Protetores acompanhavam a tutora há dois meses e acionaram a Justiça após recusa de ajuda no litoral
Redação
Publicado em 26/09/2026, às 15h41
Uma operação conjunta entre a Polícia Militar, oficiais de Justiça e voluntários de causas de proteção animal resultou no resgate de 17 cães mantidos em situação extrema de maus-tratos, no bairro Água Fria, em Cubatão.
O cumprimento do mandado judicial ocorreu em um imóvel localizado na rua do Alojamento, após uma sequência de denúncias formuladas por moradores e ativistas que monitoravam o local.
Ao ingressarem na propriedade, os agentes e protetores encontraram um cenário degradante de insalubridade. Os animais viviam presos em correntes curtas, cercados por montanhas de lixo acumulado, lama, urina, fezes secas e presença de roedores.
A estrutura do imóvel não oferecia cobertura adequada contra o Sol forte nem tempestades, e o espaço exíguo impedia qualquer tipo de mobilidade básica ou socialização dos cães. A intervenção judicial foi articulada após dois meses de monitoramento presencial efetuado por voluntários da região.
De acordo com os ativistas, a tutora do imóvel vinha recusando sistematicamente ofertas de assistência externa para vacinação, castração e higienização do espaço, o que levou ao agravamento da situação e à judicialização do caso.
Um dos pontos que mais chamou a atenção da equipe durante a apreensão foi o estado físico dos animais. Diferente de episódios de maus-tratos em que o esqueleto dos cães fica exposto, os cães resgatados em Cubatão apresentavam um inchaço severo, o que inicialmente poderia sugerir uma alimentação adequada.
A ilusão visual de ganho de peso, no entanto, decorria de uma dieta desequilibrada e da privação total de exercícios físicos. A moradora alimentava o grupo exclusivamente com paneladas de arroz cozido e fubá.
A presidente do Instituto Eliseu, Leila Abreu, que acompanhou a remoção de todos os animais, detalhou como a combinação entre alimentação inadequada e restrição espacial afetou a saúde dos cães:
"Ela fazia arroz e fubá e mantinha eles numa corrente de 30 centímetros, então é claro, qualquer ser engorda numa corrente de 30 centímetros comendo só carboidrato todo dia. Então eles só são inchados, eles não estão alimentados", disse.
Veterinários apontam que a alimentação restrita a carboidratos puros em animais carnívoros gera quadros graves de desnutrição proteica, esteatose hepática, problemas articulares pela falta de movimentação e distensão abdominal, comprometendo a imunidade global do animal.
Por determinação expressa do Poder Judiciário, os 17 cachorros foram transportados para a sede do Instituto Eliseu, no município vizinho de Santos. Na entidade de acolhimento, os cães passaram por pesagem individual, higienização, vermifugação e alimentação balanceada com ração de alta digestibilidade.
Apenas um dos cães resgatados era castrado. Todos passarão por exames de sangue detalhados e cirurgias de esterilização antes de serem colocados para adoção responsável.
A ocorrência de maus-tratos foi registrada formalmente no 3º Distrito Policial (DP) de Cubatão. O crime de maus-tratos contra cães e gatos é tipificado pelo Artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998), alterado pela Lei Sansão (Lei 14.064/2020).
A legislação prevê pena de reclusão de 2 a 5 anos, proibição da guarda de animais e aplicação de multa para os responsáveis. A população do litoral paulista pode denunciar casos de abandono, aprisionamento ou maus-tratos diretamente à Polícia Militar pelo telefone 190, na Delegacia Eletrônica de Proteção Animal (DEPA) ou junto aos setores de zoonoses e vigilância sanitária municipais.