conhecida da vítima.

Outros moradores argumentaram que, mesmo que ela tivesse furtado algum objeto na loja, não poderia ter sido trancada e agredida no estabelecimento. Carol Castro, filha de dona Socorro, afirmou nas redes sociais que vai denunciar o estabelecimento. "O B.O. já foi feito, estamos tomando todas as providências possíveis”.



Indignada, uma moradora resumiu o sentimento geral. “Vontade de ir lá e quebrar a loja toda”.

Por telefone, o Portal Costa Norte não conseguiu contato com os demais citados nesta matéria e proprietários do estabelecimento.  

https://www.facebook.com/quarentenariomilgrau/posts/351008573128207



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