Além do Brasil, existem apenas outras três gôndolas originais fora de Veneza pelo mundo: Canadá, Rússia e China
Reginaldo Pupo
Publicado em 26/07/2024, às 15h51
Uma pequena Itália, com seus costumes, encantos e tradição, em pleno solo brasileiro. Isso é Nova Veneza, um município situado ao sul de Santa Catarina, a 223km de Florianópolis. Considerado o mais italiano do estado, se destaca por sua história, natureza exuberante e gastronomia inigualável.
O ano de 1891 foi um marco para a cidade, pois é o período da chegada de cerca de 400 famílias oriundas do norte da Itália, que desembarcaram em solo catarinense e fundaram a então colônia Nuova Venezia. Até hoje, o município tem forte influência italiana, devido à herança dos antepassados que ainda sobrevive nos costumes e tradições.
E as influências italianas alavancaram Nova Veneza para o turismo. A pequena e pacata cidade surpreende por seus diversos atrativos. O principal cartão-postal, inclusive, veio da Itália. É a gôndola Lucille, exposta na principal praça de Nova Veneza, que chegou à comunidade em 2006.
Trata-se de um valioso e incalculável presente do governo vêneto, enviado para estreitar os laços entre Veneza, na Itália, e Nova Veneza, no Brasil. A gôndola é original e foi utilizada nos canais de Veneza antes de ser doada aos neovezianos. A Lucille foi fabricada de forma artesanal por um estaleiro com mais de 700 anos de história.
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Desde que chegou à Nova Veneza, a embarcação impulsionou o turismo local, apesar de o equipamento não ser navegável, ou seja, é estático e amarrado a um deque de madeira. Os visitantes podem entrar na gôndola para fazer fotos. Em dias de grande movimento, há até filas de turistas aguardando a vez, já que o lugar é “instagramável” e todos querem levar um registro da Lucille, que fica na praça Humberto Bortoluzzi, a principal da cidade, em um lago artificial. Até quatro pessoas podem acessar a embarcação por vez e não há cobrança de ingressos.
Entrar em uma gôndola fora da Itália é um privilégio. Segundo a Anet (Associação Neovenezia de Turismo), além da embarcação de Nova Veneza, existem apenas outras três gôndolas, doadas oficialmente pelo governo de Veneza, ao redor do mundo, que estão em Toronto (Canadá), São Petersburgo (Rússia) e Pequim (China).
Nova Veneza possui muitos atrativos além da gôndola. São opções culturais, gastronômicas, religiosas e para os amantes do ecoturismo e enoturismo. O passeio pode começar a partir da própria praça onde está localizada a gôndola, já que a maioria dos atrativos está próxima e é possível percorrer a pé.
Muito bem cuidada, sem nenhum papel de bala, ou chiclete no chão, repleta de flores multicoloridas e arandelas, a praça Humberto Bortoluzzi faz lembrar muitas pracinhas de cidades italianas. É o reduto de moradores mais antigos, que se reúnem para jogar conversa fora e colocar os assuntos em dia. Muitos, inclusive, falam o dialeto vêneto e bergamesco, preservando com orgulho suas origens.
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Cercada por muito verde, é um lugar perfeito até para a prática do birdwatching, já que diversas espécies de pássaros vivem por ali, principalmente, ao amanhecer e entardecer. Em seu entorno, há diversos restaurantes, barzinhos, cafeterias e lojinhas de artesanatos.
Ao lado da gôndola, há uma Roda D´Água construída para celebrar o centenário da colonização italiana. Nela, uma placa registra os sobrenomes das famílias italianas que colonizaram a cidade. Ali perto, a rua coberta (Nicolau Pederneiras) é fechada aos finais de semana para o trânsito de pedestres. Com isso, os barzinhos, cafeterias e restaurantes podem colocar as mesas na rua, criando um corredor gastronômico bem interessante, espaço para caminhadas e para as crianças brincarem.
E não é uma cobertura qualquer. A estrutura recebeu lambrequins nos beirais, rosáceas com vidro colorido, arabescos e luminárias no estilo de arandelas. A cobertura torna a rua ainda mais charmosa e resgata elementos presentes na arquitetura italiana e, especialmente, na cidade de Veneza.
Volta ao passado
A poucos metros da praça e da rua coberta está o museu do Imigrante Cõnego Miguel Giacca, fundado em 1991, também em homenagem ao centenário de Nova Veneza. A instituição tem a missão de preservar, pesquisar e divulgar a memória, a história e a identidade cultural da cidade.
Entre seus cerca de três mil itens do acervo há rádios, vitrolas, materiais utilizados na agricultura, imagens religiosas, máquinas de escrever, entre outros objetos doados por famílias imigrantes. Talvez o item mais valioso do museu é o livro de entrada dos imigrantes na então colônia de Nuova Venezia. O documento registra todas as famílias de imigrantes que chegaram à antiga colônia e fixaram residência.
Entre as peças mais antigas está um goniômetro, que data do mesmo ano da chegada dos italianos à cidade, 1891, doado pela família Coral. Ele foi utilizado para a realização de medição de terras. Três rifles, doados pela família Ostetto, também são tidos como alguns dos objetos mais antigos do museu. Ele funciona de terça-feira a domingo, das 10h às 12h e das 13h às 17h e fica na rua Cõnego Miguel Giacca, largo Dom Jaime Câmara, no centro. Informações podem ser obtidas pelos telefones (48) 3436 5791 e (48) 3471 1758.
Ao lado do museu, aproveite para visitar a igreja matriz de São Marcos, o padroeiro de Veneza. Os sinos e o relógio da torre foram trazidos de Turim, também na Itália. Vale a pena observar a nave da igreja, cujas pinturas representam a vida de Jesus desde seu nascimento até a ascensão. As pinturas foram feitas entre 1950 e 1951, pelo italiano Pedro Cechetto. As missas realizam-se às quartas-feiras, às 15h; aos sábados, às 18h, e aos domingos, às 8h e 18 horas.
Amor eterno
Os moradores antigos de Nova Veneza se encontravam, lá pelos idos de 1930, em uma ponte de madeira para namorar, nas proximidades da praça central. Décadas depois, uma passarela foi construída e substituiu a ponte, batizada de ponte Dei Morosi, que, no dialeto vêneto, significa Ponte dos Namorados.
Atualmente, a passarela, com estrutura feita de ferro, pintada de verde, com corrimãos verde e vermelho e guarda-corpo, se transformou em um atrativo turístico. Caso existissem guarda-chuvas coloridos na parte superior, certamente haveria filas para boas fotos.
Além da passarela em si, o que mais chama a atenção na hoje conhecida 'Ponte dos Namorados' são centenas de cadeados presos ao guarda-corpo da passarela, alguns com nomes de casais, que, segundo a lenda, simbolizam o amor eterno. Mas há quem diga que ali também é um excelente lugar para tentar encontrar um(a) parceiro(a). Será?
Casas de pedra e vinícola
Fora do centro de Nova Veneza, outro atrativo bastante procurado pelos turistas são as Casas de Pedra, três construções erguidas em 1891 e intactas, exatamente como foram construídas, apesar de uma restauração realizada em 2002. Atualmente, elas não são habitadas, pois a terceira geração da família deixou as casas na década de 1960.
Desde então, a família, agora na quinta geração, transformou as casas em uma espécie de museu, com alguns móveis em exposição para os visitantes. Com isso, os turistas realizam uma volta ao passado, já que é possível visitar a cozinha com seu fogão a lenha e a sala de uma das casas. Em outra casa, ainda existem as malas trazidas pela família na viagem da Itália para Nova Veneza. Jovens ficam impressionados com a forma rudimentar na qual as pessoas da época viviam.
As Casas de Pedra foram tombadas em 2011 como Patrimônio Histórico Nacional e Patrimônio Arquitetônico do Estado de Santa Catarina. O conjunto foi construído por meio de uma técnica que utilizava pedras, apenas encaixadas, ferro e barro, e que demorou 14 anos para ser concluído pelas mãos do “nonno” Luigi Bratti.
À época, as casas eram subaproveitadas. Uma delas era usada apenas para guardar animais e mantimentos. Outra era usada apenas como cozinha e local para as refeições. E a terceira casa era utilizada como dormitório, já que a família evitava dormir na mesma casa onde existia a cozinha, com medo do fogão a lenha. As visitas podem ser feitas aos sábados e domingos, das 13h às 17h, com hora marcada pelo telefone (48) 3436 1168.
Carnevale, o carnaval típico de Veneza
Quem nunca viu pela TV ou internet imagens do Carnaval de Veneza, quando os “foliões” se divertem mascarados? Quem sempre teve vontade de participar desta festa a fantasia, não precisa mais se dirigir à Itália. Em Nova Veneza, o Carnevale di Venezia realiza-se anualmente nos meses de junho e atrai turistas de todo o país.
O evento é realizado paralelamente à Festa da Gastronomia Típica Italiana e é reconhecido como o maior do gênero fora da Itália e, a exemplo do país europeu, se transforma em um espetáculo cultural, feito com muita paixão, mistério (por causa das máscaras) e a magia que retratam a folia que, em Veneza, ocorre desde o século XVI.
Com trajes e máscaras coloridas, as personagens se divertem dançando em meio ao público, ao som de tradicionais marchinhas traduzidas para o italiano. É possível realizar excursões para a festa. Informações podem ser obtidas pelo telefone (48) 9 9959 6781, com a operadora de turismo Roteiros do Sul, pela qual também é possível providenciar a reserva de hotéis.
Parada obrigatória
Outro cartão-postal de Nova Veneza é seu pórtico de entrada. À noite, ele fica ainda mais bonito devido à iluminação especial que recebe. Ele representa a italianidade presente na cidade. A estrutura foi construída em pedra basalto utilizada pelos imigrantes ao chegaram na colônia. Tem a presença do Leão de São Marcos, que foi fundido em 400 quilos de bronze, um presente da região de Vêneto para a cidade, e, junto da bandeira da Itália, representam a República de Veneza.
Os caldeirões nas laterais simbolizam o trabalho, esforço, dedicação e demonstram a forte presença da gastronomia, pois era na polenta que os colonizadores encontravam forças para realizar as tarefas diárias. Próximo ao portal estão os bonecos do Carnevale di Venezia, representando uma das principais atrações da cidade simbolizados pelo Arlequim, a Colombina e o Pierrô, personagens da Comedia Dell’arte. No local, também existe um letreiro de Nova Veneza.
De Santos, no litoral paulista, para Nova Veneza são um pouco mais de 900Km, cerca de 11h31m, via BR -106 e BR-101.
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