Birdwatching

Observação de aves impulsiona turismo sustentável no litoral norte e atrai até estrangeiros

Região reúne centenas de espécies da Mata Atlântica e atrai visitantes que viajam centenas de quilômetros para registrar uma única espécie

Grupo de apaixonados por avistamento de aves durante "passarinhada" em Ilhabela - Divulgação
Grupo de apaixonados por avistamento de aves durante "passarinhada" em Ilhabela - Divulgação


Os municípios do litoral norte de São Paulo vêm atraindo um público que corre, cada vez mais, na contramão do turismo de massa e barulhento. Os amantes do birdwatching, prática sustentável que consiste em identificar, apreciar e fotografar aves em seu habitat natural, descobriram em Caraguatatuba, Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba um dos mais importantes destinos para a observação de aves do país, devido à exuberância da Mata Atlântica que cobre, em média, entre 75% a 85% de seus territórios, o que faz da região um cenário privilegiado para a prática.

No litoral norte, o turismo de observação de aves cresce como uma experiência que mistura contemplação, ciência e conexão com a natureza e atrai até turistas do exterior, como é o caso de Ubatuba, que recebe, com frequência, a visita de alemães que buscam o destino exclusivamente para a observação de aves, tornando-as um novo patrimônio turístico.

Bem-te-vis são vistos em vegetação costeira de Ilhabela, um dos destinos mais procurados por amantes do birdwatching - Foto Reginaldo Pupo



A combinação entre áreas preservadas da Mata Atlântica, diversidade de ecossistemas e baixa altitude faz do litoral norte paulista uma das mais ricas do país, por possuir espécies raras e coloridas.

Segundo a prefeitura de Ilhabela, existem cerca de 390 espécies de aves registradas, incluindo exemplares endêmicos da Mata Atlântica e outras ameaçadas de extinção, consolidando-se como um dos principais destinos brasileiros para a prática do birdwatching. O número de espécies cresceu. Em 2012, eram 317 registradas na ilha. Já em 2023, levantamentos ligados à WikiAves, maior plataforma brasileira dedicada ao registro e compartilhamento de informações sobre aves, já apontavam 384 espécies registradas.

Entre as mais vistas e conhecidas na região, segundo os amantes do birdwatching, estão a saíra-sete-cores, o tiê-sangue e surucuá-variado. Há quem atravesse estados e até países apenas para registrar uma única espécie.



A guia de turismo e monitora ambiental Vilma de Oliveira, de Ilhabela, que é observadora de aves desde 2010 - Divulgação

Avistamento guiado

Em Ilhabela, o turismo de observação ganhou força especialmente nas áreas de mata preservada do Parque Estadual. Guias especializados relatam aumento na procura por roteiros voltados exclusivamente para avistamento de aves, principalmente durante o amanhecer.

A guia de turismo e monitora ambiental Vilma de Oliveira, de Ilhabela, é observadora de aves desde 2010 e faz condução de visitantes em áreas naturais protegidas para o avistamento. Segundo ela, a cidade vem registrando aumento no número de turistas interessados em observar e também registrar espécies de aves.



Segundo Vilma, os turistas buscam passeios ou saídas para as “passarinhadas” com roteiros personalizados, conforme perfil do visitante. “Além do avistamento em terra, também há os visitantes interessados em realizar avistamento de aves marinhas. Para este caso, fazemos um tour embarcado até o Arquipélago dos Alcatrazes, passeio credenciado pelo ICMBio”, diz ela, se referindo ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão gestor do arquipélago.

Avistamento de aves, como o raro pica-pau, atrai milhares de turistas a Ilhabela o ano inteiro - Foto Reginaldo Pupo

Experiência quase “espiritual”

Já em Ubatuba, considerada por especialistas uma das capitais brasileiras da observação de aves, a diversidade impressiona. São 565 espécies de aves catalogadas, segundo a prefeitura, considerando registros científicos e observações mais recentes de espécies registradas, incluindo aves endêmicas da Mata Atlântica e exemplares ameaçados de extinção.



O município recebe frequentemente fotógrafos de natureza, pesquisadores e observadores experientes que encontram uma rara combinação entre biodiversidade e facilidade de acesso.

Tangara, uma das 390 espécies de aves catalogadas em Ilhabela - Foto Reginaldo Pupo

Mas o fenômeno vai além do turismo. Em comunidades locais, moradores passaram a enxergar valor econômico e ambiental na preservação. Hotéis e pousadas adaptaram serviços para receber observadores, oferecendo café da manhã antes do nascer do sol e espaços para fotógrafos. Alguns moradores se tornaram monitores ambientais e guias de trilha, transformando o conhecimento da mata em oportunidade de renda.



Para muitos visitantes, porém, o encantamento é menos técnico e mais emocional. Há quem descreva o primeiro encontro com um tucano-de-bico-verde ou com um beija-flor raro, por exemplo, como uma experiência quase espiritual.

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