Cultura e esporte revelam uma cidade construída por pessoas, e que projeta seu futuro a partir delas

Cubatão pode ser descrita de diversas formas, a depender da perspectiva. Para quem ainda se atém a narrativas do passado, talvez fique a lembrança do rótulo de “Vale da Morte”. Mas, para quem vive, constrói e movimenta a cidade, diariamente, ela revela outra realidade: a de um cadinho onde se formam talentos, criam-se oportunidades e transformam trajetórias.
Mais do que polo industrial, Cubatão é, hoje, um lugar no qual pessoas assumem o protagonismo do próprio desenvolvimento e ajudam a redefinir a identidade da cidade, a exemplo da cultura e do esporte.
“Um celeiro de talentos e pessoas gabaritadas.” É assim que Reginaldo Alves Nascimento, diretor da Escola Técnica de Música e Dança Ivanildo Rebouças da Silva, resume o município. Por quase duas décadas à frente da instituição, ele vê, na cultura, um dos principais pilares de formação social.
Para ele, a escola é parte essencial de um sistema que projeta Cubatão para além de seus limites geográficos. Ela é reconhecida por “forjar” músicos e bailarinos, hoje espalhados pelo Brasil e pelo mundo. “Foi dentro desta histórica escola que foram criados o Coral Zanzalá e o Grupo Rinascita de Música Antiga, hoje reconhecidos como patrimônio imaterial da cidade, junto com a Banda Sinfônica de Cubatão”, destaca.
A formação artística, segundo o diretor, vai além da técnica. Ela constrói identidade, pertencimento e perspectiva de futuro para crianças e adolescentes. “Acredito que o maior impacto da ETMDIRS, para o futuro de Cubatão, é continuar ofertando e despertando, na comunidade cubatense, essa identidade cultural forte, além de proporcionar às nossas crianças e adolescentes a rica oportunidade de ter acesso a uma formação nas áreas da música e da dança, no mais alto nível”.
O diretor lembra que a instituição prepara talentos para comporem os diversos grupos artísticos da cidade, garantia de que os jovens encontrem oportunidades reais para seguir na carreira musical.
É exatamente esse ecossistema colaborativo que sustenta um dos patrimônios mais antigos de Cubatão: as tradicionais corporações de marcha.
A conexão entre a cidade e a música persiste há décadas. Nos anos 1970, enquanto Cubatão carregava o peso da crise ambiental, bandas locais percorriam o país e conquistavam títulos, ajudando a construir uma nova imagem para o município.
Maestro Luiz Carlos Ferreira de Araújo, regente da Banda Musical Padre José de Anchieta, recorda: “Cubatão era conhecido como Vale da Morte e, por meio da banda, conseguiu mudar isso". A evolução do grupo acompanha o desenvolvimento dos próprios alunos. O que nasceu como uma fanfarra simples evoluiu para uma banda musical, há cerca de quatro anos, após orientação técnica de músicos veteranos.

Hoje, a equipe conta com 46 componentes no corpo musical, e 34 no coreográfico. Integrantes são selecionados nas escolas públicas da cidade, com forte base no projeto municipal Um Toque de Cidadania, que já formou mais de 800 jovens instrumentistas.
O trabalho rigoroso devolveu o município ao circuito de elite, e o horizonte do grupo voltou a ultrapassar as fronteiras da Baixada Santista. Apenas em 2025, o grupo venceu cinco campeonatos, conquistou a etapa estadual em Santa Rita do Passa Quatro, em São Paulo, e garantiu vaga no campeonato nacional em Macaé, no Rio de Janeiro. Feito marcou o retorno de Cubatão às disputas federais, após mais de três décadas.
Atualmente, a banda se prepara para representar o Brasil em torneio na Alemanha, além de buscar o tricampeonato estadual e disputar o título nacional em Brasília.
Apoiada por empresas do polo industrial, por meio de leis de incentivo, a corporação defende a valorização constante dos talentos da casa. O maestro enfatiza a necessidade de olhar para as bases sociais do município, antes de focar apenas em grandes eventos de fora. “Precisamos valorizar os talentos da cidade, especialmente aqueles com menos oportunidades”. Ele diz, com orgulho: "Nós fizemos um remake, a farda é a mesma. O Brasil todo sabe que Cubatão tem esse cenário musical forte".

Se a música ajudou a ressignificar a cidade, o teatro amplia esse movimento. Em Cubatão, a arte não é apenas expressão, é formação, inclusão e projeção.
Ator, produtor e diretor, Lourimar Vieira conhece bem esse percurso. Após iniciar a trajetória em grupos amadores, fundou, em 1997, em parceria com dois alunos, o Teatro do Kaos, hoje uma das principais referências culturais do município.
A escola de formação de atores já qualificou 150 profissionais e promoveu cursos em contraturnos escolares, para 2.905 alunos da rede pública de ensino.
O legado reverbera em prêmios e projeção nacional. Coletivos formados por ex-alunos, como o Coletivo 302, ganharam o prêmio Shell de Teatro, enquanto o Coletivo Marginália recebeu indicação ao mesmo prêmio com a peça Favela de Barro. O alcance chega também à televisão, com o ex-aluno Lucas Wickhaus escalado para novelas da TV Globo. "Hoje, nós somos um grande polo de formação e produção de teatro, e a gente exporta teatro para fora", destaca o diretor.
Por meio do projeto A Escola Vai ao Teatro, patrocinado por empresas do polo industrial, via leis de incentivo, a companhia leva quatro mil alunos e professores da rede pública para assistir aos espetáculos, com transporte e ingressos gratuitos anualmente.
O produtor reafirma o compromisso com o território: "Eu amo essa cidade. É aqui que a gente construiu o nosso mundo, nossa fábrica de sonhos". O legado de quase três décadas do teatro pode ser conferido de perto na praça Joaquim Montenegro, 34, no Largo do Sapo.
Essa lógica de formação e transformação também se manifesta no esporte, não apenas como competição, mas como ferramenta de desenvolvimento humano.
A trajetória da carateca Brenda Padilha traduz esse processo. Iniciada na modalidade por meio de um projeto social, ela construiu uma carreira vitoriosa, com títulos nacionais e internacionais. Mas, para além das medalhas, destaca o impacto pessoal. “Foi através do esporte que tive minha formação de caráter”, afirma.
Atleta do Sesi Cubatão, Brenda leva sua experiência para dentro das salas de aula, ao participar de iniciativas como o programa Pedagogia do Exemplo, que utiliza o esporte como instrumento de inspiração.

Para ela, o caminho é claro: desenvolvimento sustentável passa pela integração entre educação, cultura e esporte. "Quando a cidade perceber que uma coisa carrega a outra, então, aí sim, estará em crescimento constante, com vários talentos e cidadãos de caráter formado", projeta.
Cubatão, enfim, revela uma dinâmica que vai além dos indicadores econômicos. É nesse movimento silencioso, mas contínuo, que se consolida uma nova identidade: a de um território que não apenas produz, mas desenvolve talentos, gera pertencimento e constrói futuro.