Mundo passa por Guarujá e a cidade começa a se preparar para transformar vocação portuária em emprego, renda, novos negócios e infraestrutura

Há lugares onde a economia se mede pelo que ocorre dentro da cidade. Em Guarujá, cada vez mais, é preciso olhar também para o que chega pelo oceano, atravessa o estuário e se conecta às grandes cadeias de comércio do mundo.
Na margem esquerda do Porto de Santos, navios, contêineres, ferrovias, caminhões, terminais e empresas formam uma engrenagem que está prestes a ganhar uma nova escala. A transformação não se resume à expansão física do maior complexo portuário da América Latina.
Ela envolve uma mudança de dimensão para o próprio município, historicamente associado ao turismo, e que passa a assumir, de maneira cada vez mais evidente, o papel fundamental no polo logístico e portuário do país.
A margem esquerda é um dos principais pilares do futuro do Porto de Santos. É uma área estratégica, que já concentra parcela importante da movimentação de contêineres e que possui enorme potencial para absorver a expansão que ocorrerá nas próximas décadas”, afirma Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS).
Para ele, o momento representa uma inflexão na relação entre porto e município.
Entendemos que chegou o momento de Guarujá. A boa infraestrutura que gera riqueza em Santos virá para o Guarujá. É hora de a cidade colher os benefícios do porto na mesma dimensão de Santos.”
A escala dos investimentos ajuda a explicar a amplitude dessa expectativa. Segundo a APS, estão previstos R$12,5 bilhões em investimentos no Porto de Santos em uma janela de cinco anos, até 2028, destinados à ampliação da capacidade operacional, melhoria da infraestrutura e integração logística. O pacote inclui intervenções como o túnel Santos-Guarujá, obras nas perimetrais, dragagem e aprofundamento do canal de navegação.
A expansão da atividade portuária não ocorre apenas nos berços de atracação. Ela se espalha para as áreas que recebem, armazenam, organizam e agregam valor às cargas antes ou depois da passagem pelos terminais.
É nesse ponto que Vicente de Carvalho ganha relevância. O distrito reúne atividades portuárias e retroportuárias e concentra áreas consideradas estratégicas para a expansão da logística na Baixada Santista.
O projeto em questão é um empreendimento privado e, por isso, a APS se abstém de emitir juízo de valor em relação à iniciativa”, pondera Pomini ao tratar especificamente da expansão da retroárea de Vicente de Carvalho.
Mas aponta uma tendência observada em grandes portos internacionais:
Nestes casos, nota-se a tendência de migração para logística voltada à agregação de valor, em que os portos deixam de funcionar exclusivamente como elos de cadeias, passando a incorporar elementos intermediários entre a origem e o destino da carga.”
Na avaliação do arquiteto e urbanista Mauro Scazufca, doutor em Planejamento Urbano e Regional pela FAU-USP, esse movimento pode ter efeitos importantes sobre a economia local.
Vicente de Carvalho é um território portuário dentro da cidade de Guarujá que possui, atualmente, atividades portuárias e retroportuárias muito dinâmicas. O distrito também abriga as melhores áreas desocupadas para a ampliação do retroporto na Baixada Santista; nesse sentido, a expansão dessa atividade trará mais dinamismo, emprego e renda para a região.”
A perspectiva é que a cadeia se diversifique para além da armazenagem e transporte.
Para o Guarujá, podemos prever estruturas de apoio logístico de nova geração, com indústrias de montagem de diversos tipos de componentes e grandes centros de distribuição voltados para as cadeias de varejo da Região Sudeste”, afirma Scazufca.
A modernização também está dentro dos terminais. Na margem esquerda, o Tecon Santos, operado pela Santos Brasil, atravessa um dos maiores ciclos de expansão de sua história. O último ciclo de investimentos da companhia no terminal teve início em 2019, envolvendo um montante de R$3 bilhões (dos quais R$2,5 bilhões já implantados), para ampliar a capacidade para movimentar 3 milhões de TEUs por ano.
Em julho de 2026, o terminal alcançou 2,9 milhões de TEUs de capacidade anual, aproximando-se da meta prevista para o fim deste ano. O avanço não se limita a ampliar pátios. O terminal incorpora equipamentos de operação remota, inteligência artificial, Digital Twin, Internet das Coisas, Machine Learning, realidade aumentada, OCR e RFID.
Desde o fim de 2024, guindastes de pátio elétricos passaram a ser operados remotamente a partir de um centro de controle.
Isso não significa substituir o conhecimento e a experiência dos profissionais, mas ampliar suas capacidades”, explica Marcelo Patrício, diretor de Operações da Santos Brasil. “A tecnologia assume parte das atividades repetitivas ou de maior risco, enquanto as pessoas passam a ter um papel cada vez mais relevante no controle, na tomada de decisão, na análise das informações e na melhoria dos processos.”
Hoje, cerca de 2.700 profissionais atuam no Tecon Santos, segundo a empresa. Em 2025, a Santos Brasil realizou 48 mil horas de treinamento, com uma média de 12 horas de capacitação por colaborador, considerando também os treinamentos obrigatórios de Saúde, Segurança e Meio Ambiente.
O movimento ajuda a desenhar uma característica importante do novo ciclo portuário: quanto mais automatizada a operação, maior a necessidade de profissionais capazes de trabalhar com tecnologia, dados, engenharia, automação e gestão de processos.
Outro projeto ajuda a dimensionar o futuro do Porto de Santos: o Tecon Santos 10, antigo STS10. Aqui, há uma distinção importante. O novo terminal será instalado no Saboó, na margem direita, em Santos — e não no Guarujá. Mas seus efeitos sobre a logística regional alcançam diretamente a margem esquerda, sobretudo à medida que novas conexões terrestres e o túnel Santos-Guarujá aproximarem terminais, retroáreas e depots das duas margens.
O projeto prevê uma área de aproximadamente 622 mil metros quadrados, quatro berços de atracação e investimentos estimados em R$6,45 bilhões. A documentação da Antaq aponta contrato de 25 anos e capacidade mínima projetada de 3,5 milhões de TEUs por ano.
Em janeiro, o Ministério de Portos e Aeroportos encaminhou o projeto à Antaq, com previsão de R$6,4 bilhões em investimentos. O terminal deverá elevar significativamente a capacidade de movimentação de contêineres do complexo.
Para Pomini, "O Tecon 10, antes chamado STS10, é um projeto estratégico para o futuro do Porto de Santos e para a logística nacional”. Segundo ele, o empreendimento deverá ampliar em 50% a capacidade atual de movimentação de contêineres e criar condições para acompanhar o crescimento do comércio exterior brasileiro.
Embora esteja fisicamente em Santos, o terminal integra uma transformação que não respeita as divisões administrativas entre as duas margens.
Apesar de a área ficar no Saboó, o equipamento beneficiará também Guarujá, uma vez que, com o túnel, haverá mais agilidade entre os terminais marítimos, os retroportuários e os depots.”
O projeto ainda está em processo de estruturação. A Antaq mantém a documentação atualizada e indica o leilão como “em breve”; em junho, Pomini afirmou que a expectativa era realizar o certame ainda em 2026.
Para Guarujá, o desafio é fazer com que o crescimento portuário não seja sinônimo de aumento de congestionamentos e conflitos entre a circulação de cargas e a vida cotidiana.
A segunda fase da avenida Perimetral da Margem Esquerda é uma das respostas planejadas. A proposta é separar o fluxo de caminhões destinados aos terminais portuários do tráfego urbano.
A secretária de Assuntos Portuários e Aeroportuários de Guarujá, Fábia Margarido Alencar Daléssio, resume a dimensão desse planejamento a partir da própria limitação territorial do Porto:
O porto de Santos só tem condição de fazer expansão na margem esquerda, que é a margem do Guarujá.”
A reorganização da circulação é, portanto, parte da estratégia para permitir que a expansão aconteça sem reproduzir antigos problemas.
Não podemos pensar mais na rua do Adubo como sendo um canal de acesso de logística e mobilidade, isso traz impacto negativo para a população do entorno.”
A APS também prevê, em Conceiçãozinha, um pátio regulador com mais de 400 vagas para caminhões e área de serviços de apoio logístico, além de discutir com o município a possibilidade de criação de um parque na região de Vicente de Carvalho, próximo ao Forte Itapema.
No planejamento municipal, a expansão retroportuária também é tratada como uma questão de longo prazo. De acordo com Fábia, a ampliação da zona retroportuária está sendo pensada para um porto operando em sua capacidade máxima.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser exclusivamente portuária. O crescimento do número de navios, contêineres e terminais só se transforma em desenvolvimento urbano quando a riqueza gerada por essa atividade chega à cidade.
Isso significa arrecadação, empregos, fornecedores, serviços, qualificação profissional e investimentos públicos capazes de melhorar a vida de quem mora no município.
Na Santos Brasil, esse efeito já aparece na cadeia formada em torno do Tecon. Além dos cerca de 2.700 profissionais diretamente envolvidos na operação, há fornecedores e prestadores de serviços ligados a manutenção, alimentação, transporte, tecnologia, logística e serviços especializados.
A iniciativa privada tem um papel fundamental no desenvolvimento econômico de Guarujá, especialmente em uma cidade que abriga parte importante do maior complexo portuário da América Latina”, afirma Marcelo Patrício.
Na visão de Pomini, o impacto tende a se espalhar por diferentes setores.
Os investimentos previstos para o Porto de Santos movimentam diversos setores da economia, como construção civil, logística, transporte, tecnologia, comércio e serviços. Isso se traduz em mais empregos diretos e indiretos, aumento da renda e fortalecimento da economia local.”
Já Scazufca avalia que o efeito potencial é ainda mais amplo.
O crescimento da atividade portuária no Guarujá tende, em médio prazo, a possibilitar que a cidade evolua em sua urbanidade a partir do aumento da renda municipal.”
Mas dinheiro novo não produz, sozinho, uma cidade melhor. É preciso transformar arrecadação em política pública, infraestrutura e planejamento.
O planejamento urbano e a fiscalização são as políticas diretamente ligadas a esse ciclo. Elas permitirão que os resultados do crescimento econômico sejam revertidos para áreas fundamentais para a população, como educação, saúde, assistência social e segurança, além de melhorias na infraestrutura”, afirma o urbanista.
A expansão portuária também impõe decisões delicadas sobre território e moradia. Áreas ocupadas por famílias podem estar justamente nos espaços considerados estratégicos para o crescimento dos terminais.
Guarujá e APS mantêm um convênio para viabilizar, quando necessário, a transferência de famílias para conjuntos habitacionais dotados de infraestrutura. Segundo Fábia, um novo aditamento está sendo preparado para permitir a ampliação de uma área da margem esquerda, envolvendo o planejamento da transferência de dezenas de famílias.
A questão sintetiza um dos maiores desafios desse novo ciclo: fazer a expansão portuária caber na cidade sem expulsar a cidade do território. Isso porque, conta a secretária, envolve um tramite de cadastramento, diálogo com as famílias, definição de perfis, escolha de novas áreas e planejamento de prazos. “É um processo que envolve conscientização social”.
O Complexo Industrial Naval de Guarujá (Cing) acrescenta outra camada a esse cenário. Em vez de apenas receber cargas que passam pelo porto, a cidade pode ampliar sua participação em atividades ligadas à indústria naval, à náutica e aos serviços especializados.
A prefeitura vem discutindo o fortalecimento do turismo náutico no Cing, que já abriga empresas e estruturas relacionadas ao setor. Em 2025, representantes do poder público, empresários e sociedade civil se reuniram no complexo para discutir novos píeres, segurança marítima, fiscalização e infraestrutura náutica.
Fábia explica que o município trabalha para compatibilizar os diferentes usos.
“O Cing tem dois perfis, o náutico turístico dos estaleiros e também é uma área de desenvolvimento naval.”
A proposta, segundo ela, é construir essa convivência sem inviabilizar nenhuma das atividades. É uma lógica semelhante à que se aplica ao restante da margem esquerda: ampliar a vocação econômica sem perder de vista a cidade que existe ao redor dela.
Ao longo de sua história, Guarujá construiu sua identidade a partir do turismo. Mas, desde o fim do século XX, o porto passou a representar um segundo vetor econômico de grande escala.
O túnel Santos-Guarujá, a segunda fase da perimetral, a expansão dos terminais, a modernização tecnológica, o crescimento das retroáreas e a consolidação de novas atividades no Cing formam peças de uma mesma transformação.
A prefeitura, por sua vez, trabalha na revisão do planejamento territorial para acomodar essa nova realidade. Agora, esses dois mundos precisam aprender a coexistir dentro de uma cidade que pretende crescer.
O desafio é fazer com que a riqueza produzida pelo movimento internacional de cargas deixe de ser percebida apenas na linha d'água e passe a ser reconhecida também nas ruas, nos negócios, nas oportunidades profissionais e nos serviços públicos.
OSeminário Guarujá 92 Anos vai reunir representantes do poder público, iniciativa privada e especialistas para discutir projetos que podem influenciar o desenvolvimento econômico e urbano do município. Entre os temas estão a expansão portuária, o túnel Santos-Guarujá, o aeroporto civil metropolitano, o mercado imobiliário e novas possibilidades para o turismo.
Os debates também vão abordar os impactos desses investimentos na mobilidade, infraestrutura, geração de empregos, planejamento urbano e prestação de serviços. O evento ocorre em 22 de setembro, a partir das 14h, no Casa Grande Hotel Resort & Spa.
O Seminário Guarujá 92 Anos é promovido pelo Grupo Costa Norte, com apoio da prefeitura de Guarujá e do Movimento Guarujá 2034. O evento conta ainda com patrocínio do Casa Grande Hotel Resort & Spa; Transmontano Saúde; Flexcell; Gauss Consulting; Marfort Serviços Marítimos; Santos Brasil; Guarujá Luz, Brasil Terminal Portuário e Ecovias.