Emae inicia operação de controle de cheias na Serra do Mar no mês em que o complexo hidrelétrico completa um século de funcionamento

A forte vazão de água na Usina Henry Borden, em Cubatão, na Baixada Santista, voltou a chamar a atenção para um dos maiores símbolos da engenharia e da industrialização de São Paulo.
Nesta semana, por causa das chuvas dos últimos dias, a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) iniciou uma operação de controle de cheias, com abertura gradual e monitorada de dutos de água. A medida ocorre no mês em que o complexo completa 100 anos de funcionamento.
A Emae anunciou a operação desta semana em resposta às chuvas recentes. A medida integra os procedimentos preventivos de controle de cheias do sistema hídrico associado à usina. A Defesa Civil de Cubatão também acompanha a situação. Segundo o órgão municipal, a abertura dos dutos pode elevar o nível e aumentar o fluxo de água do rio Cubatão.
A história da Henry Borden começou no início da década de 1920, quando o engenheiro norte-americano Asa White Kenney Billings idealizou o Projeto da Serra. A proposta consistia em aproveitar a diferença de altitude entre o planalto paulista e a Baixada Santista para produzir energia elétrica em grande escala.
Executado pela The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited, o empreendimento exigiu a construção de estruturas de captação, canalização, represamento e bombeamento de água. A primeira unidade da então Usina de Cubatão entrou em operação em 10 de outubro de 1926.
Nas décadas seguintes, o complexo passou por ampliações. Até 1950, a casa de força externa recebeu mais sete unidades e alcançou capacidade de 469 MW. A expansão continuou com a construção da casa de força subterrânea, escavada na rocha da Serra do Mar e inaugurada em 1956.
A estrutura mede cerca de 120 metros de comprimento, 21 metros de largura e 39 metros de altura. No interior da caverna, seis grupos geradores somam capacidade de 420 MW. Em 1964, a estrutura foi rebatizada como Usina Henry Borden, em homenagem ao executivo canadense que comandou a Light por quase duas décadas.
A Henry Borden teve papel importante no fornecimento de energia para o crescimento industrial da Baixada Santista e da capital paulista ao longo do século XX. A oferta de energia elétrica contribuiu para expandir as atividades industriais em uma região consolidada como um dos principais polos econômicos do estado.
A construção do complexo também modificou a ocupação de Cubatão. A necessidade de abrigar trabalhadores e as famílias levou à formação da Vila da Usina Henry Borden. A comunidade contava com moradias, alojamentos, comércio, escola e associações comunitárias.
O Projeto da Serra também impulsionou grandes intervenções no sistema hídrico de São Paulo, como a retificação e a reversão do curso do rio Pinheiros, a formação do Reservatório Billings e a construção das usinas elevatórias Pedreira e Traição (atual Usina São Paulo). Tais estruturas ampliaram a disponibilidade de água para geração elétrica e passaram a atuar no controle de cheias e na gestão hídrica da Grande São Paulo.
Um século após a inauguração, a modernização dos equipamentos é um dos principais desafios. Segundo a Emae, a companhia destinou R$ 338 milhões ao complexo desde 2019, em especial para atualizar as unidades geradoras da casa de força subterrânea.
O diretor-presidente da empresa, Rafael Strauch, afirmou que a próxima etapa focará na modernização das unidades externas. “Desde 2019, destinamos R$338 milhões à Henry Borden, principalmente à atualização das unidades geradoras da usina subterrânea. O nosso próximo desafio é avançar na modernização das unidades da usina externa”, disse.
Em junho de 2026, a usina alcançou 92% de disponibilidade média móvel em 60 meses, indicador que considera o desempenho operacional acumulado ao longo de cinco anos.
Além da capacidade de geração, a Henry Borden possui características técnicas essenciais para o sistema elétrico brasileiro. Uma delas é o black start, que permite à usina reiniciar a operação sem depender de uma fonte externa de energia — fator crucial em situações de interrupção de grande porte no fornecimento de eletricidade.
Segundo a Emae, o complexo consegue elevar a geração até 889 MW em cerca de 15 minutos, o que garante resposta rápida às variações de demanda do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Ao longo de um século, a Henry Borden acompanhou as transformações do setor elétrico e mantém papel relevante para São Paulo e para o país. Ela combina história, relevância estratégica e capacidade de resposta às necessidades do Sistema Interligado Nacional”, destacou Strauch.
Para celebrar os 100 anos, a Emae implantou o Espaço Cultural Henry Borden, dedicado a preservar a memória do complexo e dos profissionais envolvidos na construção e na operação. O projeto foi concebido pela Fundação Energia e Saneamento (FES), com recursos captados por meio da Lei Rouanet.
Com 227m², o local reúne conteúdos sobre patrimônio industrial, engenharia, meio ambiente e inovação tecnológica. A exposição permanente inclui o projeto Usina de Memórias e Futuros, com depoimentos de trabalhadores e aposentados. Entre as atrações, há uma experiência de realidade virtual que reproduz o percurso tradicional do trolley de manutenção da usina. O ambiente também oferece placas e mapas táteis, além de audiodescrição acessível por QR Code.
A diretora executiva da Fundação Energia e Saneamento, Claudinéli Moreira Ramos, afirmou que a iniciativa permite aproximar o público da história. "O Espaço Cultural Henry Borden transforma a memória centenária da usina em uma experiência de conhecimento, educação e valorização do patrimônio industrial. Conceber esse novo espaço foi uma oportunidade de conectar a história da energia às novas tecnologias", pontuou.
A atual operação de controle de cheias evidencia uma das funções do complexo hidrelétrico. Ao mesmo tempo, o centenário marca uma nova fase de investimentos para preservar a capacidade operacional e adaptar as instalações às demandas do setor elétrico. A perspectiva envolve maior flexibilidade de geração e integração com fontes renováveis.
Cem anos após a inauguração, a mesma Serra do Mar que representou um desafio para os engenheiros na década de 1920 continua ligada à operação de uma estrutura estratégica para Cubatão, para a Baixada Santista e para São Paulo. A história completa do complexo está disponível no site oficial do centenário da Usina Henry Borden.