"Muitas vezes os pais não acreditam que isso acontece. É a dor em silêncio. É o choro em silêncio"
Da Redação
Publicado em 05/07/2019, às 06h40 - Atualizado em 23/08/2020, às 19h41
Os casos de estupro de vulnerável aumentaram 400% neste ano em Bertioga. Em 2019, de janeiro a maio, foram registradas 16 ocorrências, contra apenas quatro registradas nos cinco primeiros meses do ano de 2018. Neste ano, foram registrados casos nos quais o mesmo suspeito chegou a abusar de três crianças, aproveitando-se de trabalhos sociais feitos por sua mulher dentro de casa.
O estupro de vulnerável é um crime tipificado pelo artigo 217 do Código Penal, que significa "ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos", com pena de oito a até 15 anos de reclusão.
Os dados que comprovam o aumento deste tipo de crime, em Bertioga, foram obtidos pela reportagem do Sistema Costa Norte de Comunicação no portal de estatística da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado de São Paulo (https://www.ssp.sp.gov.br/estatistica/pesquisa.aspx).
No endereço eletrônico da SSP, há ainda a explicação: "Para que um crime faça parte das estatísticas oficiais, são necessárias três etapas sucessivas; o crime deve ser detectado, notificado às autoridades policiais e, por último, registrado no boletim de ocorrência".
Perfil do AbusadorDe acordo com o Conselho Tutelar, o abuso sempre parte de pessoas próximas e, em 80% dos casos, o autor é homem. Um amigo da família, o pai, o tio, o padrasto, o avô... Segundo um dos conselheiros, "é sempre assim, alguém de confiança da família. Nesses três anos de gestão, nós só tivemos um caso de uma mulher que molestou/iniciou o filho na vida sexual. Ela achou que tinha esse direito, mas, por cultura, porque ela também foi iniciada pelo pai. Em muitos, a família já passou por isso. O pai ou a mãe já teve abusos também e acabam, infelizmente, os filhos passando pela mesma situação".
Situações em que os menores são abusadosConforme relatado pelo Conselho, esse tipo de abuso ocorre em todas as classes sociais, mas, em geral, a classe média alta não divulga, por medo da exposição. "É muito difícil até apurar, porque também tem um padrão e não querem botar a vida em risco. O que mais vem aqui para nós são casos de pessoas com a vida econômica mais precária". Questionado sobre o situação em que os casos acontecem, o órgão informou que são os mais peculiares possíveis. Já ocorreu dentro de uma creche, mas não se sabe quem é o autor.
Recomendação aos paisA orientação é para que os pais fiquem sempre atentos. "Sempre que sair, deixar com alguém responsável e mesmo assim desconfiar". O Conselho destaca que as redes sociais e a rotatividade de parceiros entre os pais também podem oferecer riscos para a criança. "São raros os casos de abuso com pessoas que não conhecem. Todos os casos em Bertioga são com pessoas conhecidas. Muitas vezes, os pais não acreditam que isso acontece. É a dor em silêncio. É o choro em silêncio, porque muitas vezes a criança ou adolescente não sabe para quem contar e como contar".
Como identificar as vítimas de abusoOs conselheiros explicam que fica difícil de identificar, caso não tenha flagrante. Nesses casos, o jeito mais fácil de perceber é quando o comportamento da vítima muda. Aos poucos, ela vai trazer a mudança com traços, atitudes e até agressividade. "Crianças pequenas, de dois ou três anos, que são colocadas nessa situação, acabam com a sexualidade aflorada. Elas não sabem nem porque é daquela forma e as pessoas já julgam".
Causa do aumento de registrosO órgão esclarece que os abusos sempre ocorreram, mas o aumento deve-se à conscientização e as pessoas estão mais encorajadas a denunciar. "Muita gente não sabia em que canal procurar ajuda, para onde e como denunciar. Como o Conselho Tutelar é muito presente e está mostrando para a sociedade que veio para proteger a criança e o adolescente, agora, elas vêm até o equipamento. Sabem onde denunciar e que é sigiloso".
Piores casosDurante a entrevista, os conselheiros destacaram dois casos que marcaram nesses anos de gestão. No primeiro, divulgado pela redação do Sistema Costa Norte, em 28 de fevereiro deste ano ( http://d.costanorte.com.br/seguranca/29318/homem-suspeito-de-estuprar-filha-apresenta-se-e-e-preso ), o pai é acusado de estuprar a própria filha, dos 13 aos 17 anos. "Ela não sabia que aquilo era um abuso. Quanto tempo ela não sofreu calada, sozinha, sem falar pra ninguém. Aí, quando ela viu a Xuxa, em um comercial, dando depoimento dela também, a menina criou coragem e contou. A partir daí, ela teve o entendimento de que, o que o pai fazia com ela, não era correto. Até então, muitos não sabem, porque as crianças acham que é um ato de carinho".
O segundo é o suspeito Roberto Pinto, de 55 anos. Ele é acusado de molestar três meninas, de nove, 10 e 13 anos, enquanto ocorria um trabalho social em sua casa e chegou até a ameaçar uma das vítimas, dizendo que se os pais descobrissem "iria estuprar de verdade". "Ele se aproveitava de uma situação, na qual a mulher fazia um trabalho social e abusava das meninas. Ele teve a oportunidade de ficar um tempo sozinho com garotas e acabou molestando-as". Ele está foragido desde fevereiro.
Atuação da políciaJosé Aparecido Cardia, delegado titular de Bertioga, ressalta que o estupro de vulnerável é um crime difícil de ser evitado e que é rigorosamente combatido pela Polícia Civil de Bertioga. O delegado frisa que, a exemplo do caso do suspeito do estupro de três meninas, Roberto Pinto, a prisão preventiva foi solicitada em menos de 24 horas do registro da ocorrência mas que, costumeiramente, quando os suspeitos tomam conhecimento de que a família da vítima procurou a polícia, eles fogem. "Com relação ao segundo caso citado na reportagem, do pai suspeito de estuprar a própria filha, o homem foi preso assim que o fato foi comunicado à autoridade policial", informou Cardia, que ainda recomenda aos pais e responsáveis que prestem atenção em seus filhos e, sempre que necessário, procurem a delegacia de polícia de Bertioga.
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