TRISTE LITORAL

Família perde tudo ao comprar terreno fraudulento em Praia Grande (SP)

“A gente achando que ia realizar nosso sonho, e caiu num pesadelo”, afirma diarista que investiu economias em terreno em que construíria casa própria, mas descobriu que havia caído nas garras de quadrilha de golpistas e perdeu tudo


Da redação
Publicado em 25/10/2021, às 15h34 - Atualizado às 17h08

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Vista aérea da praia e parte da cidade de Praia Grande Vista aérea Praia Grande - Divulgação
Vista aérea da praia e parte da cidade de Praia Grande Vista aérea Praia Grande - Divulgação


Uma família perdeu suas economias após ser vítima de uma quadrilha de golpistas durante a compra de um terreno em Praia Grande, no litoral de São Paulo. “Meu esposo tá mal, meus filhos. Durante anos a gente guardando um dinheiro, achando que ia realizar nosso sonho, e caiu num pesadelo”, lamentou, em entrevista ao Portal Costa Norte nesta segunda-feira (25), a diarista Sabrina*, de 40 anos, vítima do embuste junto de seu marido, um técnico de refrigeração da mesma idade.

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Sabrina afirma que vive com o marido e dois filhos no fundo da casa de familiares, na Vila Sônia. Após juntarem dinheiro durante anos, os dois acreditavam que finalmente estavam mais próximos do sonho da casa própria, ao pagarem R$ 30.000 por um terreno na av. Ascenso Ferreira, no bairro Ribeirópolis, há pouco mais de um mês.



No entanto, poucos dias após a compra, Sabrina descobriu que o terreno onde pretendia construir seu lar, na realidade pertence a um advogado de Cubatão e não à pessoa que lhe vendeu. “O dinheiro, a dignidade, fazem falta", diz, sem conter o choro, a diarista. “Saber que a gente foi enganado desse jeito.”

O golpe

No início de setembro, Sabrina encontrou um terreno à venda nas redes sociais e contatou a suposta proprietária que se identificou como Marlene. “Ela disse que era proprietária e que tinha comprado o terreno de um  advogado de Cubatão já havia seis anos. A gente chegou a visitar. Ela tinha a chave do cadeado, tudo. Abriu para nós verificarmos. Mostrou um contrato de compra e venda”.

Ação especial permanece até o final de fevereiro Praia Grande Orla de Praia Grande com coqueiros, prédio e a praia (Foto: Reprodução/Guia do Turismo Brasil)



Apesar de constar no contrato que Marlene havia comprado o terreno do proprietário anterior, Sabrina afirma que não se convenceu até confirmar a propriedade do terreno com vizinhos do imóvel.

“De imediato eu fiquei meio apreensiva, meio desconfiada, e fui falar com vizinhos. Porque a gente entende que a vizinhança é a melhor informação que a gente tem. O pessoal falou que não via o dono, mas sabia que era uma mulher que morava em Cubatão. Teve até um senhorzinho que falou assim ‘[o terreno] era de um advogado, mas faz muito tempo que ele não vem, e agora só vem essa mulher’”.

Depois disso, a diarista relata ter se convencido da propriedade do imóvel pela mulher e resolveu prosseguir com a negociação. Além da suposta proprietária, Sabrina afirma que lidou com outras duas pessoas, que se identificaram como parentes dela.



No dia 08 de setembro, data do pagamento, após lavrarem um contrato de compra e venda do terreno no cartório do Boqueirão, a suposta proprietária enviou uma suposta sobrinha para receber a transferência do pagamento.

Vista aérea da praia e parte da cidade de Praia Grande Vista aérea Praia Grande (Divulgação)

“Foi a sobrinha dela que foi ao banco com meu esposo, porque ela [suposta proprietária] falou que não tinha cartão de banco. A sobrinha dela que compareceu no banco e foi feita a transferência com o RG dela e cartão do banco dela.”, relembra Sabrina.



A descoberta

Após a compra, porém, Sabrina recebeu uma ligação de um vizinho do terreno com quem havia conversado. “Ficamos sabendo por um vizinho do terreno que alguém tinha estourado os cadeados. No dia seguinte a gente foi até o local pra ver, e realmente algúem tinha trocado os cadeados tudo. A gente ficou naquele medo, achando que alguém estava tentando invadir o nosso espaço”.

Desesperada, ela procurou na internet o nome do advogado de Cubatão que constava como antigo proprietário no contrato da suposta vendedora e descobriu que o documento era fraudulento.

“Meu esposo estava nervoso, preocupado. Peguei o contrato de compra e venda, estava lendo e relendo o documento. Daí resolvi pegar o nome do advogado que estava no documento como antigo proprietário e jogar no Google. Aí, calhou de aparecer o número dele. Liguei e ele me falou que ele tinha um imóvel naquele endereço.”



No outro dia, relata Sabrina, ela foi ao escritório do advogado que lhe relatou jamais ter vendido o imóvel. “De imediato ele achou que a gente também era golpista, mas depois ele viu que realmente a gente foi lesado e nos ajudou bastante. Ele foi na vizinhança olhar o terreno e foi junto com a gente na delegacia”, relembra. 

Juntamente com a Sabrina, o advogado de Cubatão constatou que o contrato apresentado pela suposta vendedora era fraudado. Em depoimento à polícia, ele afirmou que seu nome foi adulterado digitalmente. No selo fraudado do tabelião de notas com o suposto reconhecimento de firma, além de um número de CPF que não bate com o dele, não consta um dos sobrenomes do proprietário.

A frustração

Sabrina afirma que havia comprado o terreno com intenção de construir sua casa. “A gente mora no fundo da casa da avó do meu marido”, diz a diarista, que completa, sem conter as lágrimas.



“É um sentimento de raiva, de culpa, de tudo, sabe? Se eu tivesse dinheiro, eu não faria questão. Mas não. É um dinheiro que trabalhei a vida inteira guardando. Com essa pandemia, a gente achou que ia ter um pouco mais de amor com o próximo. O que a gente não quer pros outros a gente não deseja pra nós. A gente agiu de boa-fé. Mas, infelizmente, o mundo realmente está perdido. Como um ser humano consegue pôr a cabeça no travesseiro e dormir com a consciência tranquila sabendo que está fazendo tudo isso? Mas eu não desejo o mal delas não. Eu desejo que Deus tenha misericórdia delas, que elas parem e pensem no que elas estão fazendo com pessoas boas, sabe? Tô orando muito a Deus e entregando na mão da justiça de Deus e pedindo forças pra gente continuar”, conclui, aos prantos. 

*Entrevistada em condição de anonimato: nome fictício. 

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