USP desenvolve vacina experimental contra chikungunya com vírus modificado

Tecnologia desenvolvida pela USP e colaboradores usa vírus modificado que se replica uma única vez e poderá ser adaptada para outras doenças

Rhauanny Queiroz
Publicado em 19/08/2026, às 11h16

Testes iniciais com uma dose do imunizante protegeram camundongos contra o vírus da chikungunya - Sutterstcok


Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e colaboradores da Alemanha desenvolveram uma estratégia para criar uma vacina contra a chikungunya, usando uma versão geneticamente modificada do vírus.

A tecnologia foi apresentada em um estudo publicado na revista científica npj Vaccines e utiliza um vírus capaz de entrar nas células e estimular o sistema imunológico, mas sem conseguir completar novos ciclos de infecção.

Nos primeiros testes, feitos em camundongos, uma única dose foi capaz de proteger os animais. A estratégia ainda está em fase de pesquisa e, segundo os cientistas, poderá futuramente ser adaptada para outros vírus.



A ideia foi criar um vírus que entra na célula e ativa o sistema imune, mas é fisicamente incapaz de se tornar infeccioso. "Assim, o imunizado não apresenta sintomas nem corre o risco de desenvolver a doença”, explica Danillo Lucas Alves Esposito, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP) e primeiro autor do estudo.

A pesquisa recebeu apoio da Fapesp por meio de três projetos e foi desenvolvida em parceria com uma equipe da Universidade de Bonn, na Alemanha.

Como funciona a vacina

As vacinas podem utilizar diferentes estratégias para ensinar o sistema imunológico a reconhecer um agente infeccioso. Entre elas estão as que utilizam vírus atenuados ou inativados, proteínas do vírus, vetores virais e tecnologias baseadas em DNA ou RNA.



A proposta desenvolvida pelos pesquisadores utiliza uma estratégia diferente. O vírus modificado consegue elaborar uma primeira etapa de replicação dentro das células, suficiente para estimular a resposta imunológica, mas depois perde a capacidade de continuar se multiplicando.

Para isso, os cientistas alteraram geneticamente o vírus da chikungunya. No processo natural de infecção, o vírus precisa passar por uma etapa de maturação para conseguir se tornar infeccioso. Essa etapa depende da ação de uma enzima chamada furina, presente no organismo humano.

Os pesquisadores modificaram o vírus para que essa etapa dependesse de uma enzima que não está presente em humanos nem em mosquitos.



Assim, o vírus é ‘ativado’ artificialmente antes da vacinação. Mas, como essa enzima não está presente no organismo humano, o patógeno não consegue realizar novas infecções”, explica Esposito.

Depois da primeira replicação controlada, os vírus produzidos ficam imaturos e incapazes de infectar outras células. Dessa forma, eles funcionam como antígenos, apresentando ao sistema imunológico estruturas que permitem o reconhecimento do vírus.

Testes mostraram proteção

Nos experimentos, os pesquisadores dividiram os camundongos em grupos e avaliaram a resposta à formulação desenvolvida. Os resultados iniciais mostraram que uma única dose foi suficiente para proteger os animais contra a chikungunya.

Além disso, os camundongos imunizados apresentaram capacidade de neutralizar o vírus Mayaro, resultado que chamou a atenção dos pesquisadores e indica um possível potencial de proteção mais amplo.



Os cientistas ressaltam, porém, que os resultados apresentados até agora são experimentais. Os testes iniciais foram realizados em animais, e ainda são necessários estudos adicionais para avaliar a segurança e a eficácia da tecnologia em humanos.

Tecnologia pode ser adaptada

Segundo os pesquisadores, a plataforma desenvolvida não precisa ficar restrita à chikungunya. Como outros arbovírus também dependem de processos semelhantes para se tornarem infecciosos, a tecnologia poderá ser estudada para a criação de imunizantes contra zika e febre amarela, além de possíveis aplicações contra variantes do Sars-CoV-2, vírus responsável pela covid-19.

O grupo pretende avançar nos estudos da vacina contra chikungunya e adaptar a plataforma para outros arbovírus.



* Com informações - Agência Fapesp

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