Tecnologia inovadora forma película transparente em 45 segundos e é absorvida pelo corpo; invenção elimina o uso de gazes e ataduras
Redação
Publicado em 21/09/2026, às 15h00
O tratamento convencional de feridas com gazes e esparadrapos costuma causar desconforto e limitar os movimentos dos pacientes. Para solucionar esse problema, pesquisadores da faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp criaram uma tecnologia inédita e biocompatível.
A equipe desenvolveu um curativo líquido, aplicável diretamente sobre a lesão. A invenção reduz o tempo de recuperação do paciente em até 50%, segundo os ensaios pré-clínicos feitos em parceria com a Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ).
A tecnologia cria uma película protetora transparente na área machucada em até 45 segundos. A aplicação dispensa o uso de materiais tradicionais. Os métodos convencionais exigem trocas frequentes, o que gera desconforto e risco de arrancar o tecido novo em formação. Além disso, as ataduras convencionais retêm umidade e o manuseio de instrumentos não estéreis favorece o surgimento de infecções bacterianas.
O coordenador da pesquisa, professor Rubens Maciel Filho, explica que o diferencial do produto está na eliminação do contato físico com a região afetada. De acordo com o docente, as feridas prejudicam a qualidade de vida e limitam as atividades diárias dos pacientes. Para solucionar o problema, a nova tecnologia oferece um método de cobertura que dispensa qualquer toque, gazes ou ataduras.
O especialista detalha que o produto forma um filme inteligente sobre a pele, capaz de bloquear agentes externos causadores de infecções e funcionar como um substrato para acelerar a cicatrização.
A fórmula do curativo utiliza um polímero com alta excelência em biocompatibilidade com o corpo humano. O grande desafio superado pelo grupo foi a solubilização desse material sem o uso de produtos químicos agressivos. A equipe formulou um sistema exclusivo de solventes de origem renovável, sustentáveis e atóxicos.
A doutora em Engenharia Química pela Unicamp, Ana Flávia Pattaro, destaca o ineditismo da solução. “O que existe hoje na pesquisa acadêmica e em empresas internacionais é o uso de solventes tóxicos. A nossa inovação e o nosso grande diferencial em escala mundial foi encontrar um sistema de solventes que solubiliza o polímero sem ser tóxico para o ser humano, permitindo a aplicação direta sobre a pele lesada. Então você não tem que cortar ou ajustar o tamanho dessa membrana: ela vai se adaptar conforme a necessidade de cada paciente”, avalia a pesquisadora.
O líquido atua como uma estrutura 3D que serve de suporte para a regeneração das células. Durante a cicatrização, o próprio organismo metaboliza e absorve o polímero naturalmente, o que torna a remoção manual desnecessária. O material preserva a mobilidade em áreas de articulação, como cotovelos e joelhos, possui resistência à água e permite o acompanhamento visual do machucado devido à sua transparência.
A também doutora e pesquisadora Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon ressalta os ganhos de higiene.
O fato de não precisar cortar e não precisar trocar também traz uma potencial diminuição na contaminação cruzada. Porque, se você tem uma manta ou gaze e pega uma tesoura que não está esterilizada para cortar, você corre o risco de levar contaminação de uma região para outra. E o fato de você não precisar trocar e de esse material ser absorvido pelo corpo faz com que você também não gere resíduos biológicos”, pontua a inventora.
A invenção possui licenciamento exclusivo para a Dermbio Biotech, uma empresa spin-off acadêmica derivada da universidade. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) financiou o projeto, com o suporte estratégico da agência Inova Unicamp. Atualmente, a empresa concentra esforços nas etapas regulatórias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para disponibilizar o produto no mercado.
O professor Rubens Maciel Filho garante a viabilidade comercial do projeto. “A tecnologia é totalmente escalável. Nós já realizamos com sucesso os testes de escalonamento do processo saindo da bancada do laboratório. Desenvolvemos equipamentos e processos próprios que não exigem altos investimentos, o que nos garante alta capacidade produtiva, agilidade e custo competitivo no mercado”, conclui.
O grupo de cientistas também identificou o potencial do produto para a saúde animal, pois a forte aderência à pele evita que cães e gatos arranquem a proteção ou lambam as feridas. No futuro, os pesquisadores planejam expandir o uso da tecnologia para a formulação de dermocosméticos antienvelhecimento, recobrimento de implantes e próteses, além da liberação controlada de antibióticos e anti-inflamatórios.
*Com informações da agência de notícias do governo do estado de São Paulo.