Com mar tranquilo, comunidade tradicional e um passado ligado a frei Pio, praia no norte de Ubatuba também abriga um cemitério centenário
Rhauanny Queiroz
Publicado em 23/09/2026, às 15h00
Entre o manguezal, o rio e o mar, a praia Estaleiro do Padre preserva características que ajudam a contar um pouco da história de Ubatuba. Com aproximadamente 1,5 quilômetro de extensão, a faixa de areia compacta e escura é acompanhada por vegetação e águas tranquilas, cenário que contrasta com as histórias que permanecem entre os moradores da região.
Localizada na região do Ubatumirim, a praia é conhecida pela comunidade local como Estaleiro do Padre, nome relacionado à atuação do frei franciscano Pio Populin, que encontrou na comunidade caiçara uma missão que ultrapassava os limites religiosos. Foi ali que ele construiu um estaleiro responsável pela fabricação de uma pequena embarcação que ajudou a aproximar os moradores do restante de Ubatuba.
Além da relação com frei Pio, a praia guarda outro capítulo importante de sua história: o Cemitério Centenário do Ubatumirim, localizado no canto esquerdo da faixa de areia. O espaço reúne antigos moradores e personalidades ligadas à história local e, segundo relatos da comunidade, também recebeu pessoas escravizadas que morreram na região.
A praia Estaleiro do Padre fica a aproximadamente 33 quilômetros do centro de Ubatuba e tem cerca de 1,5 quilômetro de extensão. O acesso é feito por uma estrada secundária de terra batida, na altura do km 15,3 da rodovia Rio-Santos.
O caminho acompanha um trecho de manguezal até chegar à praia. Na orla, é comum o tráfego de veículos, característica que chama atenção de quem chega ao local. A faixa de areia é compacta e escura, enquanto o mar tranquilo favorece o banho e a presença de famílias com crianças.
No lado esquerdo, uma costeira rochosa cercada por árvores marca a paisagem. Já no lado direito, o rio Ubatumirim faz a divisa com a praia de Ubatumirim.
A região também mantém características de uma comunidade tradicional de pescadores. Ao amanhecer e no fim da tarde, embarcações podem ser vistas próximas à praia e, em algumas ocasiões, os pescadores comercializam o próprio pescado no local.
Apesar do perfil mais tranquilo, a praia conta com alguns quiosques rústicos instalados à beira-mar, onde são servidas porções, pastéis e bebidas. A área também possui camping e entorno arborizado, mantendo uma paisagem marcada pela presença da natureza e pela rotina da comunidade local.
Por estar voltada para o mar aberto, a praia Estaleiro do Padre também permite avistar algumas ilhas da região. Entre elas estão as ilhas da Pedra, Redonda, do Negro ou da Pedra, das Couves, dos Porcos e Prumirim.
O cenário ajuda a entender por que a praia mantém uma relação próxima com a atividade náutica e com a pesca, que ainda aparece na rotina dos moradores.
O nome pelo qual a praia ficou conhecida está diretamente relacionado ao frei franciscano Pio Populin. Nascido em Buia, no nordeste da Itália, frei Pio imigrou para o Brasil em meados da década de 1960 e chegou a Ubatuba em 24 de julho de 1966.
Ao percorrer diferentes bairros, praias e sertões do município, encontrou no Ubatumirim uma comunidade caiçara que vivia isolada e enfrentava dificuldades para chegar ao centro da cidade em busca de atendimento médico, medicamentos e outros produtos.
Na época, os moradores dependiam de canoas rudimentares para fazer esse deslocamento. Foi nesse contexto que frei Pio construiu um estaleiro, onde foi fabricado o pequeno barco Anita.
A embarcação passou a transportar moradores da comunidade e também ajudava no deslocamento dos produtos da agricultura e da pesca até a cidade. A partir daí, o local passou a ser chamado carinhosamente de Estaleiro do Padre, nome que permaneceu entre os moradores.
A atuação de frei Pio também esteve ligada à construção de um posto de saúde, da creche Francisquinho, da igreja São Francisco de Assis e de um asilo em Ubatuba. Ele dedicou mais de 44 anos à cidade e morreu em 18 de novembro de 2009, aos 96 anos.
Em frente à praia está a chamada ilha do Negro, também conhecida como ilha da Pedra. A origem do nome é associada, segundo relatos antigos, a um período marcado pela escravidão.
A história contada por antigos moradores diz que senhores de engenho deixavam pessoas escravizadas na pequena ilha como forma de punição. Essa versão, porém, não é claramente documentada e não há evidências apresentadas no material que confirmem que a ilha tenha sido utilizada para esse fim.
Por isso, a história permanece como um relato associado à memória local, sem confirmação documental apresentada na fonte.
No canto esquerdo da praia Estaleiro do Padre está outro espaço que ajuda a revelar o passado da região: o Cemitério Centenário do Ubatumirim. O local fica próximo à faixa de areia e reúne pessoas ligadas à história da comunidade. Segundo relatos dos moradores, o cemitério também recebeu pessoas escravizadas que morreram na região.
Mais do que um espaço de sepultamento, o cemitério é apresentado pela memória local como um registro da ocupação antiga daquela área. Antes da chegada da rodovia Rio-Santos e da expansão do turismo, a região já era ocupada por uma comunidade que mantinha suas próprias relações com o território.
O acesso fica no canto esquerdo da praia, por uma via próxima ao quiosque do Jeremias. O caminho passa pelo Coletivo Neos, Instituto de Sociobiodiversidade, antes de chegar ao cemitério.
Em 2018, a prefeitura de Ubatuba realizou obras de melhorias no espaço. Antes disso, o acesso era feito a pé por uma trilha, o que dificultava os cortejos fúnebres. Após as intervenções, veículos motorizados passaram a conseguir chegar até o local.
Antigos moradores também relatam que o cemitério recebia muitos visitantes no Dia de Finados, em 2 de novembro. Segundo essas memórias, algumas pessoas chegavam de carro e outras por embarcações, formando um movimento que podia se estender entre o cemitério e a praia.
O acesso à praia Estaleiro do Padre é feito pela rodovia Rio-Santos, na altura do km 15,3, em Ubatuba. A partir da rodovia, é necessário seguir por uma via secundária de terra batida que acompanha o manguezal até a praia.
O trajeto leva até a faixa de areia, onde o tráfego de veículos é comum.
A praia Estaleiro do Padre reúne elementos que vão além da paisagem litorânea. O estaleiro construído por Frei Pio, a tradição pesqueira, o cemitério centenário e os relatos preservados pelos moradores ajudam a revelar diferentes momentos da história do Ubatumirim.