Ministério pretende intensificar a busca ativa e oferecer acompanhamento a pessoas com comportamento problemático após proibição das apostas
Rhauanny Queiroz
Publicado em 26/09/2026, às 11h59
O fim das bets no Brasil, anunciado nesta sexta-feira (25), abre uma nova frente para a saúde pública: o atendimento de pessoas que desenvolveram problemas relacionados às apostas.
O Ministério da Saúde informou que pretende aumentar os esforços para identificar apostadores com comportamento problemático e oferecer acompanhamento quando necessário.
Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a busca ativa por pessoas com problemas relacionados às apostas já ocorre desde dezembro de 2025, a partir de dados compartilhados pelos ministérios da Fazenda e da Justiça e pela Receita Federal.
O ministro afirmou que os dados utilizados pelo Ministério da Saúde circulam pelo ambiente Nuvem Brasil, que, segundo ele, segue as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e as normas de ética na área da saúde.
Ainda não foram divulgados detalhes sobre o fluxo da busca ativa nem uma previsão para o início das novas etapas de atendimento.
Pessoas que enfrentam dificuldades com jogos e apostas já podem buscar atendimento no SUS. Uma das portas de entrada é o Meu SUS Digital, que disponibiliza um autoteste para ajudar a identificar sinais de comportamento problemático.
A ferramenta não substitui uma avaliação profissional. Quando há indicação de risco, a pessoa pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou utilizar o teleatendimento em saúde mental. Conforme a necessidade, também pode haver encaminhamento para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
O atendimento também está disponível para familiares afetados pelo comportamento de quem aposta.
De acordo com dados apresentados pelo Ministério da Saúde, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores à pesquisa realizada em 2023. Desse grupo, 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático.
A demanda no SUS também aumentou. Entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140%, segundo a pasta. A projeção indicada pelo Ministério é de aumento de mais 104% até 2028.
Os problemas relacionados ao jogo podem envolver ansiedade, depressão, alterações no sono e no humor, perda de controle, conflitos familiares, isolamento e prejuízos financeiros e profissionais.
O Ministério também citou um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), que estima em R$38,8 bilhões por ano o custo social associado aos jogos. Desse valor, R$30,6 bilhões, quase 79%, estão relacionados à saúde, incluindo suicídios, perda de qualidade de vida associada à depressão e tratamentos médicos.
Segundo os dados apresentados pela pasta, a mortalidade por suicídio é 15 vezes maior entre pessoas com transtorno do jogo, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O impacto das apostas também aparece entre os jovens. Pesquisa citada pelo Ministério aponta que 20,4% dos estudantes entrevistados já haviam apostado on-line. O contato pode começar aos 11 anos e, entre meninos do 3º ano do ensino médio, a proporção chegou a 49,7%.
Entre mulheres que apostam ou já apostaram, 65% disseram não ter procurado ajuda por vergonha. Entre as que não apostam, 12% relataram impactos provocados pelo jogo de familiares.
Por isso, o Ministério da Saúde destaca que o cuidado não deve se limitar ao apostador e também pode envolver pessoas próximas afetadas pelo comportamento.
A Medida Provisória publicada nesta sexta-feira (25) proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, incluindo apostas esportivas e jogos on-line.
O cronograma prevê a proibição de novos aportes nas plataformas a partir da publicação da MP. Os apostadores têm até 5 de outubro, às 23h59, para retirar voluntariamente os valores disponíveis.
A partir de 6 de outubro, sites e aplicativos de apostas deverão sair do ar. Entre 7 e 8 de outubro, as empresas deverão informar às instituições financeiras os saldos restantes. A devolução pelos bancos deverá ocorrer entre 9 e 14 de outubro.
O fim das plataformas, porém, não elimina automaticamente os problemas de saúde já existentes. Por isso, a pasta pretende ampliar a identificação e o acompanhamento de pessoas que desenvolveram comportamento problemático relacionado às apostas.
Há dados que expressam o tamanho do problema, mas certamente não conseguem traduzir todo o sofrimento que aparece quando ouvimos os relatos de pacientes, profissionais de saúde e familiares”, afirmou Padilha.