Expedição monitorada, em Bertioga, no litoral de São Paulo, tem duração aproximada de cinco horas e trajeto chega até paredão com mais de 50 metros
Thomas Henry
Publicado em 12/12/2025, às 10h42 - Atualizado em 06/02/2026, às 16h38
A Serra do Mar, que pode ser vista por quase toda Bertioga, no litoral de São Paulo, impõe-se como uma muralha verde, aparentemente inalcançável. No entanto, a incursão pela Trilha da Torre 47 revela uma experiência turística imersa na biodiversidade da Mata Atlântica.
O Costa Norte percorreu o trajeto, acompanhado do monitor Saulo Rodrigues, da agência O Cheiro da Terra Caiçara, na rua Juramidam, bairro São João. A expedição documentou o percurso, de nível médio e com duração aproximada de cinco horas.
A narrativa histórica começa na travessia da ponte da Banana, cuja estrutura foi erguida em 1929, e que permanece funcional apenas para travessia de pedestres. O local servia de rota para escoamento da produção agrícola até o porto de Santos e, simultaneamente, garantia acesso à manutenção das torres de transmissão da histórica Usina Hidrelétrica de Itatinga. Poucos metros à frente, atravessamos outra ponte ainda mais antiga, de 1916.
Ao avançarmos mata adentro, chegamos a nossa primeira parada contemplativa, sobre o rio Água Branca, cujas águas cristalinas correm sobre um leito arenoso pontilhado por fragmentos de conchas brancas.
A presença calcária ali não é geológica, mas arqueológica: indica a existência de sambaquis — montes constituídos por materiais orgânicos acumulados por povos originários, que habitavam a região muito antes da colonização, evidenciando ocupação humana milenar, muitas vezes encoberta pela vegetação.
À medida que a trilha se aprofunda, a dinâmica da flora se destaca, e Saulo Rodrigues aponta a competição silenciosa por recursos. Árvores da espécie Mata-Pau (Ficus americana) envolvem hospedeiras de grande porte, em processo de estrangulamento biológico para alcançar a luz solar, enquanto embaúbas (Cecropia) colonizam clareiras abertas por quedas naturais, iniciando o processo de regeneração da mata.
Há, contudo, cicatrizes recentes. Uma jaqueira (Artocarpus heterophyllus), espécie exótica de origem asiática, destoa da vegetação nativa e marca a localização de um antigo rancho de caça, hoje demolido.
No solo, a decomposição lenta de materiais sintéticos, como restos de colchões e plásticos, mistura-se às raízes, documentando o impacto da presença humana não regulada.
A expedição também proporciona observação de espécies usadas tradicionalmente e com características peculiares. É o caso da patioba (Syagrus botryophora), planta cujos talos rígidos, quando percutidos, emitem som reverberante, técnica utilizada no passado para comunicação a distância entre indígenas e mateiros, como explica Saulo.
Durante o percurso, o olfato é acionado pela raiz do filodendro (Philodendron), que exala aroma cítrico comparável ao da manga verde, enquanto a brinco de onça (Psychotria), como é popularmente conhecida, destaca-se por suas propriedades alucinógenas.
A fauna local exige atenção aos detalhes, favorecendo a sobrevivência por meio do mimetismo. Durante o percurso, a reportagem registrou o sapo-folha (Proceratophrys), anfíbio que se funde visualmente à serapilheira do chão da mata, e mariposas com padrões de asas que simulam predadores como corujas, uma defesa evolutiva contra aves.
Insetos como besouros, que habitam troncos em decomposição, revelam mecanismos de defesa sonora, vibrando o abdômen ao serem perturbados.
O trecho final da expedição impõe uma mudança geográfica. O terreno plano cede lugar à subida da serra, exigindo a transposição de trechos íngremes com auxílio de cordas e raízes expostas.
A ascensão leva ao mirante da trilha da Torre 47, ponto de observação pelo qual podemos apreciar a cidade de Bertioga em uma vista privilegiada.
Já o destino final é o Paredão da Torre 47, uma formação rochosa vertical que, de acordo com a medição de drone, conta com mais de 50 metros de altura. O local representa o limite da trilha e oferece um ambiente no qual é possível aproveitar a água da cachoeira.
A visitação à trilha da Torre 47 segue normas rígidas de preservação. O acesso autônomo é proibido, sendo obrigatória a contratação de monitores ambientais credenciados junto à Fundação Florestal ou ao Parque Estadual Serra do Mar. O custo da operação pode variar dependendo da agência e do formato do grupo.
Para a segurança dos visitantes, exige-se o uso de calçados fechados e adequados para terreno irregular. Recomenda-se portar água, alimentação leve, protetor solar e repelente, item essencial devido à incidência de insetos hematófagos como as mutucas (Tabanidae).
O agendamento deve ser realizado previamente com operadores locais, como a agência O Cheiro da Terra Caiçara, que pode ser contatada pelo telefone (13) 99606 5020 e diretamente com a Fundação Florestal.
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