“Nós já perdemos: a covid-19 veio para ficar, ela não vai embora em 2021”, alerta pneumologista

Segundo Margareth Dalcolmo, Brasil demorou demais para iniciar um plano nacional de vacinação; médico Drauzio Varella e economista Mônica de Bolle também se dizem pessimistas quanto à contenção do vírus e recuperação econômica em 2021

Da redação
Publicado em 15/12/2020, às 14h49 - Atualizado às 20h10

Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, em 30/08/2020, já durante a pandemia. - FOTO DE Wilton Júnior/Estadão Conteúdo


Com a proximidade do final do ano em meio ao aumento dos casos de covid-19 e instrumentalizaçõs políticas da vacina, começa a bater à porta a o medo de que o ano de 2021 seja como 2020, a começar pelas festas de natal e ano novo.

As duas mais propaladas preocupações do ano, saúde e economia, são também a preocupação de 2021. Se essas preocupações são verdadeiras para todas as cidades do País, elas são ainda mais verdadeiras nas cidades da Baixada Santista,  que têm no intenso fluxo de turistas, uma de suas principais atividades econômicas.  

A recuperação econômica, a possibilidade de uma vacina que foi instrumentalizada pelas disputas de poder, a dificuldade de um retorno à normalidade mesmo com vacina foram discutidas pelos especialistas participantes do debate  E agora, Brasil? sobre a pandemia  de covid-19, promovido na última quinta-feira, 10,  pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico, com patrocínio do Sistema Comércio, através da CNC, do Sesc, do Senac e de suas Federações.



Para Margareth Dalcolmo, pneumologista e pesquisadora da FioCruz, mesmo com a vacina, a covid-19, pela sua constituição, vai permanecer se disseminando. “O Sars cov 2 [corona] é um vírus que veio veio pra ficar, ele não vai embora. Ele não é igual as viroses respiratórias de antes. Essa é a primeira coisa. A segunda é que para viroses agudas a solução não é remédio, não é tratamento, não é protocolo de nenhuma espécie. São vacinas. Vacinas é que resolvem"., o problema, alerta a especialista, é que mesmo com a vacina liberada pela Anvisa, vai levar tempo até que toda a população seja vacinada. 

A pneumologista Margareth Dalcolmo tem sido uma das principais vozes críticas em relação às políticas governamentais de contenção da pandemia de Covid-19 (Foto: reprodução web)

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Por esse motivo, a especialista também critica o tempo que o Brasil levou para iniciar o plano de vacinação em relação aos demais países. “Nós já perdemos, nós já estamos atrasados em relação a isso”

A economista Monica de Bolle concorda com o diagnóstico e acrescenta que, graças a uma série de políticas equivocadas do governo federal, a tendência para o próximo ano é de que a situação atual piore.

Ela argumenta que o Brasil vai entrar em 2021 “sem um plano claro para a campanha de vacinação. Sem assistência para as pessoas que precisam ter assistência do governo, por parte de programas como o auxílio emergencial. Sem o estado de calamidade, que também expira, a não ser que o governo o decrete novamente.” O problema, segundo a economista, é “que uma vez expirado o decreto de calamidade, passa a valer novamente o teto de gastos que é a regra fiscal que constrange e restringe todos os gastos em todas as áreas e particularmente na área de saúde e na área de proteção social que são duas áreas prioritárias.”



Já para o médico e escritor Drauzio Varela, um dos problemas é a instrumentalização política da vacina e a falta de organização. “Essa situação que nós chegamos é a pior possível. É o pior cenário. Porque nós não temos uma organização central pelo ministério da Saúde. Nós temos o Butantan chegando à fase final. O Estado de São Paulo marcando data pra distribuição, pra vacinação.  Curiosamente essa data no dia 25 de janeiro. Dia que a cidade faz aniversário. Nós não temos a vacina ainda produzida aqui. Como é que você marca a data? Não tem sentido. Virou uma política que é absurda nesse momento. Não há nenhuma racionalidade nesse processo. A política invadiu a questão vacinal no Brasil e o resultado vai ser ruim”.

Diante do panorama atual das políticas econômicas e de vacinação, os três especialistas se disseram pessimistas quanto ao futuro.