REVISTA GUARUJÁ 92 ANOS

Guarujá, um novo ciclo à vista

Cidade se prepara para uma transformação que pode redefinir sua economia, sua relação com a Baixada Santista e a forma como moradores e visitantes ocupam o seu espaço, até o centenário, daqui a oito anos


Luciana Sotelo
Publicado em 14/09/2026, às 19h00

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Foto de cima de Guarujá
Seminário Guarujá 92 Anos reúne representantes para discutir investimentos, infraestrutura e os desafios para o desenvolvimento da cidade - Divulgação/Alison Motta


Por muito tempo, Guarujá foi uma cidade que o Brasil aprendeu a visitar. A badalada Pérola do Atlântico sempre teve uma dinâmica própria. O verão marcava o início da temporada, as praias determinavam o ritmo do turismo e, quando os visitantes iam embora, a cidade retomava sua rotina. Agora, esse ciclo começa a mudar. De destino turístico tradicional, Guarujá passa a assumir um papel cada vez mais relevante na economia, na logística e nos negócios da Baixada Santista.

Aos 92 anos, a cidade reúne um conjunto de investimentos e projetos que pode alterar sua relação com a região metropolitana e com o próprio território. A expansão das atividades portuárias e retroportuárias, o Aeroporto Civil Metropolitano, a perspectiva da ligação seca com Santos, novos empreendimentos imobiliários e a diversificação do turismo formam uma combinação pouco comum para uma cidade cuja imagem, durante décadas, esteve associada quase exclusivamente ao lazer e às praias.

Guarujá reúne atributos que poucas cidades brasileiras possuem”.

A afirmação é de Wagner Souza, presidente da Associação Comercial e Empresarial de Guarujá. Para ele, o momento vivido pelo município alia vocação turística já consolidada com novas oportunidades ligadas à logística, ao porto e aos serviços. É uma combinação que, se bem aproveitada, pode inaugurar uma etapa de desenvolvimento econômico capaz de alcançar diferentes setores da cidade.

O otimismo do empresariado, porém, não está relacionado apenas ao tamanho dos investimentos previstos, mas, principalmente, aos efeitos que eles podem produzir. O túnel Santos-Guarujá, por exemplo, representa uma mudança que ultrapassa a questão da mobilidade. Ao aproximar fisicamente os dois municípios, a ligação seca pode alterar fluxos de pessoas, mercadorias e negócios e reforçar a integração de Guarujá com a Baixada Santista. O aeroporto, por sua vez, abre outra possibilidade: conectar a cidade a novos mercados e ampliar tanto o turismo de lazer quanto o corporativo.

No setor portuário, a perspectiva também é ampla. A expansão das atividades na margem esquerda do complexo santista e o potencial das áreas retroportuárias colocam Guarujá diante da possibilidade de ampliar sua participação na cadeia logística regional, atraindo empresas de transporte, armazenagem, comércio exterior, tecnologia e serviços especializados.

De acordo com Wagner, os efeitos podem ultrapassar os limites dos terminais portuários.



Os grandes investimentos só fazem sentido quando geram oportunidades para os pequenos e médios negócios. Esse crescimento amplia a demanda por fornecedores, prestadores de serviços e diversos segmentos da economia, como comércio, alimentação, hospedagem, transporte, construção civil, tecnologia, manutenção, capacitação profissional e serviços empresariais”.

É nesse ponto que a transformação econômica deixa de ser apenas uma discussão sobre grandes obras e passa a dizer respeito à vida cotidiana. Mais investimentos significam, também, a necessidade de mão de obra preparada para ocupar os novos postos de trabalho.

É o que aponta Gabriella Vieira, profissional com mais de duas décadas de atuação nas áreas de arquitetura, urbanismo e gestão de projetos. Ela acompanha a transformação das cidades por uma perspectiva que vai além dos números e dos investimentos e, por isso, é enfática:

Crescimento econômico não é, sozinho, sinônimo de desenvolvimento urbano”.

Segundo Gabriella, a diferença está na forma como esse crescimento será absorvido. Túnel, aeroporto, expansão portuária e novos empreendimentos imobiliários podem trazer investimentos, empregos e valorização, mas também aumentam a necessidade de infraestrutura, mobilidade, habitação, saneamento e serviços públicos capazes de acompanhar uma cidade em transformação. É uma equação que Guarujá terá de resolver nos próximos anos: como aproveitar uma oportunidade econômica extraordinária sem permitir que o crescimento produza uma cidade ainda mais desigual ou sobrecarregada.



A resposta, para a urbanista, passa pelo planejamento integrado e pela participação da população. A cidade precisa entender onde estão suas vocações, quais áreas comportam maior adensamento, onde é necessário preservar e de que maneira os novos investimentos podem melhorar a vida de quem já vive no município.

Guarujá possui um patrimônio histórico e ambiental muito valioso, e a sua preservação não deve ser vista como um obstáculo ao crescimento, mas, sim, como um fator positivo nas tomadas de decisões, que podem ser mais inteligentes e sustentáveis respeitando seu patrimônio”.

Nesse sentido, o Plano Diretor adquire relevância. A proposta em discussão pela prefeitura busca reorganizar diretrizes de ocupação do território, considerando novas demandas de mobilidade, habitação, infraestrutura, meio ambiente e desenvolvimento econômico. 
Conforme a Secretaria de Planejamento Estratégico da prefeitura (Seplan), as estratégias do plano priorizam a concentração de maior adensamento em áreas com capacidade de suporte viário, o fortalecimento de zonas portuárias, retroportuárias e náutico-turísticas e a criação de mecanismos para que novos empreendimentos contribuam para mitigar seus impactos sobre o município.

Há, ainda, uma preocupação cada vez mais presente no planejamento urbano contemporâneo: a resiliência climática, com medidas relacionadas à drenagem, à permeabilidade do solo, à implantação de reservatórios de contenção e ao monitoramento de encostas.



Novo desenho para a cidade

Conforme a Seplan, o distrito Vicente de Carvalho representa um dos territórios com maior potencial de mudança, justamente pela proximidade com áreas portuárias e retroportuárias, o futuro aeroporto e os principais eixos de ligação com a rodovia Cônego Domênico Rangoni. Nele, o crescimento das atividades econômicas poderá gerar novas demandas por mobilidade, saneamento, drenagem e qualificação urbana.

Outras áreas também entram nesse mapa de transformação. Na região da Enseada, há perspectivas relacionadas ao desenvolvimento turístico. Em Pitangueiras, a requalificação da orla marítima pode estimular uma nova etapa de valorização e renovação urbana. Em bairros já consolidados, o fortalecimento de eixos comerciais e de serviços pode contribuir para uma ocupação mais dinâmica.

Para Gabriella, experiências de cidades como Curitiba, Barcelona e Roterdã mostram que o planejamento integrado tem condições de transformar desafios urbanos em oportunidades. Mas, ela lembra que nenhuma referência externa substitui o conhecimento sobre a própria cidade.



Estudar referências é fundamental, mas entender a realidade local é o grande diferencial nas decisões de planejamento mais adequadas”.

Compreender a realidade local também significa ouvir quem vive nela. A identidade de Guarujá, na avaliação da urbanista, não pode ser tratada como um detalhe diante do crescimento. Pelo contrário: praias, patrimônio histórico, áreas naturais e a própria relação dos moradores com o território podem ser elementos de um desenvolvimento mais inteligente.

Demanda não apenas no verão

Se a economia de Guarujá está diante de um novo desenho, o turismo também passa por uma transformação silenciosa. Lourival de Pieri, diretor-presidente do Casa Grande Hotel Resort & Spa, acompanha esse movimento de perto. Para ele, a cidade já começou a romper com o antigo modelo de destino essencialmente sazonal.

O visitante que chega, atualmente, não procura necessariamente apenas sol e praia. Há famílias que vêm da capital ou do interior para passar um fim de semana, executivos que prolongam a estadia depois de compromissos profissionais e visitantes interessados em gastronomia, natureza, experiências náuticas, patrimônio histórico e eventos. É o chamado turismo de proximidade, o bleisure, combinação de negócios e lazer, e uma procura crescente por experiências.



A própria hotelaria sente essa mudança.

Guarujá amadureceu a sua oferta e provou que possui vocação e estrutura para manter uma engrenagem econômica altamente ativa durante os 12 meses do ano”, avalia Lourival.

As grandes obras podem acelerar esse movimento. O túnel poderá reduzir o histórico gargalo da travessia entre Santos e Guarujá. O aeroporto deverá ampliar a conectividade e abrir novas possibilidades para visitantes de outras regiões do país.

O horizonte é 2034

Daqui a oito anos, Guarujá completará um século de emancipação. É um horizonte simbólico, mas também uma oportunidade concreta para pensar que cidade se pretende construir até lá. Daniela Teixeira Mariano, secretária de Planejamento Estratégico da prefeitura, vê o atual momento como uma convergência de projetos capaz de reposicionar o município dentro da Baixada Santista. A expectativa é que a cidade chegue ao centenário menos dependente da sazonalidade turística, com economia mais diversificada, infraestrutura requalificada, mobilidade mais eficiente e maior capacidade de gerar emprego e renda.



As decisões tomadas agora terão consequências que ultrapassam o calendário de uma administração ou de um mandato. É por isso que o próximo ciclo não pode ser construído por um único setor. Poder público, iniciativa privada, entidades, universidades, moradores e sociedade civil terão papéis diferentes, mas complementares nessa construção.

Wagner acredita justamente nessa união como um dos maiores diferenciais do município. Gabriella vê no planejamento e no envolvimento da população a oportunidade de evitar que o crescimento produza novas desigualdades. Lourival projeta uma cidade capaz de combinar turismo, hospitalidade, sustentabilidade e inovação.

E a administração municipal trabalha para organizar o território diante dessa nova realidade. São perspectivas diferentes diante de uma mesma janela de oportunidade. 



Seminário discute novos investimentos e planejamento urbano

O Seminário Guarujá 92 Anos vai reunir representantes do poder público, iniciativa privada e especialistas para discutir projetos que podem influenciar o desenvolvimento econômico e urbano do município. Entre os temas estão a expansão portuária, o túnel Santos-Guarujá, o aeroporto civil metropolitano, o mercado imobiliário e novas possibilidades para o turismo.

Os debates também vão abordar os impactos desses investimentos na mobilidade, infraestrutura, geração de empregos, planejamento urbano e prestação de serviços. O evento será realizado em 22 de setembro, a partir das 14h, no Casa Grande Hotel Resort & Spa, com realização do Grupo Costa Norte.

O Seminário Guarujá 92 Anos – A Retomada do Protagonismo é realizado pelo Grupo Costa Norte, com apoio da prefeitura de Guarujá e do Movimento Guarujá 2034. O evento conta ainda com patrocínio do Casa Grande Hotel Resort & Spa; Transmontano Saúde; Flexcell; Gauss Consulting; Marfort Serviços Marítimos; Santos Brasil; Guarujá Luz, Brasil Terminal Portuário e Ecovias.



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