Morador pediu que Defesa Civil da cidade expulsasse três pessoas em situação de rua de bairro nobre de Santos e, além de onda de críticas, recebeu lição de vida de outra moradora; com a cara e com a coragem, mulher foi atrás das três pessoas em situação de rua, descobriu dolorosa história de todos eles e ainda vai ajudar um a voltar para casa
Da redação
Publicado em 03/07/2021, às 14h40 - Atualizado às 21h33

Um residente de Santos, no litoral de SP, que sugeriu que a Defesa Civil da cidade expulsasse três pessoas em situação de rua de uma área nobre da cidade, recebeu uma lição de humanidade por parte de outra moradora nesta sexta-feira (2).
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Horas antes da lição, o homem se manifestou numa das principais redes sociais regionais da cidade, reclamando do que ele achava ser uma família de três pessoas que se abrigam nas proximidades de uma banca de jornal fechada na Av. Dr. Epitácio Pessoa, na Ponta da Praia, bairro nobre santista.

“Gostaria de comunicar à Defesa Civil que existe uma família se abrigando nesta banca de jornal fechada, todos os dias e quando a guarda municipal vem, tira-os dali [sic], mas à noite voltam e ficam, até que a guarda venha novamente”, afirmou o homem, ao divulgar uma foto das pessoas em situação de rua. No mesmo dia, uma outra moradora da cidade iria demonstrar ao homem que ele havia perdido uma excelente oportunidade de ficar calado.
Onda de críticas e lição de humanidade
A reclamação do homem foi o estopim para uma onda de críticas. “Fiquei indignado com o posicionamento com os moradores de rua da nossa cidade, nesse caso é só uma família que não tem um teto pra ficar, e reclamam de ficar na frente de uma banca de jornal por atrapalhar a visão dos moradores”, respondeu, em tom de indignação, um terceiro residente da cidade, na mesma rede social regional.
https://www.facebook.com/photo?fbid=3091249584430248&set=gm.3057388891164762
Outra moradora, porém, mostrou que foi além das críticas na internet ao fazer um longo relato em que descreve a humanidade com que tratou as pessoas em situação de rua de quem o homem havia pedido a expulsão da cidade pela Defesa Civil, que costuma lidar com desastres naturais.
Inicialmente, a mulher afirma que foi até à rua na Ponta da Praia e conversou com trabalhadores da região sobre o trio de pessoas em situação de rua de quem havia reclamado o outro morador, descobrindo “que os três são como uma família, mas não são parentes”, afirma ela.
Em seguida, após relatos de que “eles eram usuários de drogas e bebidas, mas não mexiam com ninguém” a mulher afirma que foi até o próprio trio de pessoas em situação de rua tentar saber mais sobre eles e encontrar uma forma de ajudá-los.
Após procurar um pouco pelas imediações da avenida, ela afirma que os encontrou e “puxou papo”.
Vidas sofridas
Um deles, diz ela, é uma mulher cadeirante. “Ela perdeu metade da perna esquerda em um acidente ferroviário, desde então a vida não fez mais sentido para ela, [que] passou a beber muito e a usar drogas”.
O outro é um jovem. A mulher afirma que, acostumado a ser enxotado, inicialmente ele a tratou com agressividade, “mas ao explicar a ele o porque eu estava ali, ele baixou a guarda” disse a moradora.
Enquanto conversava com as duas pessoas em situação de rua, diz ela, “um senhor que estava calado até então, começou a chorar olhando pra mim. Perguntei a ele porque ele estava chorando, e ele disse que gostaria muito de voltar pra casa, o único problema que ele tinha, era apenas com bebida. Ele quer voltar para Cândido Mota, no Paraná, sua cidade natal”.
“Prontamente perguntei se ele sabia o nome de algum familiar ou algum telefone”, prossegue ela. “Ele passou o nome e telefone da mãe dele. Cheguei em casa e a primeira coisa que fiz foi ligar pra ela. Ela chorou do começo ao fim da ligação, estava sem notícias dele há meses e achava até que ele tinha morrido", relembra.
A solidária residente de Santos pede ajuda com a manutenção da cadeira de rodas da moradora de rua que sofreu uma amputação e afirma que vai ajudar o senhor que chorou a voltar para sua cidade. “Irei verificar o valor da passagem e caso alguém queira ajudar também, é só me falar”, pede ela.
A mulher conclui o longo relato (leia na íntegra ao final) dando uma indireta ao santista que pediu que os moradores fossem enxotados da cidade. “Assim podemos dizer “menos um nas ruas””.
Após o relato da residente, outros moradores criticaram o homem que pediu a expulsão das pessoas em situação de rua por meio de um tratamento desumano e elogiaram a atitude da mulher.

“Santos é uma cidade lotada de eugenistas e higienistas. Mas que bom que você é fora da curva. A dependência química é uma doença que não escolhe classe social e pode afetar qualquer um de nós. E morar na rua muitas vezes é a alternativa que a pessoa escolheu por não ter mais um lar. Linda a sua atitude. Você fez o correto. Praticamente salvou uma alma da rua, ao invés de ficar reclamando de morador de rua, como muitos aqui fazem”, refletiu outra moradora.
Após as críticas e depois da lição de humanidade, a publicação do morador que pediu a expulsão das pessoas em situação de rua de Santos desapareceu da rede social regional.
https://www.facebook.com/photo/?fbid=4283691965003283&set=gm.3057372204499764
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