SHOW DE HORRORES

Pacientes acusam clínica em Praia Grande de extrair seus dentes sem autorização: "Carniceiros"

Clínica odontológica em Praia Grande é acusada por pacientes de extrair dentes sem exigir exames e sem avisá-los; casal relata que foi fazer obturação e limpeza dentária e viveu show de horrores; Conselho Regional de Odontologia de São Paulo afirma que infrações éticas, caso comprovadas, podem render punições aos envolvidos


T. S. Paulo
Publicado em 28/09/2021, às 14h11 - Atualizado às 17h07

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Costureira Viviane Mendes, moradora do bairro Maracanã, em Praia Grande, afirma que ela e o marido tiveram dentes extraídos contra a vontade de ambos, em clínica de Praia Grande Viviane - Pacientes acusam clínica odontológica em Praia Grande de arrancar se - Imagem:  Viviane Mendes
Costureira Viviane Mendes, moradora do bairro Maracanã, em Praia Grande, afirma que ela e o marido tiveram dentes extraídos contra a vontade de ambos, em clínica de Praia Grande Viviane - Pacientes acusam clínica odontológica em Praia Grande de arrancar se - Imagem: Viviane Mendes


“Completamente lesado”, “Me sentindo uma cobaia”. Assim, uma dupla de pacientes afirma que se sente após terem passado recentemente por uma clínica odontológica em Praia Grande, no litoral de SP.

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Em entrevista ao Portal Costa Norte, os dois pacientes afirmam que foram à clínica esperando realizar obturações e outros procedimentos dentários corretivos, mas saíram de lá com um dente a menos na boca cada um.



Ambos, que são casados, denunciam a clínica de arrancar seus dentes contra sua vontade e sem a realização de exames odontológicos prévios. Questionado, o Crosp (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo) afirmou nesta terça-feira (28) que poderá apurar o caso.

A costureira Viviane Mendes, de 47 anos, relata que, há pouco mais de um mês, no dia 20 de agosto, ela e seu marido, o auxiliar de manutenção Laércio Mendes, de 49, fizeram um acordo de tratamento dentário na franquia do Centro Odontológico do Povo localizada no bairro Ocian.

Com cerca de 50 franquias espalhadas pela região metropolitana de São Paulo e por diversas cidades do litoral paulista o Centro Odontológico do Povo oferece tratamentos dentários a preços acessíveis. O casal de pacientes afirma que pagou R$ 1.000 adiantados por um tratamento com obturações e limpezas dentárias. No entanto, dizem, não foi isso que se deu durante os atendimentos na clínica.



Entrou para obturar, saiu desdentado

“Nós dois saímos de casa para fazer um orçamento na clínica. Fomos juntos. Fizemos o orçamento. Eu cheguei lá só com uma sensibilidade no dente. Aí, o doutor que me atendeu falou que era por causa da minha obturação que tinha caído, disse que estava gasta. Fechamos um tratamento”, relembra-se Viviane.

No dia 20 de agosto, mesma data em que havia pisado no Centro Odontológico do Povo de Praia Grande pela primeira vez, Laércio afirma que, apesar de ter resistido, foi convencido pelo responsável pela clínica, o cirurgião dentista Yuri Villas Boas Ventura, a obturar o terceiro molar inferior direito, vulgarmente conhecido como ciso.

“Eu não estava com dor de dente nem nada. Nessa de fazer o orçamento, um tal de Yuri, que faz os orçamentos e é responsável pela clínica lá, fez a avaliação e tal. Eu falei que só queria o orçamento, mas na hora, ele fez aquele psicológico na gente e eu acabei ficando pra fazer um reparo no dente”, explica o auxiliar de manutenção.  



Entretanto, algo deu errado. De acordo com Laércio, o procedimento se mostraria mais próximo de uma carnificina bucal do que de um simples reparo dentário.

“Eu achei que eles estavam fazendo a obturação, e, na verdade, eles estavam tentando arrancar o dente do ciso. Sem fazer uma panorâmica, sem ver como que estava a raiz. Não me pediram nenhum exame”, relembra, em tom de indignação, o auxiliar de manutenção, que narra o procedimento desastroso.

O show de horrores

“Descobri que estava tirando o dente quando uma dentista começou a enfiar um alicate na minha boca e torceu pra lá, torceu pra cá e começou a machucar meu maxilar. Mas eles não conseguiram tirar o dente. Veio uma outra dentista. Veio uma outra. Foram quatro dentistas tentando tirar o meu dente, e não conseguiram”, recorda-se o paciente.



Laércio afirma que, durante o procedimento, foi anestesiado dez vezes. O procedimento, relembra, só foi interrompido a pedido dele, que já não aguentava mais. “Eu falei. Não. Para, para, para, vocês estão me machucando. Não dá mais”.

Desde então, com um terceiro molar parcialmente arrancado na boca, Laércio afirma que tem sofrido com dores lancinantes. “Fiquei tomando líquido de canudinho, porque eles machucaram meu maxilar e eu não conseguia abrir a boca nem pra colocar uma colher dentro”, relata.

“Não falaram nada sobre o dente e arrancaram”, diz costureira

“Meu marido chegou aqui em casa quase louco, sabe? Sentindo muita dor. O meu marido tá com trauma. Ele não quer nem entrar naquela clínica”, afirma Viviane. A costureira relata que, uma semana após Laércio, no dia 28 de agosto, ao ir realizar uma limpeza na mesma clínica, também teve um segundo molar removido à revelia.



“O tratamento já estava pago, eles não quiseram devolver nosso dinheiro, então fui fazer uma limpeza dentária. Até então eles não tinham falado que iam arrancar meu dente. Não falaram nada sobre o dente e arrancaram”, afirma a costureira. Tal como com seu marido, ela relata que nenhum exame foi solicitado pela clínica antes da extração.

Viviane relata que, em quatro atendimentos na clínica, três dentistas insistiram em remover outros dois dentes diferentes, o que ela não permitiu. 

“Na terceira vez que fui lá, queria até passar com a mesma doutora que eu tinha passado. Aí a outra dentista que me atendeu queria arrancar outro dente. Ela falou assim. ‘ah, vamo arrancar, porque a senhora já toma um remédio só para os dois dentes’. Eu falei assim: 'Não! você tá doida?’ Eles só querem arrancar dente”, conclui a costureira - que tem uma plausível teoria para a estranha insistência dos dentistas da clínica em deixar seus pacientes desdentados. “Eu acho que é porque eles trabalham com prótese e aí quer que você coloque prótese. Eu acho que é isso”.



Após o quarto atendimento, Viviane afirma que, assim como seu marido, desistiu do tratamento na clínica. “Nem voltei mais lá pra fazer nada. Não vou voltar não. Se não eu vou sair de lá com outro dente na mão também, né?”, argumenta a costureira.

Ela e o marido afirmam que, há pouco menos de uma semana, no último dia 22, foram à clínica solicitar a devolução do valor pago adiantado pelo tratamento.

“Eu fui lá pra conversar, falando que eu e meu marido não estávamos satisfeitos, se tinha como eles devolverem nosso dinheiro. Aí, eles falaram que não aceitavam devolver o dinheiro não, porque isso daí ia sair do bolso dos dentistas. [Disseram] que eu podia mandar outra pessoa no meu lugar, mas que devolver, eles não podiam”



Laércio se indigna com a recusa da clínica. “Fui em outros dois dentistas, os dois me falaram que eles [dentistas da clínica] detonaram minha boca. Vou ter de fazer uma cirurgia na boca com um buco-maxilo. Já está marcada. Mesmo assim, não quiseram devolver meu dinheiro. Não fizeram o que teriam que ter feito e ainda não devolveram meu dinheiro. O mínimo que eles deveriam ter feito é isso”, revolta-se.

Envolvidos podem ser punidos

O Portal Costa Norte questionou o cirurgião dentista Yuri Villas Boas Ventura, responsável técnico pela franquia, sobre os motivos das extrações dentárias sem comunicação aos pacientes e sem a realização de exames prévios e, ainda, se a clínica desconta estornos do bolso de dentistas e sobre o motivo da clínica não ter devolvido o dinheiro de Viviane e Laércio. O responsável técnico pela clínica do bairro Ocian não se manifestou.

Contatado, o Crosp, órgão que faz a supervisão ética profissional das práticas odontológicas em âmbito estadual, afirmou, por meio de nota que “o responsável técnico pelo estabelecimento está regularmente inscrito junto ao Conselho”.



Conselho Regional de Odontologia de São Paulo afirma que, caso comprovadas infrações éticas, envolvidos podem ser punidos CROSP - Pacientes acusam clínica odontológica em Praia Grande de arrancar seus dentes sem autorização: “Verdadeiros carniceiros” (Imagem: Divulgação / CROSP)



Sobre as denúncias do casal de pacientes, o Crosp afirmou que “não adentra ao mérito das relações comerciais ocorridas entre paciente e profissionais ou clínicas odontológicas ou entre profissionais e estabelecimentos odontológicos” e que “não realiza acordos financeiros e não determina ressarcimentos ou indenizações diante de eventuais denúncias apresentadas, cabendo-lhe analisar e julgar condutas praticadas pelos cirurgiões-dentistas, clínicas odontológicas e outros profissionais da Odontologia, além de outros casos que venham a caracterizar infração ética”.

O Crosp afirmou que, somente em caso de Viviane e Laércio apresentarem uma denúncia junto ao órgão, “é que se poderá analisar adequadamente os fatos ocorridos para gerar possíveis punições”.

De acordo com o órgão, infrações éticas na odontologia podem render aos responsáveis desde advertência reservada, até cassação do registro profissional, passando por multa que, em caso de reincidência, são dobradas.



Após o desastroso atendimento na clínica, Laércio fez uma denúncia nas redes sociais em que qualificou os dentistas que o atenderam como “verdadeiros carniceiros”. “Meu desejo é que outras pessoas não passem pelo que eu passei e que eu tenha meu dinheiro de volta. É isso que eu quero”, disse ele à reportagem.

O auxiliar de manutenção afirma que pretende judicializar o caso. “Hoje mesmo eu vou fazer exame de corpo de delito. Já fui na delegacia. Minha advogada já está tomando as providências.”, afirmou.

No último dia 22, o auxiliar de manutenção procurou o primeiro DP de Praia Grande e registrou um boletim de ocorrência por lesão corporal culposa por inobservância de regra técnica da profissão contra a clínica. “Não vou deixar barato não”, conclui.



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