Entre as praias Grande e Vermelhinha, faixa de areia urbanizada reúne ondas, quiosques e um sítio arqueológico descoberto durante uma obra
Rhauanny Queiroz
Publicado em 23/09/2026, às 14h00
Quem chega à praia do Tenório, em Ubatuba, encontra uma faixa de areia urbanizada, movimentada e cercada por quiosques, vendedores ambulantes e casas entre a vegetação. Mas a paisagem atual esconde uma história que remonta a milhares de anos.
Localizada na região central de Ubatuba, entre a praia Grande e a praia Vermelhinha, a praia tem acesso fácil e fica próxima ao centro da cidade. Com areia fina e branca e mar com ondas constantes, também é procurada para a prática do surf.
A faixa de areia é descrita nas informações do local com aproximadamente 800 metros de extensão, enquanto outra referência aponta cerca de 500 metros. O Tenório conta ainda com restaurantes, quiosques e presença de salva-vidas, além de ser uma praia urbanizada e procurada por famílias.
Apesar de ser uma praia bastante frequentada, o mar ali merece atenção em alguns pontos. A região do canto direito é especialmente observada pelos guarda-vidas devido à presença de corrente de retorno. Há também placas de sinalização de perigo no local, e os profissionais orientam os banhistas sobre os riscos das correntezas.
Quando a maré está baixa, as pedras localizadas nas extremidades da praia ficam aparentes e mudam o visual da faixa de areia. Na costeira do lado direito, caminhando com cuidado, é possível observar a própria praia do Tenório e a ilha Anchieta.
A principal curiosidade do Tenório, porém, não está apenas na paisagem. Em 1962, durante a construção de um condomínio na praia, foi descoberto um sítio arqueológico com idade estimada em cerca de 2 mil anos. A descoberta ajudou a revelar vestígios da presença de antigos habitantes na região de Ubatuba.
Entre os materiais encontrados estavam ossadas, sambaquis, pedras lascadas, fragmentos de cerâmica e dentes de animais utilizados como adornos. As escavações realizadas posteriormente, na década de 1970, pelos arqueólogos Dorath Pinto Uchoa e Caio Del Rio Garcia, identificaram uma grande quantidade de vestígios deixados pelos povos que ocuparam a área.
O sítio arqueológico originalmente ocupava uma área de 384 metros quadrados e teve seu período de ocupação estimado em aproximadamente 100 d.C. Durante as escavações, foram identificados 73 indivíduos sepultados, alguns acompanhados por colares, pingentes e objetos funcionais. Também foram encontradas inúmeras fogueiras relacionadas aos rituais funerários.
Artefatos recolhidos chegaram a 20.507 peças. Entre elas estavam ferramentas de pedra, lâminas de machado, batedores, suportes, ferramentas fusiformes e grande quantidade de lascas. Também foram encontrados objetos feitos de osso, como pontas de projéteis e furadores.
Os dentes de animais tinham diferentes usos. Alguns eram transformados em furadores, enquanto outros eram utilizados como adornos em colares e pulseiras. Entre os animais representados nos materiais estavam macacos, quatis, onças, gambás e tubarões.
Também foram encontradas conchas trabalhadas para formar contas e pingentes de colares.
O nome atual também carrega uma história própria. Segundo o material histórico fornecido, a praia teria sido conhecida anteriormente como praia do Regalado, em referência à família que viveu na região por mais de um século.
Um dos moradores citados foi Pedro Tenório de Regalado, que teria vivido no local por 77 anos e morreu em 1879. Mesmo depois de sua morte, seus descendentes permaneceram na região. Já nas décadas de 1930 e 1940, o local passou a ser chamado também de Prainha.
A denominação praia do Tenório teria sido retomada posteriormente, durante a negociação das terras no final dos anos 1940 e início dos anos 1950. O novo proprietário, o médico pediatra e ex-prefeito de São Paulo, Wlademir de Toledo Piza, teria resgatado parte do nome de Pedro Tenório de Regalado e colocado placas com a denominação praia do Tenório.
Além da arqueologia e da história do nome, a praia do Tenório também possui uma lenda. A história fala sobre a 'bruxa Brisa', que teria vivido em uma das pedras da costeira. Segundo a lenda, durante o inverno, quando algumas pedras do lado direito ficam mais aparentes, Brisa sentiria frio.
O tremor da personagem seria responsável por provocar fortes ventanias que afastariam a areia da praia. A mesma história também atribui a ela os dias de mar mais bravo, especialmente no lado direito do Tenório.
Trata-se de uma lenda associada à praia, e não de uma explicação comprovada para os fenômenos naturais do local.
O acesso ocorre por uma via urbana na altura do km 53 da BR-101, seguindo por aproximadamente 1,5 quilômetro. Existem dois principais acessos à praia. Um deles fica no lado direito, por meio de um condomínio com passagem liberada. O outro está no canto esquerdo, seguindo em direção à praia Vermelhinha.
Para quem estaciona nas ruas próximas, é necessário pagar a taxa de Zona Azul.
A praia do Tenório pode parecer, à primeira vista, apenas mais uma faixa de areia urbanizada e movimentada do centro de Ubatuba. Mas, por trás dos quiosques, das casas e do movimento de banhistas, existe uma história que atravessa milhares de anos.
As descobertas arqueológicas feitas no local revelaram sepultamentos, ferramentas, adornos e outros vestígios de antigos habitantes da região. Já as histórias mais recentes explicam as mudanças no nome da praia e preservam até mesmo uma lenda sobre uma bruxa que viveria nas pedras da costeira.