Trabalhador de Bertioga tenta retomar atividades há dois meses, mas está bloqueado; empresa afirma que desativação não está relacionada ao sequestro
Lenildo Silva
Publicado em 05/11/2024, às 11h24
Um motorista de aplicativo de Bertioga, no litoral de São Paulo, enfrenta dificuldades para trabalhar pela Uber, pois foi banido da plataforma dias depois de ter sido sequestrado e roubado por criminosos armados. Enéas Santos Dias, de 42 anos, contou que foi feito refém, teve o carro, documentos e celulares de trabalho roubados pelos falsos passageiros e, desde então, sua conta foi desativada pela empresa. A Uber afirma que desativação do motorista não está relacionada ao sequestro. O motivo seria "descumprimento das políticas e termos de uso da plataforma".
Em entrevista à reportagem, nesta terça-feira (5), Enéas contou que aceitou uma corrida, no dia 5 de setembro, para a capital paulista, com partida de um condomínio no bairro Guaratuba, região norte da cidade. Por volta de meia-noite e meia, um passageiro embarcou e, durante o trajeto, anunciou o assalto e ordenou que o motorista parasse para o embarque de outros dois comparsas. Sob ameaças, o motorista foi conduzido pelos criminosos a uma área de mata fechada no bairro Boraceia.
Ao chegarem ao local, os criminosos amarraram a vítima a uma árvore e levaram seus pertences, que incluíam dinheiro, aparelhos celulares e documentos, com prejuízo de cerca de R$ 20 mil. Durante mais de duas horas, a vítima afirma que permaneceu amarrada sob custódia dos assaltantes; após extorqui-lo, os criminosos fugiram com o carro e os objetos pessoais.
Ao conseguir se soltar, Enéas contou que caminhou até a rodovia Rio-Santos e acionou a Guarda Civil Municipal (GCM) de Bertioga, por meio de telefone de emergência da rodovia. Em seguida, ele foi conduzido ao posto da Polícia Rodoviária, onde registrou boletim de ocorrência (BO).
Na manhã do mesmo dia, o sistema de radar de Mogi das Cruzes, cidade da Grande São Paulo, apontou a passagem de veículo com queixa de roubo, segundo consta no B.O obtido pela reportagem. A polícia foi acionada e iniciou perseguição; os suspeitos só pararam ao colidir o veículo contra um caminhão, na altura do KM 28 da rodovia Ayrton Senna, em Guarulhos, e a mais de 80km do local do crime. Um dos suspeitos conseguiu escapar pela mata e outro foi detido no local.
Durante a abordagem, os policiais encontraram, dentro do veículo, pertences da vítima e um revólver carregado com seis cartuchos intactos. O suspeito foi preso em flagrante e conduzido à delegacia, na qual a vítima o reconheceu como um dos autores do crime. O veículo e os itens recuperados foram devolvidos ao motorista, enquanto o indiciado foi encaminhado para a carceragem do 1° DP de Guarulhos.
Apesar de o crime ter ocorrido há dois meses, Enéas segue impedido de trabalhar na plataforma. O motorista explicou que, após o roubo, precisou alugar um carro por R$ 900 semanais para continuar trabalhando. No entanto, após alguns dia, foi surpreendido pela desativação da conta na plataforma Uber. Segundo o motorista, a plataforma o baniu por “fazer algo que não está de acordo com as normas do app”.
O motorista acredita que o roubo dos documentos e dos celulares de trabalho possam ter sido usados indevidamente, o que, segundo ele, gerou suspeita de irregularidades na plataforma; ele afirmou que vai acionar a justiça contra a decisão. Ainda abalado pela acusação de fraude, Enéas contestou o posicionamento da Uber e ficou indignado com a situação. “Sempre tive uma vida íntegra e trabalhei desde os 18 anos. Ser acusado de fraude por uma empresa para a qual trabalhei é muito humilhante e injusto”, desabafou.
Procurada pela reportagem, a Uber informou que a desativação de Enéas foi motivada pelo descumprimento das políticas e termos de uso da plataforma, mas não esclareceu quais seriam, e que o caso do assalto não tem relação com a decisão da plataforma, já que ele trabalhou normalmente após o incidente relatado. A empresa esclareceu, ainda, que o motorista pode solicitar revisão do seu caso, para contestar a medida, e que ele teria sido previamente informado sobre o processo de transparência e as razões da suspensão.
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