Autoridades temem fuga de criminosos do Rio para Ubatuba e Caraguá, no litoral norte de SP

Situação já ocorreu a partir de 2010. MP-SP diz que CV se expandiu para Ubatuba e Caraguatatuba e teme agravamento da criminalidade na divisa entre RJ e SP

Reginaldo Pupo
Publicado em 30/10/2025, às 12h13

Alguns dos corpos localizados na quarta-feira (29) por moradores do Complexo da Penha, no Rio - Tomaz Silva - Agência Brasil


A cada invasão policial às comunidades do Rio de Janeiro, quando há grande número de mortes, uma preocupação surge entre os municípios do litoral norte de São Paulo, especialmente os residentes em Ubatuba, divisa com o estado fluminense: a fuga de bandidos para o território paulista.

Após a megaoperação das forças de segurança do Rio de Janeiro, nos complexos do Alemão e da Penha, zona norte do Rio, ocorrida na última terça-feira (28), a preocupação voltou à tona. A ação ocorreu em cumprimento de mandados de prisão contra traficantes do CV (Comando Vermelho), que resultou em 121 mortes.

A partir de 2010, quando a Polícia Militar fluminense implantou as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), após vários confrontos com mortes, em tentativa do estado para ocupar as comunidades, diversos criminosos do Complexo do Alemão fugiram para cidades do litoral sul do estado, como Angra dos Reis e Paraty; e para Ubatuba, no litoral norte paulista.



Após se instalarem em Angra e Paraty, os criminosos ocuparam as comunidades locais, que já abrigavam membros locais da facção criminosa. A partir dessa ocupação,  moradores das duas cidades fluminenses passaram a ver bandidos circulando com armamento pesado pelas ruas dos bairros das duas cidades, à luz do dia, algo que não era visto anteriormente.

Alguns dos fugitivos teriam se instalado em Ubatuba, que, segundo moradores de bairros periféricos da cidade, criaram pequenos núcleos do Comando Vermelho. Segundo autoridades policiais, o CV vem atuando nos bairros periféricos de Ubatuba e de Caraguatatuba, em áreas de difícil acesso, como os sertões e regiões afastadas das praias.

O grupo estaria disputando pontos de venda de drogas e também envolvido em grilagem de terras na região. A expansão estaria acontecendo de forma gradual e discreta, possivelmente porque a principal facção paulista, o PCC (Primeiro Comando da Capital), estaria menos interessada no tráfico regional e mais voltada para operações internacionais.



Desovas em Ubatuba

A partir de 2010 foram registrados diversos crimes em Angra dos Reis e Paraty, resultado de disputas entre facções criminosas rivais, mas alguns dos corpos eram desovados em Ubatuba para dificultar as investigações. 

Um dos casos de maior repercussão ocorreu em 11 de fevereiro de 2012, quando a PRF (Polícia Rodoviária Federal) localizou um veículo no acostamento da rodovia Rio-Santos, em Picinguaba, bairro localizado a sete quilômetros da divisa do estado do Rio.

Dentro do veículo, que tinha placas do Rio de Janeiro, havia quatro corpos masculinos. Três deles estavam empilhados no banco traseiro e o quarto localizado no porta-malas. Segundo a Polícia Civil de Ubatuba apurou à época, não havia marcas de tiros ou violência. A corporação investigou a hipótese de que as vítimas teriam sido mortas no Rio na noite anterior e apenas desovadas no lado paulista.



Em uma avaliação preliminar, a Polícia Técnica observou que os quatro homens podem ter sido mortos por asfixia, provavelmente por gás carbônico de escapamento de carro ou alguma substância tóxica. O delegado seccional do litoral norte, à época, Múcio Alvarenga, no entanto, havia adiantado que eles possivelmente tiveram suas cabeças envoltas a sacos plásticos. Os corpos também apresentavam marcas de amarras nos pulsos.

Uma das vítimas foi identificada como Max Eduardo de Souza Melo, de 30 anos. Ele era do Rio de Janeiro e tinha diversas passagens pela polícia naquele estado, onde também já esteve preso. Outros dois também tinham passagens pela polícia sendo que um era foragido do sistema penitenciário. 

Duas semanas depois, ainda em 2012, mais um corpo foi localizado nas mesmas circunstâncias do caso anterior, também na rodovia Rio-Santos, no mesmo km 7, altura do bairro Picinguaba. Desta vez, um rapaz de 21 anos foi encontrado no acostamento, em posição que sugeria desova.



No primeiro caso na região, em 2010, um corpo foi encontrado na rodovia Rio-Santos, na altura da praia de Camburi, também próxima à divisa com Paraty, no Rio. A vítima estava amarrada e apresentava sinais de violência. Há relatos e registros policiais de corpos encontrados no acostamento da rodovia Rio-Santos, em sacos plásticos, ou em áreas de mata, em Ubatuba e também na cidade paulista de Cunha, que faz divisa com o estado do Rio.

Expansão do CV para o litoral norte

No ano passado, o MP (Ministério Público) de São Paulo divulgou que o Comando Vermelho está se expandindo pelo litoral norte paulista, especialmente nas cidades de Ubatuba e Caraguatatuba. A organização estabeleceu pontos estratégicos de tráfico de drogas em áreas onde, até então, o controle era exercido pelo PCC.

O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) monitora o avanço da facção fluminense para a região do litoral norte. Alexandre Affonso Castilho, promotor do Gaeco, manifestou preocupação com a situação, alertando que o avanço do Comando Vermelho é crescente e levanta um novo desafio para as autoridades de segurança pública.



A expansão do CV é vista como um possível início de disputas territoriais na região. O MP  acompanha o desenvolvimento dessa movimentação no litoral norte e reforça a necessidade de vigilância para evitar o agravamento da criminalidade na divisa com o Rio de Janeiro.

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