Dor, saudade e uma longa espera

Costa Norte
Publicado em 10/11/2016, às 14h18 - Atualizado em 23/08/2020, às 15h37

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Foto: Divulgação

São Sebastião

Marina Veltman

“Mãe, mãe, mãe, mãe”. O chamado, repetido diversas vezes, até Madalena Mendonça finalmente responder: “O que é, meu filho?”, e ele devolver, faceiro, um “nada, não”, é hoje uma recorrente brincadeira familiar que virou uma doída saudade.

O relógio pendurado na casa de Regina Alves, tantas vezes consultado nas noites de espera pela chegada da filha da universidade, é um amargo lembrete a cada olhada de que, nessa, e em todas as próximas noites, não haverá um retorno.

Cinco meses se passaram do acidente ocorrido com o ônibus de transporte universitário que levava 35 estudantes de São Sebastião para faculdades em Mogi-Bertioga. “Cinco meses de um enorme vazio nas nossas vidas”, conta Jario Oliveira, pai de uma das dezoito vítimas fatais do capotamento – dezessete estudantes, mais o motorista. “A dor não vai ter fim. Nada compensa a perda do meu filho único, Guilherme. A única coisa que me alivia é saber que estou indo atrás da Justiça, é o que diminui essa eterna angústia. Quero que eles paguem, sejam punidos, que sintam de verdade o mal que causaram com a negligência que fizeram”, diz o pai, que, com outros cerca de dez parentes de vítimas do acidente, entrou com ação conjunta contra a União do Litoral, empresa responsável pelo traslado dos estudantes.

Com o passar do tempo, conforme conta Madalena, em vez de aliviar, a dor aumenta. “A sensação de ausência fica maior, a percepção de que não o terei mais... Não lutamos pelo dinheiro, como infelizmente algumas pessoas acusam, sem entender nossa dor, e, sim, para conseguir justiça, alguma forma de paz”, desabafa a mãe. Filho único, Guilherme, 19, era o centro da vida de Madalena. “Passava o dia todo comigo. Era meu parceiro, meu amigo. Eu vivia para ele. Minha vontade eram as vontades dele, meus sonhos os sonhos dele. Hoje não tenho mais sonho nenhum”.

Mãe de Camila Alves, 24, Regina conta que a solidão na casa é avassaladora, um constante aperto na ferida que não fecha. “Desde os sete anos dela, quando me separei, éramos sempre nós duas. Agora sou só eu, nessa casa em que tudo me lembra ela”, conta.

Para buscar algum conforto, os pais criaram uma espécie de grupo de apoio, juntando-se, escutando as dores, desabafando sobre as perdas e conseguindo ajuda mútua. “Ouvir os outros falarem de seus filhos e falar dos nossos ajuda a nos fortalecer. A gente chora, relembra, e junto nos consolamos”, conta Jario. “Eles entendem a minha dor, que é muito difícil de descrever para quem não passa por isso. Esse contato não cura, porque nunca vai passar, sabemos, mas ajuda”, relata Regina, que também encontra conforto no grupo.

Famílias querem ação criminal

O advogado José Beraldo representa o grupo de cerca de dez pais de vítimas do acidente, e conta que, além das ações por danos morais e materiais, nas quais busca indenizações de até R$1,5 milhão, considerando a juventude das vítimas, agora a busca é também por indiciamento criminal dos proprietários da empresa de transporte União do Litoral.

Ele conta: “O secretário-adjunto de segurança pública do estado me garantiu que a ação criminal será impetrada. É dolo eventual, e eu aguardo a intimação dos donos da empresa, que eu pretendo ver no banco dos réus, em júri popular. Foi negligência, tem que pagar não apenas como crime de trânsito, mas como dolo”.

Atualmente, a ação de indenização aguarda definição de jurisdição  do Tribunal de Justiça do Estado, encarregado de estabelecer se o julgamento deve ocorrer em São Sebastião ou Bertioga, o que deve acontecer em breve, de acordo com o advogado, permitindo o avanço do julgamento. Já a ação criminal, se aprovada, ocorrerá em Bertioga. “O delegado local que deve impetrar a ação, e eu confio muito na atuação dele, sei que o processo caminhará”, acredita Beraldo.

Para a mãe de Guilherme, Madalena Mendonça, o fim do processo é um anseio de todos; uma busca por fechamento de um ciclo de dor. “Queria que a justiça fosse rápida e terminasse logo com isso, que essa punição acontecesse e desse uma conclusão nessa história. São dezoito famílias que não vivem mais: a gente só vegeta, girando em torno dessa luta”.

Alguns familiares e vítimas sobreviventes, porém, escolheram outro caminho, abrindo mão do processo jurídico. É o caso da família de Gabriela Alves, que teve afundamento de crânio e teve de passar por uma cirurgia cerebral após o acidente, conforme relata sua mãe Joana Alves.  “A vida hoje se resume a antes e depois de 8 de junho. Mudou tudo, radicalmente. Eu tinha minha filha todos os dias aqui, comigo, e agora ela teve que se mudar para Mogi, porque, com o trauma, não consegue mais fazer o trajeto de ônibus para frequentar a faculdade. As dificuldades financeiras que estamos vivendo por isso, as sequelas físicas e psicológicas, tudo nos assombra, e ficar revirando e revisitando esse trauma só tem mantido essa ferida mais aberta, exposta. Escolhemos buscar um acordo com a defensoria para virar essa página. Não vamos esquecer, porque sabemos que é impossível, mas é uma forma de tentar não ficar lembrando ainda mais. Aquela noite nos aterrorizará para sempre, e isso porque tenho minha filha viva. A dor dos que perderam seus familiares, eu nem consigo imaginar como eles conseguem aguentar”.

Manifestação pacífica

No dia 8, aniversário de cinco meses do acidente, um grupo de familiares das vítimas, acompanhado pelo advogado José Beraldo, reuniu-se em frente à Igreja Matriz de São Sebastião em manifestação silenciosa.

O ato, que durou pouco mais de uma hora, visou garantir que o assunto não caia no esquecimento, como disse Jario Oliveira: “Estamos sendo negligenciados. O descaso é muito grande e a manifestação serve para trazer luz para isso. É um ato triste e pacífico, mas que lembra a todos da nossa dor, e de que a justiça por nossos filhos ainda não foi feita”.

União Litoral

Questionada, a União do Litoral, por meio de nota assinada pelo advogado da empresa, informou que: “O atendimento às vítimas está sendo dado e todos que estão nos procurando, com algum tipo de dano, nós atendemos”.  A nota também diz que “os passageiros que comprovadamente necessitarem de algum custeio ligado ao acidente e que recorrerem à seguradora MKT Sr Aurelio (011) 49900025  ou  996514090,  estão sendo devidamente atendidos e ressarcidos, a exemplo dos inúmeros atendimentos já realizados”.

Outra informação da empresa esclarece que “continua investindo regularmente em treinamentos para sua equipe (como de costume) como curso de direção preventiva, reuniões periódicas de DDS, além de palestras ministradas pela Polícia Rodoviária estadual. E tem intensificado junto aos motoristas o redobramento das atenções quanto à segurança de transito, exigência aos passageiros quanto à utilização dos cintos de segurança”.

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