Odor pode ser produto de reação química, mas não é motivo para alarde, explica professor de toxicologia da Unifesp. “É mais prejudicial a falta do cloro ou o cloro em níveis abaixo do mínimo”

De ontem pra hoje (13), moradores de Bertioga, no litoral de SP, têm reclamado que a água tratada começou a sair da torneira com forte odor de cloro. Há vários relatos por parte de moradores da região central e da Chácara Vista Linda. Questionada nesta quinta (13), a Sabesp informou que a água está própria para o consumo humano e prometeu uma inspeção nas Estações de Tratamento de Água da cidade.
“Não é motivo de grande preocupação eventual excesso de cloro por curtos períodos. É mais prejudicial a falta do cloro ou o cloro em níveis abaixo do mínimo exigido por lei por conta do risco de bactérias e [outros] agentes patogênicos”, esclareceu o professor de toxicologia Fábio Kummrow do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
“Tá muito forte mesmo o cheiro. O gosto também, um gosto forte”, disse à reportagem a empregada doméstica Jussiane Moreira, moradora da Chácara Vista Linda. “Eu comecei a sentir desde ontem. Abri a torneira ontem à noite e estava assim”.
Uma medição não oficial do teor de cloro divulgada hoje nas redes sociais pela página regional Aconteceu em Bertioga aponta teor de 5mg/L de cloro – teor máximo do produto recomendado pela Portaria GM/MS Nº 888. A Sabesp não confirmou a medição.
Ultrapassagens pontuais desta quantidade de cloro representam poucos riscos, explica o professor Fábio Kummrow. “Atualmente o limite máximo de cloro residual livre é de 5 mg/L, certo? Mas é importante reconhecer que ultrapassagens desse limite por curtos períodos não representam riscos importantes para a saúde das pessoas que consomem essa água. Mas é claro que no menor tempo possível a água deve voltar a atender o padrão de potabilidade”.
A aplicação do cloro na água tratada é essencial para a saúde coletiva, pontua ele. “O cloro é adicionado à água como agente desinfetante e a cloração da água é considerada um dos maiores avanços do ponto de vista de saúde pública, mesmo se sabendo hoje que a cloração pode gerar alguns compostos carcinogênicos. Além de atuar eliminando agentes patogênicos, como bactérias, o cloro também contribui para a eliminação de odores e sabores desagradáveis presentes na água antes do tratamento”.

Uma reação química pode gerar o odor de cloro relatado pelos moradores, explica o toxicologista. “Um dos fatores que pode deixar a água com forte odor de 'cloro' é a transformação da monocloramina em dicloramina que tem um odor mais forte do que a monocloramina. O odor da dicloramina é considerado uma versão 'cheiro de piscina', e é considerado desagradável para os consumidores”, afirma.
A Sabesp não explicou se há alguma anormalidade no teor de cloro da água tratada fornecida em Bertioga, mas disse que “realiza sistematicamente o monitoramento da qualidade da água tratada e distribuída na cidade conforme determina a Portaria de Potabilidade vigente, e eventuais correções são tomadas imediatamente, normalizando qualquer alteração”.
Mesmo que a empresa identifique eventual excesso de cloro na água tratada, é pouco provável que isso leve à falta de abastecimento, avalia o professor. “Nesse caso seria necessário ajustar a adição de cloro durante o tratamento, mas não é necessário suspender o fornecimento de água para a população”, conclui.