Ancestralidade, mitologia e homenagens: letras reverenciam moradores ilustres, mitologias, saberes e culturas de povos que ajudaram a construir o Brasil
Redação
Publicado em 06/02/2026, às 17h09
Desfile das escolas de samba de Ilhabela será neste sábado (7) e as agremiações já estão esquentando seus tamborins e atabaques. No coração de cada integrante, o samba-enredo pulsa pronto para ser cantado na rua Dr. Carvalho, na Passarela do Samba.
As letras de 2026 reverenciam moradores ilustres, mitologias, saberes e culturas de povos que ajudaram a construir o Brasil e até um dos sonhos mais antigos da humanidade: voar. Confira a sinopse do samba-enredo de cada escola, e a história representada pelos seus versos e refrãos.
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A Unidos do Garrafão faz uma viagem pela mitologia iorubá (grupo étnico da África Ocidental) para exaltar o orixá Oxóssi, senhor da caça, das matas, da fartura e do conhecimento. Por meio do itã, ou ítan, os contos sagrados que descrevem mitos e lendas dos orixás, vividos na cidade sagrada do povo yorubá, o enredo narra a façanha do jovem caçador que, com uma única flecha, restaura a ordem e se torna herói de seu povo.
Guiado pelos ensinamentos de Obatalá, Exu, Ossain, Ogum, Oxum, Iemanjá e Orunmilá, Oxóssi atravessa provações, cai no esquecimento e renasce eterno. Na avenida, o terreiro se abre, o axé floresce e o garrafão celebra a ancestralidade, a memória e a força do caçador que nunca erra.
Compositores: Roberto Xaxa, Marcelo Dubau, Quebinho, Nico, Bebê, Tutula
A Acadêmicos Leões do Ita apresenta o enredo Sob a Luz do Destino – Leões do Ita Canta DonDito, uma homenagem em vida a um dos maiores baluartes da cultura popular e do samba do litoral norte de São Paulo.
Filho biológico de Helena, DonDito é acolhido e criado por dona Laureci, mulher branca, mãe de santo, e que lhe oferece não apenas um lar, mas raízes profundas no axé, no respeito e na espiritualidade.
Criado no bairro do Ita, entre ruas de chão batido e brincadeiras simples, DonDito constrói sua infância em meio ao som dos terreiros, às bênçãos da umbanda e do candomblé, onde se torna ogã, mensageiro dos orixás, aprendendo desde cedo que o tambor também educa, protege e guia destinos.
Cantor, compositor e referência, DonDito passa a integrar e contribuir com as mais tradicionais agremiações de Ilhabela e São Sebastião, consolidando-se como o Pai do Samba do litoral norte.
Compositor: Maestro Jota
“Ah, quem me dera voar!”. Quem neste mundo nunca teve este sonho? Imaginar-se como belos seres livres, alcançar os astros, integrar-se com o universo. Andar, correr, nadar, não basta. O homem quer ser completo e livre e, para isso, ele sonha.
A Escola de Samba Unidos de Padre Anchieta traz para a passarela seus passageiros-passistas vestindo a tradição do sonho de voar.
O Ímpeto de Voar trata do sonho, tão remoto quanto o próprio homem, de voar livre pelos céus. Mitos, lendas que surgem da observação dos pássaros se transformam em inventos, conquistas tecnológicas, em direção ao sonho. Hoje, esse sonho já é possível, as incríveis máquinas voadoras permitem o deslocamento do homem ao espaço. A Lua é um local de pouso, mas como ainda não somos pássaros, o sonho continua.
A escola perpassa a magia do voar desde a mitologia grega até os grandes inventores, como Leonardo da Vinci e o brasileiro Santos Dumont.
Composição: Wander da Anchieta e Léo do Cavaco
Houve um tempo passado, muito triste e lamentado, que hoje a história registra na luta das pessoas negras. Diante da resistência dos índios à escravidão, os portugueses e paulistas recorreram ao servilismo do negro africano. Desde 1531, há notícia da escravidão negra no Brasil.
Durante a invasão holandesa, em Pernambuco, o número de escravos fugidos no interior de Alagoas foi enorme. Formaram-se então os quilombos, refúgios de negros fugitivos que lutavam a preço de sangue pelo direito de liberdade. Desses grupos, o de Palmares foi o que mais tempo durou, de 1630 a 1695, e o que ocupou maior área territorial, cerca de quatrocentos quilômetros quadrados dos atuais estados de Pernambuco e Alagoas.
Entre fugas e batalhas, o paraíso de Palmares foi criado para ser o símbolo da resistência dos negros escravizados. Chega de açoite, chega de lamento, a bravura e a resistência voam com a esperança em busca da liberdade. Vidas sacrificadas, sangue derramado, nada foi em vão.
E é com essa força aguerrida que a Mocidade vai pisar na avenida para mostrar sua garra e apresentar essa justa homenagem aos negros que hoje conquistaram seu espaço.
Composição: Junão Lima, Tuta Do Irapuru, Odimar Do Banjo, Leandrinho Lv, Ramiro Perré, Nei Melodia
A escola traz para 2026 o batuque da umbigada, dança de expressão simbólica de saudação advinda da costa do continente africano, especialmente de Moçambique e das comunidades de linguagem Bantu. Dentre as danças circulares desse povo, destaca-se a “Caiumba” que reúne homens e mulheres em roda e na qual seus praticantes batem seus umbigos um no outro como forma de gratidão à vida.
No Brasil, escravizados da região foram levados para plantações de cana-de-açúcar nas cidades do interior paulista, um trabalho árduo e sacrificado. Um dos únicos consolos desses trabalhadores era, no cair da noite, dançar caiumba, que, com o tempo, passou a exigir um ritmo mais concentrado e ensejou a criação do “tambu”, um tipo de tambor de madeira revestido com pele animal. A pessoa responsável pelo instrumento passou a ser chamada de “batuqueiro”.
A dança se espalha para as comunidades quilombolas e ao ritmo do “tambu” passa a incorporar poesias, cantos e lamentos do tempo de cativeiro, escravidão e dor, preservando a memória dos seus ancestrais.
Na umbigada, o culto aos orixás também se fez presente e se entrelaça com a devoção dos santos católicos em um sincretismo religioso no qual o sagrado se funde em diferentes formas, mas em uma única essência. É dessa forma que a Água na Boca reverencia a ancestralidade do povo preto que foi escravizado, trazendo alegria e alento no ritmo do batuque e da umbigada, que também viraram samba de roda, samba de terreiro e samba de enredo.
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