Acidente durante obra do contorno: “Ainda não acredito que sobrevivi”


Costa Norte
Publicado em 31/07/2015, às 07h54 - Atualizado em 24/08/2020, às 01h49

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Ruana Barbosa Ribeiro Vieira, 32 anos, moradora do Morro do Abrigo, nasceu novamente. Depois de uma pedra de mais de uma tonelada ter invadido sua casa, deixando tudo em escombros, ela agradece a sorte de viver para contar a história. “Ainda não acredito que sobrevivi. Foi a mão de Deus que me salvou. Sou muito grata”, diz, emocionada.

Na tarde de terça-feira, 28, Ruana estava em casa acompanhada de sua mãe Maria Barbosa da Cruz, seu filho Arthur, de 3 anos, e seu cunhado Roni Dias Vieira. Sentada na copa, a jovem observava o restante da família, que estava no sofá da sala. Ela conta: “De repente, senti o impulso de me levantar, me juntar a eles. No momento que dei alguns passos, ouvi um barulho estrondoso e tudo ficou preto. O local em que eu estava sentada segundos antes foi completamente destruído. Eu fui soterrada, mas se estivesse na copa não estaria mais viva”.

O barulho foi originado pela enorme pedra, que invadiu a residência, derrubando paredes, vigas e pedaços do teto.  “Caíram muitos escombros em cima de nós, principalmente de mim, que estava mais perto da copa. Minha mãe protegeu meu filho,  colocando-se instintivamente em cima dele, o que fez com que ele não sofresse a pancada”.



A jovem teve diversos arranhões e um ferimento maior no joelho. Já sua mãe, dona Maria, sofreu uma leve pancada na cabeça e algumas escoriações, enquanto o pequeno Arthur e Roni apenas machucados sem maior seriedade.

Passado o pior, a família segue em choque, amedrontada pela experiência. “Meu filho acordou a noite toda gritando. Eu não consigo fechar os olhos que a cena volta na minha mente. Estamos todos sem dormir”. A mãe Maria Barbosa disse: “Qualquer carro que passa na rua, eu tenho um sobressalto, achando que é a pedra de novo. É uma imagem terrível e que não sai da cabeça”.

O jovem Arthur, apesar de ileso, também mostra o efeito do acidente em sua vida. Quando perguntado se está bem, sua singela resposta resume o evento: “Minha casa quebrou!”.



Moradores já previam

A pedra que atingiu a casa rolou do alto do morro, a cerca de 500 metros da residência de Ruana, onde máquinas da empresa Queiroz Galvão, responsável pelas obras do contorno, realizavam trabalhos de escavação. “Eles estavam há dias escavando, retirando a terra do morro. Garantiram diversas vezes que não tinha nenhum risco, mas nós ficávamos receosos o tempo todo, em decorrência dos barulhos causados pela escavação. A gente dizia que estava com cara de que ia desmoronar, mas eles sempre nos tranquilizavam, dizendo que não tinha riscos. Precisou acontecer isso para pararem a obra e avaliar a situação do local”. Ruana relata que, mesmo após o desmoronamento, as escavações prosseguiram: “A máquina continuou trabalhado, eles não perceberam. Teve que meu cunhado sair gritando e eles verem que estávamos ensanguentados para interromperem a escavação”.

Visitas controladas



Após o ocorrido, a empresa Queiroz Galvão removeu a família para um hotel da cidade, enquanto providencia a locação de uma nova residência, no mesmo bairro, e a reforma completa da casa, assim como nova mobília. A construtora também tem provido atendimento médico. “Os médicos vieram aqui nos ver, além de psicólogos, que ficaram inclusive de voltar, para fazer acompanhamento. O atendimento hospitalar e médico tem sido impecável”, elogia.

Já o tratamento recebido no hotel tem decepcionado: “Estamos fragilizados, os familiares querem vir visitar, garantir que estamos todos bem, mas eles (gerência do hotel) impuseram uma regra de que só pode entrar um visitante por vez. É pior do que no hospital, onde liberam duas visitas. Sinto-me presa. Pelo menos garantiram que sairemos daqui a poucos dias. Não vejo a hora de ter minha liberdade de volta. Agora, o sentimento maior é de alívio, porque nossa vida foi salva, apenas a casa foi destruída.  Mas existe a tristeza da perda, claro. Fui expulsa de minha própria casa, do meu ambiente de convívio, afastada da minha vizinhança, amigos e família. Receio como será essa nova vida, mas mais do que tudo agradeço por Deus ter me dado a chance de continuar viva”.

Empresas lamentam ocorrido



A Dersa - Desenvolvimento Rodoviário S/A -  informou, por meio de nota, que acompanha o trabalho de assistência prestado pela sua fornecedora Queiroz Galvão, à família atingida pelo acidente no Morro do Abrigo, assim como a análise sobre os motivos que levaram ao deslocamento da rocha. A empresa destaca que “exige que seus contratados atuem com zelo, prudência e atenção, a fim de reduzir os riscos à segurança dos envolvidos nos seus empreendimentos”.

Já a Queiroz Galvão, responsável pelas obras dos lotes 3 e 4 da Nova Tamoios,  contornos norte e sul de São Sebastião, também em nota oficial, lamenta o acidente, destacando que “as três pessoas que sofreram ferimentos leves receberam os primeiros atendimentos no posto de saúde do local, foram encaminhadas ao pronto-socorro de São Sebastião e liberadas após observação. A companhia está oferecendo à família todo apoio médico, psicológico e social necessário. Esse suporte será mantido pelo tempo que se fizer necessário”. A construtora ressalta, ainda, que “vai reparar os danos materiais realizando a reforma total da residência da família. Durante a reforma, a empresa vai arcar com o aluguel de um imóvel na cidade. Cabe observar ainda que as atividades no local foram interrompidas, e já foram iniciados os trabalhos de verificação das causas da ocorrência, com objetivo de adotar todas as providências para minimizar os riscos de reincidência de acidentes”.

Outras 12 famílias são removidas de suas casas após acidente



Prefeitura embarga obra do contorno sul após acidente. Essa é a terceira interrupção da obra em menos de um mês

 A Defesa Civil de São Sebastião interditou, na manhã da quarta-feira, 29, mais 12 casas no bairro do Morro do Abrigo, região central da cidade, após visita ao local onde ocorreu a queda de uma pedra de quase uma tonelada, que atingiu residência durante uma atividade da obra do contorno sul da rodovia Nova Tamoios. Com as novas interdições, somam-se 13 moradias afetadas,  o que representa cerca de 65 pessoas, que deverão ser removidas nos próximos dias.

Conforme determinação do prefeito Ernane Primazzi , a obra foi interrompida e só será liberada após a Dersa e a empresa Queiroz Galvão removerem  todas as 13 famílias que estão em área de risco iminente. Além da remoção, o prefeito ainda solicita a apresentação de um laudo sobre a causa do acidente, bem como um plano de segurança com ações efetivas na obra.



Ainda de acordo com o prefeito, a Dersa e a Queiroz Galvão já foram notificadas oficialmente em relação ao embargo da obra, e aguarda-se agora a apresentação dos documentos e laudos exigidos. De acordo com funcionários da empresa que estavam no local, a Queiroz Galvão já está providenciando o aluguel de casas nas quais as famílias afetadas permanecerão abrigadas até o final do empreendimento.

Obra interrompida

Ao longo do mês de julho, a prefeitura teve que interceder e interromper por três vezes as obras do contorno. A primeira, no dia 1º de julho, foi em decorrência de estragos estruturais causados pelos caminhões da Queiroz Galvão no bairro São Francisco, quebrando tubulações e causando uma série de transtornos aos moradores da região. A empresa se comprometeu a efetuar reparos e realizar uma série de ações de medidas preventivas, a ser concluídas até o término do mês, período em que as obras no trecho seguiriam interrompidas.



Na semana seguinte, moradores disseram que a construtora estaria priorizando mão de obra de fora nas obras, o que levou a Câmara a redigir lei exigindo um mínimo de 70% de contratação de trabalhadores residentes no município. A medida foi prontamente atendida pela empresa, que abriu cerca de 500 vagas para contratação por meio  do PAT – Posto de Atendimento ao Trabalhador do município.

Menos de quinze dias depois, nova paralização, essa em decorrência do acidente com a pedra. Em comunicado, a prefeitura garantiu que só liberará a continuação das obras após receber laudo de segurança e planejamento detalhado por parte da empresa.

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