DE CORTAR O CORAÇÃO

Família do litoral vai passar Páscoa com fome: 'filhinho pediu ovo de páscoa, mas nem arroz temos'

“Hoje, quando ele me olhou e falou assim ‘mamãe, mamãe, será que o coelhinho vai vir, trazer o ovo?' Eu me despenquei de chorar, porque eu não tinha nem arroz para a gente fazer agora no almoço". A comovente história da auxiliar de veterinário de Mongaguá, no litoral de São Paulo; deficiente, autônoma e chefe de família, ela caiu na extrema pobreza com a pandemia e vai passar Domin


Da redação
Publicado em 03/04/2021, às 14h48 - Atualizado em 04/04/2021, às 08h48

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Auxiliar de veterinário mantém abrigo para quase 30 cães e gato com recursos próprios. Quando falta ração, ela divide a própria comida com os animais "dependem de mim", relata Nancy Fome na Páscoa - Imagens: Acervo Pessoal
Auxiliar de veterinário mantém abrigo para quase 30 cães e gato com recursos próprios. Quando falta ração, ela divide a própria comida com os animais "dependem de mim", relata Nancy Fome na Páscoa - Imagens: Acervo Pessoal


“Hoje, quando ele olhou pra mim e falou assim ‘mamãe, mamãe, será que o coelhinho vai vir, trazer o ovo?' Eu me despenquei de chorar, porque eu não tinha nem arroz para a gente fazer agora para o almoço".

O relato, que descreve uma véspera de páscoa melancólica e famélica, é da auxiliar de veterinário Nancy da Silva Patacho, de 45 anos, moradora de Mongaguá, no litoral de São Paulo.

Nancy descreve com a serenidade de quem “já chorou o que tinha pra chorar” a arrasadora conversa que  teve neste sábado (03) com seu filho mais novo, Luis Fernando Patacho Aguiar, de seis anos. Além de Luis, ela tem uma filha de 22 anos e dois netos, que vivem em São Paulo.



Auxiliar de veterinário mantém abrigo para quase 30 cães e gato com recursos próprios. Quando falta ração, ela divide a própria comida com os animais "dependem de mim", relata Nancy Fome na Páscoa (Imagens: Acervo Pessoal)

Nancy não sabe muito bem se terá comida à mesa amanhã, domingo de Páscoa, data que tradicionalmente é celebrada com uma ceia farta de bacalhau assado ou quejandos.

O número de famílias que passam fome ou estão em insegurança alimentar no Brasil atinge patamares recordes na pandemia. De acordo com dados do Ministério da Cidadania, de fevereiro de 2021, o número de famílias cadastradas no CadÚnico em situação de extrema pobreza superou os 14 milhões.

Ao todo, esse total de famílias significa 39,9 milhões de pessoas na miséria no Brasil, com renda por pessoa abaixo de R$ 89. Outras 2,8 milhões de famílias, ou 8 milhões de pessoas, vivem na pobreza, com renda média mensal entre R$ 90 e 178.



Este é o caso de Nancy, que viu sua situação financeira se degradar nos últimos três anos, até atingir contornos dramáticos durante a pandemia.   

A auxiliar de veterinário, que há três anos vive na Avenida Belo Horizonte, na Vila Seabra, viu sua renda sumir durante a pandemia. Deficiente física, com mobilidade reduzida em um braço e numa perna, ela perdeu sua aposentadoria há três anos por problemas burocráticos na perícia médica.

Mãe se emocionou com pedido de ovo de páscoa do filho Luis Fernando Páscoa com fome (Imagem: Acervo Pessoal)

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Até o início da pandemia, sustentava o filho e mais 29 cães e gatos no abrigo de animais que mantém sozinha com seu trabalho de transporte de animais. Com o início da pandemia, perdeu todos os clientes e junto deles perdeu toda sua renda fixa mensal. “A pandemia prejudicou a minha situação, com certeza”, analisa Nancy. “A maioria dos meus clientes em Mongaguá são pessoas idosas e eles não estão levando seus animais à clínica".

Até dezembro de 2020, Nancy relata que ainda conseguiu se alimentar com o auxílio emergencial de R$ 600. Agora, sem o auxílio, a fome bate à sua porta. "O auxílio emergencial de antes me ajudou muito. Como chefe de família, me ajudou muito. Mas agora nós estamos numa situação que só por Deus”, lamenta Nancy.

Cadastrada na assistência social da Capital paulista, onde morava, Nancy relata dificuldades em conseguir até mesmo cestas básicas junto à assistência social da cidade “nem cesta básica aqui embaixo eu consegui” relata com resignação. Tudo é dificultado pela pandemia e pela mobilidade reduzida, explica Nancy.



Com um filho pequeno de seis anos, quase trinta animais para cuidar, impossibilitada de trabalhar pela pandemia e sem receber nenhum auxílio emergencial, Nancy relata que chegou a adoecer, mas conseguiu se recuperar e tem ido à luta com as armas que têm.

"Já chorei o que tinha para chorar, fiquei doente, um mês de cama, com cobreiro [doença de pele similar à catapora]. Fiquei com problemas emocionais, acho que tive depressão. Mas a gente tem que lutar, porque eu tenho meu filho, tenho os animais que dependem de mim. Estou pedindo ajuda daqui, ajuda de lá, pedindo misericórdia para todo mundo para sair dessa situação”, diz, em tom decidido, a auxiliar de veterinário.

Nancy Patacho, de 45 anos. Páscoa com fome (Imagem: Acervo Pessoal)

Nancy relata que quando falta a ração dos animais, chega a dividir a própria comida com eles. Para a pergunta do filho que abre esta matéria, ela deu uma resposta engenhosa. Disse que talvez o coelho da páscoa não passasse na casa deles pois estaria em isolamento social. “Filho, eu não sei. Talvez o coelhinho não venha porque ele não vai poder sair da casinha dele na pandemia”.



O filho, criança observadora, porém, havia visto uma criança vizinha com um ovo de páscoa. “'Mas mamãe, o coelhinho já passou lá'. Isso acabou comigo, acabou comigo, sabe?”, relembra, segurando as lágrimas, Nancy.

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Quem desejar ajudar a auxiliar de veterinário Nancy da Silva, pode contatá-la no número (11) 98840-2183  



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