Pesquisa feita em São Paulo identificou aumento de 40,4% na razão de chances de AVC, por dia adicional de exposição combinada ao calor e ao material particulado fino
Rhauanny Queiroz
Publicado em 30/10/2026, às 11h51
A combinação de ondas de calor e poluição do ar pode aumentar o risco de acidente vascular cerebral (AVC) em idosos, segundo um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).
A pesquisa, feita com dados da capital paulista, identificou que cada dia adicional de exposição a temperaturas elevadas associado à presença de material particulado fino no ar aumenta a probabilidade de ocorrência de um AVC agudo entre pessoas com 65 anos ou mais.
Os resultados preliminares foram apresentados pela professora Alessandra Carvalho Goulart, da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP), durante a Fapesp Week Países Baixos, evento promovido no campus da Universidade de Leiden.
No estudo, uma onda de calor foi caracterizada pela ocorrência de pelo menos dois dias consecutivos com temperaturas máximas de 33,1 °C ou mais. A análise também considerou a concentração de PM10, material particulado formado por pequenas partículas sólidas e líquidas presentes no ar, originadas principalmente da queima de combustíveis veiculares e da poeira inalável.
Quando os pesquisadores avaliaram a combinação entre calor e poluição, identificaram uma elevação de 40,4% na razão de chances de AVC por dia adicional de exposição a essas condições.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram informações do Estudo de Mortalidade e Morbidade do Acidente Vascular Cerebral (EMMA), projeto conduzido na USP com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O banco de dados reúne informações sobre mais de mil casos de pacientes diagnosticados com AVC isquêmico entre 2006 e 2018. Esse tipo de acidente vascular cerebral ocorre quando uma artéria é obstruída e impede a circulação de sangue em uma região do cérebro.
Na análise específica sobre calor e poluição, foram considerados 769 indivíduos diagnosticados com AVC agudo. Desse grupo, 54,2% eram mulheres e 65,5% tinham 65 anos ou mais.
Por meio de um modelo estatístico, a equipe comparou as condições meteorológicas e a qualidade do ar às quais os participantes foram expostos nos dias anteriores ao evento neurológico. A partir dessa análise, foi calculado o efeito acumulado de cada dia adicional de onda de calor.
Quando o modelo avaliou apenas o impacto das temperaturas elevadas, a razão de chances registrada foi de 1,121. Com a inclusão da interação entre a onda de calor e a concentração de PM10, o indicador subiu para 1,404, correspondente a uma elevação de 40,4%.
A pesquisadora Alessandra Carvalho Goulart destacou o alcance dos resultados preliminares.
É a primeira vez que uma pesquisa epidemiológica de base populacional, ou seja, baseada em dados reais de uma grande parcela da sociedade, quantifica, na maior metrópole da América Latina, o impacto direto e agudo do estresse térmico sobre o risco imediato de AVC agudo em idosos”, afirmou à Agência Fapesp.
Segundo Goulart, a exposição a temperaturas elevadas provoca uma sequência de alterações no organismo. O calor intenso pode causar desidratação, reduzindo a parte líquida do sangue e deixando-o mais espesso e viscoso.
A sobrecarga térmica também provoca mudanças na capacidade do corpo de controlar a própria temperatura e na função cardiovascular. Essas alterações podem afetar o fluxo e a pressão sanguínea.
Esse conjunto de alterações afeta o fluxo e a pressão do sangue no corpo e atua como um gatilho direto e imediato para o AVC”, explicou a pesquisadora.
A combinação com a poluição atmosférica torna o cenário ainda mais preocupante para a população idosa, conforme os resultados apresentados pelo estudo.
Além de investigar os efeitos dos fatores ambientais, os pesquisadores analisaram a relação entre hábitos de vida, saúde cardiovascular e alterações nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro.
As investigações utilizaram dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), que acompanha participantes ao longo do tempo para investigar fatores relacionados a doenças crônicas, especialmente as cardiovasculares e o diabetes.
Em uma das análises, a equipe acompanhou 1.285 participantes em quatro etapas de exames, realizadas entre 2008 e 2024. Os pesquisadores avaliaram a saúde cardiovascular por meio do escore Life's Essential 8, da American Heart Association, que considera oito fatores: alimentação, exercício físico, sono, tabagismo, índice de massa corporal, colesterol, glicemia e pressão arterial.
Os resultados indicaram que cada aumento de 10 pontos nesse escore esteve associado a uma redução de 14% na chance de desenvolver lesões graves nos pequenos vasos cerebrais.
Outra análise, feita com uma amostra de 1.200 voluntários, identificou que níveis moderados a elevados de atividade física estiveram associados a uma redução de 21% a 22% no risco de apresentar marcadores de doença de pequenos vasos cerebrais.
Entre os indicadores avaliados estavam pequenas cicatrizes deixadas por infartos cerebrais anteriores, micro-hemorragias e alterações nos espaços que envolvem os vasos sanguíneos do cérebro.
A pesquisa também encontrou associação entre a prática de exercícios e a preservação do volume do córtex entorrinal, estrutura localizada no lobo temporal e relacionada ao processamento da memória e à navegação espacial. Entre os participantes mais ativos, foi observada uma redução de 21% a 30% no risco de atrofia cortical nessa região.
Para Alessandra Carvalho Goulart, os resultados reforçam a importância dos hábitos saudáveis e do acompanhamento cardiovascular.
Esses achados do ELSA-Brasil comprovam que a prevenção cardiovascular e o exercício físico constituem um pilar de proteção individual indispensável para manter a resiliência cerebral em metrópoles que envelhecem rapidamente”, afirmou.
Na avaliação de Goulart, os resultados dos estudos EMMA e ELSA-Brasil mostram a importância de combinar cuidados individuais com medidas voltadas às condições ambientais das cidades.
A pesquisadora destacou o envelhecimento da população como um dos fatores que tornam o tema relevante. Em São Paulo, a população idosa cresceu mais de 50% entre 2010 e 2022 e já ultrapassa 2 milhões de pessoas, segundo os dados apresentados na pesquisa.
Proteger a saúde cerebral e garantir a longevidade em cidades com acelerado envelhecimento exige a implementação de uma estratégia dupla, capaz de aliar o incentivo aos cuidados cardiovasculares no nível individual a ações efetivas de adaptação climática nos centros urbanos”, avaliou Goulart.